Esta orquestra encontrou harmonia durante o isolamento na Venezuela

A pandemia reuniu 75 músicos para a gravação virtual de um álbum – gerando esperança em tempos desafiadores.

Membros da Orquestra Sinfónica Gran Mariscal de Ayacucho tocam seu novo álbum, Sinfonía Desordenada, durante uma apresentação pública em 12 de novembro de 2021 em Caracas, Venezuela. O álbum foi gravado por 75 músicos durante o confinamento da pandemia. Em seu som, eles misturam elementos da música clássica com ritmos afro-caribenhos

Foto de Ana María Arévalo Gosen
Por Julett Pineda
Publicado 7 de fev. de 2022 12:17 BRT, Atualizado 7 de fev. de 2022 17:38 BRT

Caracas, Venezuela | São quase 17h30 quando o sol se põe na capital venezuelana. El Ávila, a montanha que se eleva sobre a cidade, serve de pano de fundo para o barulho incessante – buzinas de motoristas impacientes, gritos escandalosos de araras, sirenes de ambulâncias que parecem próximas, mas desaparecem com a distância –, uma viagem sonora pela realidade desordenada da vida urbana.

Nessa noite de novembro, o barulho é replicado para uma plateia reunida no telhado de um luxuoso hotel, situado nas colinas no lado leste da cidade, longe das favelas superlotadas e dos engarrafamentos. Aqui, os sons do caos são produzidos por trompetes, trombones e trompas carregados por membros da orquestra sinfônica Gran Mariscal de Ayacucho.

Essa performance em particular marca a estreia de um novo álbum, Sinfonía Desordenada, gravado durante a pandemia por 75 músicos de diversas origens, que mistura elementos da música clássica e ritmos afro-caribenhos.

Com vocais de Horácio Blanco, da icônica banda local de ska Desordem Pública, o grupo dá uma nova roupagem para letras que há décadas permanecem relevantes, e que retratam uma era complexa – lamentos sobre corrupção, inflação, desigualdade social e violência.

Luis Ulray, 30 anos, posa para um retrato em sua casa na área de Nuevo Circo, em Caracas. Ele é um dos músicos que participaram do projeto de gravação do álbum Sinfonía Desordenada, cujo objetivo era servir como fonte de resiliência em meio aos tempos desafiadores da pandemia.

Foto de Ana María Arévalo Gosen
À esquerda: No alto:

Edgar González, 22 anos, posa para um retrato no parquinho do complexo residencial onde mora em Cumaná, no nordeste da Venezuela. Ele passou grande parte de sua infância neste parque tocando a trompa, instrumento que herdou de seu pai, que é professor de música.

À direita: Acima:

A mão de Manuel Delpiani, 30 anos, segura um trompete em sua casa, no bairro El Paraíso, em Caracas.

fotografias de Ana María Arévalo Gosen

Styphanie Flores, 29, posa para um retrato com o violoncelo em sua casa na seção de San Martín, em Caracas. Ela é uma dos 75 músicos que gravaram o álbum Sinfonía Desordenada.

Foto de Ana María Arévalo Gosen

Questões sociais e econômicas ficaram evidentes durante o mandato de Nicolás Maduro, que assumiu a presidência da Venezuela em 2013. Desde então, centenas de dissidentes foram presos ou forçados ao exílio, e uma economia devastada por anos de hiperinflação piorou, impactada pela pandemia. A taxa de pessoas na extrema pobreza aumentou para 76%, resultando em um êxodo de mais de seis milhões de venezuelanos – o maior da história da região.

Mensagem por trás da letra

Logo na música de abertura, uma batida pulsante acompanha as palavras afiadas cantadas por Blanco sobre quão pouco vale a vida em Caracas, uma das cidades mais perigosas do mundo.

Dibujaron su muñequito de tiza en la acera ¡qué pena! (Desenharam seu corpo em giz na calçada. Que vergonha!)

A violinista Reneiker Ríos, 30 anos, está familiarizada com a dinâmica violenta que envolve os bairros mais perigosos, já que foi  criada em um deles. Para ela, a música proporcionou uma fuga e o novo arranjo a obrigou a prestar atenção na mensagem da letra.

"Eu costumava ver a música deles [da banda Desordem Pública] como pura diversão barulhenta. Nunca prestei atenção nas letras. Agora, quando escuto, fico com calafrios", diz Ríos. "Reconheço meu bairro neles. Quando ele [Blanco] canta ‘Vivo en un valle de balas, mi ciudad está brava’ [Vivo em um vale de balas, minha cidade é louca], ele está realmente se referindo aos homicídios que ocorrem aqui todos os dias."

Crianças ensaiam na escola Pablo Rada, na cidade de Curiepe, no norte da Venezuela. A escola privada ensina crianças e adolescentes a tocar música há 99 anos.

