Rio de Janeiro, Salvador e mais: memoriais escancaram o impacto da escravidão pelo mundo

Mais de 12 milhões de africanos foram tirados de sua terra natal e vendidos para trabalho escravo. Esses locais contam a história deles.

Por Nneka Okona
Publicado 9 de mar. de 2021 07:00 BRT
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Criada por negros escravizados e homens livres durante o século 18, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Salvador, realiza cultos semanais de candomblé — uma mistura de religiões tradicionais da África Ocidental com o catolicismo romano.

Foto de Nick Potts, Getty Images

As lutas do ano passado para trazer mais atenção para o movimento Vidas Negras Importam desafiaram viajantes a buscar destinos fora do convencional. Esse aspecto do movimento impulsionou ainda mais o debate já existente sobre as origens e interpretações de marcos históricos, memoriais venerados e outros locais importantes dos Estados Unidos, especialmente os do período colonial e da Guerra Civil. 

Há cerca de 400 anos, os primeiros africanos escravizados chegaram à Virgínia colonial. Mas o impacto da escravidão foi muito além das colônias originais. O comércio de negros escravizados pelo Atlântico, ativo de 1525 a 1866, retirou à força 12,5 milhões de pessoas, principalmente da África Central e Ocidental, e as levaram para as Américas, Europa e Caribe. Para memorar essa tragédia e garantir que o mundo avance em direção à reconciliação, a Unesco lançou o Projeto Rota dos Escravos em 1994 para documentar dezenas de locais fundamentais para a história da escravidão.

Conheça nove locais que tiveram um papel significante no comércio de negros escravizados pelo Atlântico — e que realizaram ações para aumentar a conscientização pública sobre seu impacto global.

Centro Histórico de Salvador (Bahia, Brasil)

Em meados do século 16, esta cidade colonial repleta de imóveis estreitos, apinhados, de cores vivas e estuque fino, tornou-se um dos primeiros mercados de negros escravizados das Américas. Antiga capital nacional, a cidade baiana trouxe milhares de africanos escravizados para trabalhar em seus campos de cana-de-açúcar, ajudando a tornar o Brasil o maior exportador de açúcar para a Europa no século seguinte. 

Os turistas que visitam este epicentro da cultura afro-brasileira podem ouvir o ritmo do samba ecoando pelas ruas de paralelepípedos do Pelourinho, bairro histórico e local do primeiro mercado de escravizados, onde eles também eram punidos publicamente por diversas infrações. 

Perto dali, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos exibe aos visitantes o papel dos negros escravizados na construção e criação da catedral durante o século 18. Seus cultos de candomblé — uma mistura de religiões tradicionais da África Ocidental com o catolicismo romano — inclui atabaques e antigos cantos e danças africanas.

Cais do Valongo (Rio de Janeiro, Brasil)

Considerado o “marco físico mais importante” da chegada de africanos escravizados às Américas, o Cais do Valongo foi o principal local de chegada e comércio de negros escravizados no Brasil. Quase um milhão de africanos passaram por este porto de 1811 a 1831 (quando o comércio escravocrata pelo Atlântico foi proibido). As atividades de tráfico ilegal escravista continuaram no porto até 1888, quando as operações foram oficialmente encerradas. 

Os laços do porto com a escravidão permaneceram desconhecidos por séculos até sua descoberta em 2011, durante as obras de renovação para as Olimpíadas de 2016. O cais agora funciona como um sítio arqueológico aberto onde visitantes podem ver as ruínas de pedra originais e os três marcos históricos que narram os eventos que ocorreram ali.

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Próximo ao Cais, também é possível explorar o Cemitério dos Pretos Novos, um dos maiores cemitérios de negros escravizados do mundo. Descoberto em 1996, quando uma família estava reformando sua casa, o local funciona como um centro arqueológico e cultural para proteger a história da cultura africana na cidade. A Praça XV de Novembro, uma grande praça usada para apresentações musicais, foi o primeiro local de leilão de africanos escravizados do Rio, e a Pedra do Sal, o centro histórico da “Pequena África” carioca e berço do samba, é onde muitos ex-escravizados se estabeleceram.

O Castelo da Costa do Cabo é um dos cerca de 40 “castelos de escravizados”, ou fortes, construídos na Costa do Ouro da África Ocidental (atual Gana) para manter negros escravizados até que eles fossem colocados em navios e vendidos nas Américas e no Caribe. Atualmente, ele é um memorial e museu.

Foto de Ute Grabowsky, Getty Images

Castelo da Costa do Cabo (Costa do Cabo, Gana)

A Costa do Ouro, uma ex-colônia portuguesa e atual Gana, já foi o epicentro do comércio de negros escravizados. Dos mais de 40 castelos e fortes construídos por portugueses, criados como abrigos para africanos escravizados, o Castelo da Costa do Cabo é o mais conhecido. Cerca de 1,5 mil negros escravizados eram mantidos nas masmorras do castelo antes de passarem pelo portão principal, também conhecido como Porta do Não Retorno. Em geral, ele era a última visão que os escravizados tinham de seu continente natal antes de serem embarcados para cruzar o Atlântico. O castelo agora funciona como um museu, educando os viajantes sobre os horrores que ali ocorreram.

Declarada Patrimônio Mundial pela Unesco em 2008, a Paisagem Cultural de Le Morne serviu como abrigo temporário para aqueles que fugiam do cativeiro no início do século 19.

Foto de Melissa Jooste, Alamy Stock Photo

Paisagem Cultural de Le Morne (Ilhas Maurício)

A Paisagem Cultural de Le Morne, montanha formada por um monólito basáltico localizado na costa oeste das Ilhas Maurício, já foi um abrigo temporário para aqueles que escapavam do cativeiro no início do século 19. Os fugitivos, conhecidos como Maroons, construíram casas nas cavernas esculpidas na montanha. 

Atualmente, os visitantes podem homenagear os negros escravizados do passado, que viam Le Morne como um local de liberdade e salvação, visitando o Monumento da Rota Internacional da Escravidão localizado no sopé da montanha. O formato do memorial é inspirado em uma bússola, com cada escultura de pedra apontando para os diferentes locais de onde os negros escravizados eram comprados ou capturados.

Cais de Gadsden (Charleston, Carolina do Sul)

Durante o período do comércio de negros escravizados pelo Atlântico, cerca de 40% dos africanos trazidos para os Estados Unidos passaram pelo porto de Charleston, que era o maior da América do Norte na época. Os que sobreviviam à viagem eram mantidos em diversos armazéns e mercados de escravizados até serem vendidos pelo lance mais alto. Os historiadores calculam que mais de 90% de todos os afro-americanos descendem de ao menos um ancestral que passou por esta área. 

Após 20 anos de planejamento, foi anunciado que o antigo cais abrigaria o futuro Museu Internacional Afro-americano, com inauguração prevista para o início de 2022. Além de exposições históricas e culturais, o museu também terá um centro de história familiar para pesquisas de ancestralidade, um laboratório de ação de justiça social e um jardim memorial aos ancestrais africanos. Os viajantes podem caminhar alguns quarteirões e visitar o Old Slave Mart Museum, museu do antigo mercado de escravizados, construído em 1859 e considerado a última galeria de leilões de pessoas escravizadas restante na Carolina do Sul, lá é possível ler relatos sobre o papel de Charleston no comércio interestadual de negros escravizados.

Maison des Esclaves (Casa dos Escravos), localizada na Ilha de Gorée, no Senegal, era um dos maiores centros de comércio de negros escravizados da costa oeste da África. Atualmente, ela é uma prova do sofrimento humano e da devastação causada pelo comércio de africanos escravizados.

Foto de Robert Harding. Alamy Stock Photo

O Memorial Gorée-Almadies, localizado ao lado da Maison des Esclaves, simboliza a ligação entre a África e todas as comunidades negras que vivem em outras regiões do mundo.

Foto de Wolfgang Kaehler. Getty Images

Ilha de Gorée (Dakar, Senegal)

Uma pequena ilha na costa do Senegal, Gorée foi o maior centro de comércio de negros escravizados na costa oeste da África do século 15 ao 19. A Maison des Esclaves (Casa dos Escravos), uma impressionante casa vermelha construída na ilha em 1786, é considerada um local em memória ao ponto de saída de africanos escravizados. 

Convertido em museu e memorial em 1962, o prédio mostra uma história mais intimista sobre o comércio de pessoas escravizadas, documentando registros pessoais dos donos da casa e dos negros escravizados que ali trabalhavam. Para conhecer melhor o papel integral do Senegal na escravidão e as principais figuras da resistência contra os colonizadores europeus, visite o Museu Histórico IFAN, um antigo forte transformado em um museu em 1936.

Cidade Mercantil Marítima de Liverpool (Inglaterra, Reino Unido)

A Cidade Mercantil Marítima de Liverpool oferece vistas reluzentes das docas de Stanley e Albert até o Pier Head, mas também foi o centro do tráfico de negros escravizados na cidade de 1696 até o início do século 19. Em seu auge, esta cidade à beira-mar controlava 80% do comércio britânico de negros escravizados e obtinha 40% da sua renda com o transporte de africanos escravizados. Esculturas de pedra de navios usados no transporte de negros escravizados podem ser encontradas gravadas no edifício do Porto de Liverpool no Pier Head. 

Turistas podem visitar o Museu Internacional da Escravidão, próximo à Doca de Albert, que detalha a conexão de Liverpool com o comércio de pessoas escravizadas. Em agosto de 2020, a Câmara Municipal de Liverpool definiu 20 ruas onde serão instaladas placas informativas detalhando a história do local com a escravidão.

Palácios Reais de Abomey (Benin)

Construídos pelo povo Fon entre 1625 e 1900, os Palácios Reais de Abomey foram o lar dos líderes do Reino do Daomé, um dos impérios mais poderosos da costa ocidental da África. Sob os 12 reis que o governaram, o comércio de negros escravizados prosperou, pois os líderes capturavam pessoas de outros estados africanos como prisioneiros de guerra. Esses aprisionados seriam vendidos para trabalho escravo a mercadores portugueses, franceses e britânicos, que os enviavam para nações das Américas, principalmente o Brasil. 

Hoje, os palácios do rei Ghézo e do rei Glélé abrigam o Museu Histórico de Abomey, que conta a rica história do reino e sua resistência à ocupação colonial francesa.

Thomas Jefferson escravizou mais de 400 pessoas em Monticello, Charlottesville, Virgínia. Turistas podem homenagear aqueles que viveram e morreram na lavoura no Cemitério Afro-americano, onde em 2001 arqueólogos descobriram 40 ou mais túmulos não identificados.

Foto de Vanessa Vick, New York TImes, Redux

Monticello (Charlottesville, Virgínia)

Thomas Jefferson projetou quase todos os detalhes de Monticello, desde a propriedade no topo da montanha, praticamente intacta nos dias de hoje, até seus dois mil hectares de plantação e vinhedo. Embora sua propriedade na Virgínia seja frequentemente romantizada, também foi o lar de mais de 400 pessoas que ele escravizou para cultivar suas terras. No total, das mais de 600 pessoas que Jefferson escravizou em suas muitas propriedades, ele libertou apenas 10 — todas da mesma família. 

É possível prestar homenagem a todos aqueles que viveram e morreram na lavoura no Cemitério Afro-americano, onde em 2001 arqueólogos descobriram 40 ou mais túmulos não identificados; e continuar aprendendo sobre as pessoas que viveram na propriedade na exposição dedicada a Sally Hemings, escravizada e propriedade de Jefferson, bem como mãe de seis filhos dele, que relata histórias comoventes contadas pelo filho Madison e outros membros da família de Sally.

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