Rússia e Ucrânia: a complicada história que conecta (e divide) os dois países

Séculos de derramamento de sangue, dominação estrangeira e divisões internas deixam a Ucrânia em uma posição delicada entre Ocidente e Oriente. Veja os pontos-chave para entender por que a região está no centro de uma possível guerra.

Por Eve Conant
Publicado 22 de fev. de 2022 17:22 BRT, Atualizado 24 de fev. de 2022 15:21 BRT
Violence Escalates As Kiev Protests Continue

A violência tomou conta de Maidan, a Praça da Independência de Kiev, em 2014, depois que o governo ucraniano, sob pressão de Moscou, abandonou um acordo para fortalecer laços com a União Europeia. A Rússia ainda se opõe ao movimento da Ucrânia em direção ao Ocidente e parece pronta para invadir o vizinho.

Foto de Jeff J. Mitchell, Getty Images

À medida que a ameaça de uma invasão russa na Ucrânia domina as notícias, um olhar para a longa e entrelaçada história dos controversos vizinhos revela como o palco foi montado para o conflito de hoje.

Rússia e Ucrânia: qual é o ponto histórico que as une?

A herança compartilhada dos dois países remonta a mais de mil anos, a uma época em que Kiev, hoje capital da Ucrânia, estava no centro do primeiro Estado eslavo, a Rússia de Kiev, berço tanto da Ucrânia quanto da Rússia.

Em 988, Vladimir I, o monarca pagão de Novgorod e grão-príncipe de Kiev, aceitou a fé cristã ortodoxa e foi batizado na cidade de Quersoneso, na Crimeia. Aludindo a esse momento histórico, o líder russo Vladimir Putin declarou recentemente: "Russos e ucranianos são um só povo, um único todo".

Uma pintura do século 19 retrata Vladimir I, governante da Rússia de Kiev, o local de nascimento da Ucrânia e da Rússia, escolhendo o cristianismo ortodoxo como a nova religião do Estado em 988.

Foto de Museu da História da Religião via Bridgeman Images

Quando começou o rompimento entre a Rússia e a Ucrânia?

No entanto, nos últimos dez séculos, a Ucrânia foi repetidamente invadida por potências rivais. Guerreiros mongóis do leste conquistaram a Rússia de Kiev no século 13.

No século 16, exércitos poloneses e lituanos invadiram o oeste. No século 17, a guerra entre a República das Duas Nações (Polônia e Lituânia) e o Czarado da Rússia deixou as terras para o leste do rio Dniepre sob controle imperial russo.

O leste ficou conhecido como a 'Margem Esquerda' da Ucrânia, enquanto as terras a oeste do Dniepre, ou 'Margem Direita', ficaram a mando da Polônia.

Mais de um século depois, em 1793, a Margem Direita (ocidental) da Ucrânia foi anexada pelo Império Russo. Ao longo dos anos que se seguiram, uma política conhecida como russificação proibiu o uso e o estudo da língua ucraniana, e os habitantes foram pressionadas a se converter à fé ortodoxa russa.

Joseph Stalin: o líder soviético que aprofundou a cisão entre Rússia e Ucrânia

A Ucrânia sofreu alguns de seus maiores traumas durante o século 20. Após a revolução comunista de 1917, o país, como muitos outros, travou uma brutal guerra civil antes de ser totalmente absorvido pela União Soviética em 1922.

No início da década de 1930, a campanha de coletivização das fazendas promovida pelo líder soviético Joseph Stalin produziu uma grande fome que provocou a morte de milhões de ucranianos.

Depois disso, Stalin importou um grande número de russos e outros cidadãos soviéticos para ajudar a repovoar o leste. Muitos deles não falavam ucraniano e tinham poucos laços com a região.

A campanha do líder soviético Joseph Stalin para coletivizar a agricultura levou à fome generalizada na década de 1930, o que matou milhões de ucranianos. No pior momento da Grande Fome (ou Holodomor, que significa "morte pela fome"), colonos da Rússia foram trazidos para repovoar o campo.

Foto de Ap

Um orador se dirige a uma multidão em Chernivtsi, uma cidade no oeste da Ucrânia, durante os “dias da reunificação”, em novembro de 1939. Poucas semanas antes, as tropas alemãs e soviéticas haviam invadido a Polônia e feito do oeste da Ucrânia, anteriormente sob controle polonês, parte da Ucrânia Soviética.

Foto de Anatoliy Garanin, Sputnik/AP

Fronteiras entre Ucrânia e Rússia.

Foto de National Geographic

Ucrânia: dividida entre a Rússia e o Ocidente

Essa história conturbada criou divisões duradouras. Como o leste da Ucrânia ficou sob o domínio russo muito mais cedo do que o oeste da Ucrânia, os habitantes do leste têm laços mais fortes com a Rússia e têm sido mais propensas a apoiar líderes russos.

A Ucrânia do Oeste, ao contrário, passou séculos sob constantes mudanças de controle por potências europeias como a Polônia e o Império Austro-Húngaro, uma das razões pelas quais os ucranianos no ocidente tendem a apoiar mais políticos ocidentais.

Em linhas gerais, a população oriental tende a falar a língua russa e praticar a religião ortodoxa, enquanto no ocidente se fala mais ucraniano e a população é mais católica.

Com o colapso da União Soviética em 1991, a Ucrânia tornou-se uma nação independente. Mas unir o país provou ser uma tarefa difícil. Por um lado, “o senso de nacionalismo ucraniano não é tão profundo no leste como é no oeste”, diz o ex-embaixador na Ucrânia Steven Pifer.

A transição para a democracia e o capitalismo foi dolorosa e caótica, e muitos ucranianos, especialmente no leste, ansiavam pela relativa estabilidade das eras anteriores.

Pedestres em Odessa, uma cidade portuária no Mar Negro, no sul da Ucrânia, passam junto de um cartaz soviético anunciando temas sobre poder e justiça em 1991, o ano em que a Ucrânia se tornou uma nação independente e a URSS foi dissolvida.

Foto de Bertrand Desprez, Agence VU/Redux

O mapa da Ucrânia e a sua curiosa relação com a Rússia

“Depois de todos esses fatores, a maior divisão é entre aqueles que veem os domínios imperial russo e soviético mais simpaticamente versus aqueles que os vêem como uma tragédia”, diz Adrian Karatnycky, especialista em Ucrânia e ex-membro do Conselho Atlântico dos Estados Unidos.

Essas fissuras foram expostas durante a Revolução Laranja, de 2004, na qual milhares de ucranianos marcharam para apoiar uma maior integração com a Europa.

Nos mapas físicos, até é possível ver a divisão entre as estepes do sul e do leste da Ucrânia, com os seus férteis solos agrícolas, e as regiões de mais florestas do norte e do oeste, comenta Serhii Plokhii, professor de história em Harvard e diretor do Instituto de Pesquisa da Ucrânia desta universidade.

Segundo Plokhii, o mapa que retrata as demarcações entre a estepe e a floresta, uma linha diagonal entre leste e oeste, tem uma “semelhança impressionante” com os mapas políticos das eleições presidenciais ucranianas de 2004 e 2010.

Ucrânia e Rússia: perto de uma nova Guerra Fria?

A Crimeia foi ocupada e anexada pela Rússia em 2014, seguida pouco depois por uma revolta separatista na região oriental ucraniana de Donbass, que resultou na declaração das Repúblicas Populares de Lugansk e Donetsk, apoiadas e recentemente reconhecidas pela Rússia.

Hoje, o exército russo está novamente reunido nas fronteiras da Ucrânia e há movimento de tropas russas no Donbass, em um novo capítulo da história tumultuada da região.

Onde fica Donetsk e Lugansk

Donetsk é uma cidade localizada no leste da Ucrânia, acima do rio Kalmius. É considerada o centro industrial mais importante da região histórica de Donbass. A cidade se encontra em meio ao bioma de estepe ucraniano e é rodeada por bosques, colinas, lagos e rios que favorecem a atividade agrícola no entorno. 

Já Lugansk, também ao leste da Ucrânia, está entre o cruzamento dos rios Luhan e Ol'khivka. Assim como Donetsk, é um importante centro industrial desta parte do país e uma das maiores cidades ao leste, próxima à divisa com a Rússia.

Onde fica Donbass

Tanto Donetsk como Lugansk são províncias pertencentes à região de Donbas ou Donbass, localizada no sudeste da Ucrânia, e que faz fronteira com a Rússia (ficando a menos de 800 quilômetros de Moscou). A região ocupa uma posição estratégica por ter acesso ao Mar Negro e, por consequência, dar escoamento para o Mar Mediterrâneo. 

A chamada bacia de Donbass é a mais importante fonte de energia e a maior região industrial da Ucrânia; é um local conhecido por suas riquezas minerais, principalmente ligadas à produção de carvão e aço. Por isso, a área abriga um grande parque siderúrgico, químico e metalúrgico. 

Uma jovem dançarina de Kiev passa junto de umas cortinas azuis e amarelas, as cores da bandeira ucraniana. Muitos dos ucranianos nascidos após 1991, a “Geração dos Livres”, anseiam que a sua nação possa escapar da sombra da Rússia e se juntar à Europa e ao Ocidente.

Foto de Agnieszka Rayss, Redux

Nota do editor: Partes deste artigo foram publicadas originalmente durante a crise da Crimeia, em 2014. Ele foi atualizado para refletir os acontecimentos atuais.

O artigo também foi atualizado em fevereiro de 2022 com informações sobre a região de Donbass.

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