Foto de Ana María Arévalo Gosen
À esquerda: No alto:

Aaron Cabrera, 24 anos, toca trombone em sua casa no bairro Maripérez, em Caracas. Usando o instrumento, ele participou da pós-produção e da mixagem das músicas para o novo álbum, que mistura sons diversos.

À direita: Acima:

Oriana Carrillo, 23 anos, uma das musicistas que gravou o álbum durante o confinamento da pandemia, toca clarinete em um caminhão de banana em frente a um mercado em Caracas.

fotografias de Ana María Arévalo Gosen

Quando toca o violino, Ríos é tomada pela música. Seu instrumento e a orquestra a apoiaram, especialmente em 2021, quando chuvas inundaram sua casa e outros músicos a ajudaram a fazer os reparos. "A música é tudo para mim. Isso me salvou em muitas situações", diz Ríos, que é mãe de dois filhos.

Gênesis da desordem

No início de 2020, a orquestra apresentou uma série de concertos lotados e tinha um punhado de projetos em andamento, mas a covid-19 interrompeu abruptamente esse avanço e impediu a maioria dos artistas de ir a ensaios e apresentações públicas.

Embora a ideia para Sinfonía Desordenada tenha sido originalmente apenas um show ao vivo, ela se transformou em um álbum – criado não em estúdio, mas em sessões virtuais. Apesar da internet lenta e das frequentes quedas de energia, os músicos conseguiram gravar oito arranjos em três meses.

"Quando entendemos que a pandemia duraria mais do que esperávamos, decidimos continuar com a Sinfonía Desordenada", diz Blanco. "Eu senti que tínhamos uma salvação através dela, em meio ao tédio e ao medo."

Dirigir músicos via Zoom foi um desafio para Elisa Vegas, de 36 anos, a única maestrina de uma grande orquestra na Venezuela. Desde que assumiu o cargo, em 2017, Vegas diz que se aproveitou o espírito versátil da orquestra para engajá-la em projetos ousados, que têm uma mensagem.

Músicos ensaiam antes do primeiro concerto ao vivo do Sinfonía Desordenada, em novembro.

Foto de Ana María Arévalo Gosen
À esquerda: No alto:

Elisa Vegas, 36 anos, é diretora da orquestra sinfônica Gran Mariscal de Ayacucho e a única principal maestrina de uma grande orquestra na Venezuela. Ela e Horacio Blanco, vocalista da banda de ska Desordem Pública, uniram forças para gravar um novo álbum durante o isolamento pandêmico.

À direita: Acima:

Siraynat Milano, 26 anos, segura seu oboé na praia de sua cidade natal, Cumaná, Venezuela.

fotografias de Ana María Arévalo Gosen

"Quando decidi ficar na Venezuela, disse a mim mesma que queria tornar visíveis aqueles que estão fazendo o presente ficar melhor", diz Vegas. "Isso não é uma esperança fingida, falsa. Há muitas pessoas que estão colocando coração e alma nisso, e queremos canalizar essa esperança."

A orquestra Ayacucho já possui um histórico de desafiar protocolos. Em vez do tradicional traje formal e da seriedade típicos dos concertos clássicos, os membros usam tênis coloridos e batem os pés quando tocam em locais ao ar livre pela cidade — uma exibição animada em um momento em que as artes são frequentemente criticadas como elitistas.

Quando foi formada, em 1989, a orquestra estava ligada a um programa de educação musical financiado pelo Estado e destinado a jovens pobres. Conhecido como El Sistema, o projeto recentemente alcançou um recorde no Guinness: reuniu 12 mil músicos para tocar simultaneamente. Mas El Sistema também é alvo de controvérsias, incluindo politização e alegações de abuso sexual. Seguidos cortes de financiamento para programas culturais levaram Ayacucho a se posicionar a favor do financiamento privado para ter mais independência. A autonomia permitiu que a orquestra não só montasse um álbum entregando uma crítica social, mas também sons diversos, que ajudaram a alcançar um público mais amplo.

"Sou um grande fã de Desordem Pública, e gosto de ouvir a música deles tocada por uma orquestra. Não é o que normalmente ouvimos", diz Yermeli Navarro, 30 anos, que participou de um dos shows gratuitos realizados em seu bairro, acompanhado do filho e do sobrinho. "Não há muitos espaços culturais como este na cidade."

Alexis Ramos, 26, toca violino durante uma sessão de gravação usando um celular enquanto sua avó olha um álbum de fotos em sua casa, no bairro de Coche de Caracas. O tecido branco na parede serviu de pano de fundo para o projeto Sinfonía Desordenada.

Foto de Ana María Arévalo Gosen
À esquerda: No alto:

Euddy Bahamonte, 27 anos, posa para um retrato com o trombone em sua casa, no bairro de San Agustín, em Caracas.

