O que poderá substituir os monumentos confederados derrubados nos Estados Unidos?

O governador da Virgínia solicitou US$ 10 milhões para substituir as controversas estátuas erguidas em Richmond por uma arte inclusiva e que reconhece uma história diversa e desafiadora.

Por Phillip Morris
Fotos de Kris Graves
Publicado 22 de dez de 2020 08:00 BRST
Um retrato de George Floyd foi projetado na estátua do general confederado Robert E. Lee em ...

Um retrato de George Floyd foi projetado na estátua do general confederado Robert E. Lee em junho. Diversas estátuas confederadas foram removidas da Monument Avenue em Richmond, Virgínia, e o governador solicita que o estado financie a criação de um espaço público mais inclusivo.

Foto de Kris Graves, National Geographic

DUAS ESTÁTUAS EQUESTRES voltaram a ser manchetes no fim de semana passado após o anúncio do governador da Virgínia, Ralph Northam, sobre o plano de ressignificar parte de um valioso espaço público em Richmond, a capital do estado.

Uma das estátuas é uma homenagem ao general confederado Robert E. Lee, cuja imagem é a última peça remanescente da iconografia confederada que ainda existe na famosa Monument Avenue de Richmond. A estátua de Lee foi erguida em 1890. A outra estátua é de um homem negro não identificado vestido com traje urbano moderno e montado em um cavalo robusto. Intitulada Rumors of War (Rumores de Guerra, em tradução livre), é obra do artista Kehinde Wiley e foi erguida em 2019 em frente ao Museu de Belas Artes da Virgínia (VMFA), a cerca de três quilômetros da estátua de Lee.

A estátua de 12 toneladas de Robert E. Lee foi erguida em 1890. Sua construção foi liderada pelo ex-governador da Virgínia, Fitzhugh Lee, sobrinho do general confederado.

Foto de Library of Congress

No anúncio de sexta-feira, Northam deixou claro que pretende remover a estátua de Lee de sua posição pública, enquanto explora maneiras de expor artes mais diversas como a representada pela criação de Wiley. Ele está solicitando US$ 10 milhões do orçamento estadual do próximo ano — com a esperança de arrecadar mais milhões em doações privadas — para reinventar a arte pública e a narrativa criativa na famosa avenida. O objetivo a longo prazo é ressignificar trechos da Monument Avenue para refletir melhor a herança diversificada da Virgínia e dos Estados Unidos, mas sem evitar a retratação de verdades árduas sobre o passado de segregação racial.

“Esses investimentos ajudarão a Virgínia a contar a verdadeira história de nosso passado e a continuar construindo um futuro inclusivo”, declarou Northam em um comunicado. “Em um momento em que este estado e este país estão batalhando para mostrar uma imagem completa e mais honesta de nossa complexa história, devemos nos emprenhar para melhorar os espaços públicos que há muito foram negligenciados e contar as histórias desconhecidas.”

O governador Northam, neurologista pediátrico eleito para o cargo mais alto da Virgínia em 2018, utilizou o VMFA para conduzir o plano de ressignificação da avenida. O plano não passou despercebido por entidades filantrópicas importantes, incluindo a Fundação Andrew W. Mellon, que anunciou em outubro que investirá US$ 250 milhões em cinco anos para remover, repensar e recontextualizar as obras de artes expostas em locais públicos em todo o país.

Por mais de um século, a Monument Avenue foi como um santuário para dignitários confederados, principalmente o General Lee. Nos últimos meses, a avenida tornou-se ponto de encontro para manifestantes de protestos contra a má conduta policial e o racismo, onde também foram estabelecidas feiras agrícolas, bancos de alimentos e postos de cadastro de eleitores.

Os manifestantes se uniram para exigir o fim do enaltecimento de figuras confederadas nos espaços públicos de Richmond. Nos meses de junho a agosto, quatro estátuas confederadas foram removidas e guardadas por ordem do prefeito de Richmond, Laver Stoney, que foi reeleito para um segundo mandato em novembro.

Um futuro inclusivo

No mesmo dia em que Northam anunciou seus planos para a Monument Avenue, Dustin Klein e Alex Criqui foram convidados pelo Museu de Belas Artes da Virgínia para exibir um curta-metragem criado por eles em comemoração ao primeiro aniversário da estátua Rumors of War de Wiley. A colagem digital de animação e fotografias traz a voz de Wiley explicando a motivação por trás de sua arte e sua relevância para o momento. O curta foi projetado na parede lateral do museu e reproduzido continuamente.

Klein e Criqui são amigos de infância e ativistas raciais quase que por acaso. No último mês de maio, poucos dias depois de George Floyd ter sido morto por um policial de Minneapolis, Klein — que havia acabado de ser demitido do cargo de projecionista de iluminação de um grupo musical de Richmond — tiveram a ideia de exibir fotos digitais e mensagens nas paredes laterais de edifícios cobertos por tapumes. Então, em junho, ele e Criqui, que é crítico musical autônomo, começaram a projetar o rosto de Floyd na estátua de Lee, e depois o rosto de Breonna Taylor e de outros negros norte-americanos que não estavam armados ao serem mortos pela polícia. A arte da dupla viralizou e atraiu atenção internacional.

“O poder da pintura é o motivo pelo qual nossa arte funcionou”, declarou Criqui em uma entrevista. “O monumento de Lee foi criado especificamente como um símbolo da supremacia branca. Ao projetar a imagem de um homem negro na estátua, criamos algo que provavelmente ninguém em Richmond havia visto até então. Tudo começou por impulso, quase como uma brincadeira. Simplesmente queríamos fazer parte desse importante diálogo.”

A estátua em homenagem a Arthur Ashe, lendário tenista negro e benfeitor, ainda está de pé na Monument Avenue após os protestos entre os meses de junho e agosto. Apenas as estátuas de Ashe e General Lee permanecem no local.

A exibição do curta-metragem no último fim de semana no VMFA foi uma improvável colaboração de Wiley — artista aclamado cujo retrato de Barack Obama está em exibição na National Portrait Gallery — em conjunto com o trabalho de dois jovens ativistas da arte digital.

Esse parece ser exatamente o tipo de colaboração criativa que o governador Northam e a direção do museu pretendem capitalizar enquanto exploram maneiras de dar voz a pessoas e histórias negligenciadas ao longo da Monument Avenue. Eles também esperam iniciar melhorias na Trilha dos Negros Escravizados existente no bairro de Shockoe Bottom, na mesma cidade. O bairro próximo ao centro de Richmond já foi o segundo maior mercado de negros escravizados do país. Agora é uma comunidade nobre, com poucos indícios dos horrores que já ocorreram no local.

“Trata-se de olhar para o futuro, um futuro inclusivo, com perspectiva visionária e que proporcione cura”, esclareceu Alex Nyerges, diretor e CEO do VMFA, em um comunicado. Ele também informou que em breve sua equipe entrará em contato com especialistas em arte, historiadores, urbanistas e moradores para informar sua abordagem sobre a reforma da avenida.

Rumors of War, estátua de um homem negro moderno montado em um cavalo erguida em frente ao Museu de Belas Artes da Virgínia, a cerca de três quilômetros da estátua de Robert E. Lee. O governador Northam solicitou a ajuda do museu para difundir artes mais diversificadas pela Monument Avenue.

Foto de Kris Graves, National Geographic

Atualmente, as estátuas de Robert E. Lee e Arthur Ashe — o campeão de tênis nascido em Richmond e famoso filantropo afro-americano — são as únicas duas estátuas que permanecem na Monument Avenue. A situação irônica surpreendeu Viola Baskerville, que era membro do conselho municipal de Richmond em 1995, quando os líderes da cidade votaram para decidir sobre a colocação da estátua de Ashe na avenida. Foi uma votação bastante controversa, que muitos esperavam que representasse o início de uma reformulação da história de Richmond e da confederação de uma forma mais honesta e completa. Agora, um quarto de século depois da estátua de Ashe ser erguida na Monument Avenue, parece que mudanças estão acontecendo.

“É um passo na direção certa — algo que esperamos há muito tempo”, disse Baskerville. “Percebo que existem necessidades governamentais e humanas urgentes neste momento. No entanto não é correto dizer que a Virgínia não pode atender às necessidades imediatas de seu povo e adotar medidas para firmar um compromisso com a igualdade e a justiça.”

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