Arqueólogos tentam resolver mistério de ‘espetos de vértebras’ de 500 anos

Novo estudo sobre vértebras empaladas encontradas do Peru revela que os artefatos eram recordações dos horrores da colonização europeia testemunhados por comunidades indígenas.

Por Tom Metcalfe
Publicado 8 de fev. de 2022 18:00 BRT
Quase 200 artefatos formados a partir da união de vértebras humanas em estacas, encontrados no Vale ...

Quase 200 artefatos formados a partir da união de vértebras humanas em estacas, encontrados no Vale de Chincha, no Peru, foram o objeto de um estudo sistemático inédito focado em compreender seu propósito.

Foto de C. O'Shea

A primeira análise sistemática de quase 200 misteriosos artefatos de um vale peruano revela que eles provavelmente foram feitos para recriar sepulturas comunitárias saqueadas durante o domínio espanhol há cerca de 500 anos.

A pesquisa publicada em 1º de fevereiro de 2022 no periódico Antiquity concentra-se em vértebras humanas enfiadas em gravetos, centenas das quais foram encontradas nas proximidades e no interior de tumbas elaboradas, conhecidas como chullpas, no Vale de Chincha, no Peru, quase 200 km ao sul de Lima. Essa região costeira já foi o centro do Reino Chincha, que governou entre 900 d.C. e 1480, quando passou a integrar o Império Inca.

Agricultores locais já estavam cientes das vértebras há muito tempo, reconhecendo-as como artefatos antigos, de acordo com Jacob Bongers, arqueólogo da Universidade de Ânglia Oriental, no Reino Unido, principal autor do estudo. Mas, as peças só despertaram o interesse científico há cerca de 10 anos, quando Bongers conduziu estudos na região como doutorando da Universidade da Califórnia em Los Angeles.

Sob a ocupação espanhola, sepulturas indígenas foram saqueadas em todo o Peru, sobrando ossos “sem valor”, muitas vezes espalhados após a destruição. Pesquisadores acreditam que, ao “reconstruir” os restos mortais de um antepassado, as comunidades tentavam manter a integridade corporal dos mortos.

Foto de by J.L. Bongers

O que diz o estudo sobre os 'espetos de vértebras'?

Em cooperação com colegas dos Estados Unidos e da Colômbia, Bongers analisou 192 conjuntos de vértebras, cada um composto normalmente por quatro a dez ossos enfiados em um galho reto (um dos artefatos continha 16 vértebras e um conjunto excepcional de ossos era encabeçado por um crânio).

Uma análise visual minuciosa dos objetos revelou que, em um caso, as vértebras de duas pessoas – um adulto e um jovem – foram misturadas no mesmo galho, possivelmente por acidente. Mas Bongers acredita que os indígenas tentaram restaurar a coluna de um único indivíduo na maioria deles.

Nos artefatos mais preservados, os pesquisadores conseguiram estimar a idade de cada indivíduo examinando o crescimento dos ossos e se as vértebras inferiores estavam fundidas, o que acontece após a adolescência. Concluíram que a maioria era de adultos, mas cerca de um sexto deles eram jovens menores de 20 anos.

A datação por radiocarbono revela que as vértebras pertencem a pessoas sepultadas no início do século 16 (época da chegada dos espanhóis à região em meados da década de 1530), mas que foram colocadas nos galhos cerca de 40 anos depois. Isso indica que a prática foi realizada muito tempo após os indivíduos terem sido sepultados, quando provavelmente havia apenas esqueletos entre seus restos mortais.

Por que empalar vértebras?

“Isso revela um comprometimento de longo prazo com os mortos”, disse Bongers. “Tentaram reconstruir seus mortos reunindo suas partes novamente.”

Alguns dos objetos foram encontrados na superfície ou próximos a ela, talvez dispostos como lápides. Mas muitos foram sepultados no interior de chullpas – antigas câmaras funerárias dos povos locais – e alguns foram envoltos em tecidos, um ritual de sepultamento andino comum.

Bongers afirma que as vértebras unidas em galhos – às quais ele se refere como “postes” por talvez terem sido colocadas originalmente na vertical – foram encontradas apenas no Vale de Chincha, mas em pontos a quilômetros de distância uns dos outros, sugerindo que foram utilizados por diferentes comunidades.

“Foram encontrados em inúmeros locais funerários, então provavelmente houve interação entre diversos grupos”, conta ele. “Esses grupos consideraram essa uma resposta apropriada ao que acreditamos que tenham sido saques.”

A integridade corporal dos mortos era importante no culto ancestral praticado por muitos andinos, observa Bongers, incluso pelos vizinhos do povo Chincha, em Chinchorro, que desenvolveram métodos de mumificação.

Mas essa integridade foi muitas vezes profanada por saqueadores que espalhavam os ossos de sepulturas, necessitando assim de uma “reparação” por meio da coleta das vértebras dos antepassados e da restauração de suas colunas vertebrais, teoriza ele.

O que aconteceu com os corpos?

Os registros espanhóis indicam que, tão logo os conquistadores chegaram às antigas terras incas, o saque e a destruição de cemitérios indígenas se tornaram comuns. Durante o período colonial, milhares de sepulturas foram saqueadas em busca de prata e ouro, e a destruição foi acompanhada de perto pelos esforços coloniais para substituir as religiões indígenas pelo catolicismo romano, afirma Gabriel Prieto, Explorador da National Geographic e arqueólogo da Universidade da Flórida.

Foi uma época tão conturbada em tantos aspectos — econômico, cultural e espiritual — que todos os povos nativos da região “precisaram ser criativos para manter suas tradições, sobretudo na veneração de seus antepassados”, acrescenta ele.

Prieto não participou do último estudo, mas concorda com a maioria das interpretações dos colegas. Ele discorda, entretanto, com a sugestão do estudo de que as vértebras foram enfiadas em canas do gênero Phragmites. Prieto — que cresceu no Peru — acredita que as fotografias do estudo mostram que eram hastes resistentes da espécie Gynerium sagitatum, amplamente utilizadas em toda a região.

“Creio que essas tenham sido as primeiras plantas utilizadas nas Américas para construção de telhados, muros, barcos para pesca e até mesmo para confecção de vestuário”, observa ele. “Por isso, é bom tomar conhecimento de evidências de uma nova forma de uso dessa planta, de uma época em que os andinos estavam sob enorme pressão política.”

Nené Lozada, bioarqueóloga da Universidade de Chicago, que não participou do estudo, afirma que isso oferece novas perspectivas sobre as crenças andinas em relação à integridade corporal. “A reconstrução intencional da coluna vertebral(...) representou mais uma maneira pela qual o corpo pré-colonial incorporou conceitos de personalidade, identidade e resistência”, escreveu ela por e-mail.

Tiffiny Tung, bioarqueóloga da Universidade Vanderbilt, que também não participou do estudo, afirma que os artefatos indicam a tamanha magnitude da interferência da conquista espanhola na vida das populações da região.

“Esse estudo serve para nos lembrar dos horrores sofridos pelas comunidades indígenas nas mãos dos colonizadores europeus”, destaca ela. “Demonstra as tentativas do povo nativo de enfrentar e resistir a essas transformações traumáticas em seu modo de vida.”

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