À direita: Acima:

O violino de Johana Muñoz, membro da Orquesta Sinfónica Gran Mariscal de Ayacucho, fica em sua casa, em Caracas.

fotografias de Ana María Arévalo Gosen

Show no telhado

De volta ao hotel, a performance da banda faz tremer a cobertura onde os músicos tocam. As batidas frenéticas da música de abertura evoluem para uma melodia épica, que se desenvolve lentamente antes de introduzir uma balada melancólica e infundida de reggae, dedicada à diáspora venezuelana e à separação de muitas famílias.

Los que se quedan, los que se van, algún día volverán (Os que ficam, os que vão, algum dia voltarão)

Muitos na multidão seguram seus celulares para gravar o show ao vivo com todos os músicos. Durante o confinamento, os artistas se apresentaram sozinhos enquanto gravavam, em casa, cada um a sua parte. A violoncelista Gisbel Asención, 21, lembra da mãe usando um lençol para cobrir as paredes de tijolos expostas, que serviu de pano de fundo para a gravação em sua casa. Depois que ela postou o vídeo, o solo de Asención ressoou pelos outros barracos de teto de zinco do bairro.

Na época, Asención lutou silenciosamente contra a depressão e até pensou em deixar a orquestra. Mas ficar conectada à música e adotar um animal de estimação a ajudou a superar esse momento. "Estou me sentindo como eu novamente e estou feliz por não ter desistido. Agora percebo que tudo se encaixa. Tudo parece no lugar certo", diz ela, pouco antes de subir ao palco.

À esquerda: No alto:

Músicos apresentam Sinfonía Desordenada em um concerto ao vivo, na cobertura de um hotel em 11 de novembro de 2021. O álbum, que combina elementos da música clássica com ritmos afro-caribenhos, foi gravado durante o isolamento de Covid-19.

À direita: Acima:

Músicos tocam em um show público no bairro Las Minas de Baruta, em Caracas.

fotografias de Ana María Arévalo Gosen

Músicos se apresentam em um show no telhado em Caracas, Venezuela, para estrear o álbum Sinfonía Desordenada, gravado virtualmente durante o confinamento pandêmico.

Foto de Ana María Arévalo Gosen

Em outra parte do concerto, uma melodia enérgica de repente se desdobra em um pasodoble, algo que desde a década de 1960 tornou-se um padrão durante as celebrações venezuelanas. A canção é apropriadamente intitulada “Música de fiesta".

El cariño verdadero ni se compra ni se vende (O amor verdadeiro não se compra e nem se vende)

A melodia é particularmente atraente para o público, agora de pé e em movimento. Ela também tem um significado especial para o trombonista Aaron Cabrera, 24 anos, que trabalhou nos arranjos orquestrais que dão vida ao álbum.

"É uma canção que reflete sobre o amor do seu povo, de sua família e amigos. Um amor que está enraizado aqui, na Venezuela, e estará aqui para você, independentemente de onde você vá", diz ele. Depois de quase duas horas de música, o bochinche está com força total. As batidas afro-caribenhas pulsam quando a música final começa.

Vivo entre gente que tiene paciencia y esperanza, que sabe que las cosas buenas llegan, pero suelen ser las que más tardan. (Vivo entre pessoas que têm paciência e esperança, que sabem que coisas boas sempre vêm, mas geralmente demoram mais para chegar)

Para Cabrera, a música é sobre confiar em si e no futuro. "O país não quer mais ser dividido por política, raça ou classe", diz ele. "Queremos ser um país normal. Queremos cultura e humanidade."

Baseada entre Venezuela e Alemanha, a jornalista Julett Pineda cobriu uma ampla gama de questões, incluindo violações de direitos humanos, tumultos políticos e restrições à saúde pública. Em 2018, conquistou o segundo lugar no Concurso Nacional de Jornalismo Investigativo do Instituto Prensa e Sociedade, da Venezuela, por uma investigação conjunta sobre corrupção no Arco de Mineração do Orinoco.

Ana María Arévalo Gosen é uma fotógrafa venezuelana que vive atualmente em Bilbao, Espanha, e usa a narrativa visual para defender os direitos das mulheres e as questões ambientais. Ela é uma Exploradora da National Geographic e membro do grupo de ativistas Ayün Fotógrafas, criado no País Basco. Veja mais de seu trabalho em seu site e no Instagram.

A National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho da exploradora Ana María Arévalo Gosen. Saiba mais sobre o apoio da Society aos Exploradores, que trabalham para inspirar, educar e entender melhor a história e as culturas humanas.

Continuar a Ler

Você também pode se interessar

História
Conheça os bunkers soviéticos abandonados sob a capital da Geórgia
História
Na Alemanha, novo museu reacende uma polêmica colonial
História
Morte de anciãos por covid-19 ameaça línguas indígenas do Brasil
História
Coronavírus se aproxima de indígenas isolados da Amazônia
História
Coronavírus avança e tragédia entre indígenas da Amazônia é iminente

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeo

Sobre nós

Inscrição

  • Assine a newsletter
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados