Lendário navio naufragado de Shackleton finalmente encontrado na Antártica

O Endurance ficou mais de um século preservado sob o gelo marinho cerca de 3 km abaixo da superfície.
Por mais de um século o navio de 44 m do explorador irlandês Ernest Shackleton ficou perdido no fundo do Oceano Antártico.
Publicado 10 de mar. de 2022 11:59 BRT, Atualizado 10 de mar. de 2022 13:59 BRT

No fim de 1915, o navio Endurance, do explorador polar Ernest Shackleton, afundou na costa da Antártida, deixando sua tripulação presa no bloco de gelo à deriva e dando início a uma das crônicas mais dramáticas da história sobre superação de adversidades mesmo com pouquíssimas chances de sobrevivência. Embora todos os 28 tripulantes da expedição tenham sido resgatados, o local do naufrágio foi um mistério marítimo amplamente discutido – o último capítulo não escrito de uma história lendária de sobrevivência e triunfo. Quer dizer, até agora. Uma equipe de pesquisadores anunciou ter localizado o navio no fundo do traiçoeiro Mar de Weddell, próximo à parte mais ao norte da Antártida.

As primeiras imagens do navio foram feitas por veículos submarinos autônomos (VSAs) a cerca de três quilômetros da superfície em 5 de março. À medida que a câmera deslizava sobre o convés de madeira do navio, o vídeo capturava imagens de cordas, ferramentas, portinholas e grades centenárias – sem contar os mastros e o leme –, tudo em condições quase intocadas devido às temperaturas frias, à ausência de luz e ao baixo teor de oxigênio do ambiente.

Mesmo após tentativas de desprender o Endurance do gelo em 14 e 15 de fevereiro de 1915, o navio continuou firmemente preso. “O que o gelo agarra, ele guarda para si”, disse Shackleton uma vez. Os dias que antecederam o naufrágio do Endurance estavam extremamente nublados e o capitão e navegador especialista Frank Worsley não conseguiu fazer uma leitura precisa da localização. Sem dados confiáveis, a localização do navio permaneceu um mistério por mais de um século.

Foto de FRANK HURLEY, ROYAL GEOGRAPHICAL SOCIETY, GETTY IMAGES
À esquerda: No alto:

Ernest Henry Shackleton deixou a tripulação do Endurance na Ilha Elefante aguardando o resgate e, na companhia de mais cinco pessoas, viajou 1,2 mil quilômetros para buscar ajuda em uma estação baleeira na ilha Geórgia do Sul. Quando chegou, estava tão magro e em péssimo estado que ninguém o reconheceu.

Foto de PA IMAGES, GETTY IMAGES
À direita: Acima:

O Endurance, esmagado pelo gelo, afunda durante a Expedição Transantártica Imperial.

Foto de FRANK HURLEY, SCOTT POLAR RESEARCH INSTITUTE, UNIVERSITY OF CAMBRIDGE, GETTY IMAGES

“Eu procuro por naufrágios desde os meus 20 e poucos anos e nunca encontrei um que fosse tão perfeito como este”, disse o arqueólogo marinho Mensun Bound, de 69 anos, por telefone via satélite, enquanto ele e outros membros da tripulação iniciavam sua longa jornada de volta à Cidade do Cabo depois de mais de um mês procurando o navio de Shackleton. “Foi possível ver os buracos dos parafusos e tudo.”

Bound, o diretor de exploração da expedição Endurance22, disse que quando ele e outros membros de sua equipe de 65 pessoas viram as primeiras imagens feitas pelo AUV, sabiam que era o Endurance e não outro naufrágio. Mas a prova que faltava logo ficou visível, literalmente: um close da popa revelou as letras em latão brilhante da palavra Endurance acima da figura de uma estrela polar. “Quando vimos, nossos olhos saltaram”, brinca Bound. Foi “um daqueles momentos em que você volta no tempo. Pude sentir a respiração de Shackleton em meu pescoço”. 

O quebra-gelo sul-africano Agulhas II consegue atravessar enormes placas de gelo a uma velocidade de cinco nós. Em meados de fevereiro, depois de ficar preso no gelo marinho por um curto período, o Agulhas II chegou ao local onde os membros da equipe que procuravam o Endurance acreditavam que o navio havia afundado. VIDEO DE FALKLANDS MARITIME HERITAGE TRUST/NATIONAL GEOGRAPHIC

“Nunca encontrei um naufrágio tão perfeito quanto este”

por MENSUN BOUND
Arqueólogo marinho

Qual era o objetivo de Shackleton?

Endurance fazia parte da grandiosa Expedição Transantártica Imperial de Shackleton. Apoiado pelo governo britânico e por patrocinadores do setor privado e com o suporte de Winston Churchill, que era o Primeiro Lorde do Almirantado na época, o plano era levar um grupo de exploradores à costa da Antártida, onde desembarcariam e depois viajariam por terra pelo continente através do Polo Sul.

Uma embarcação de três mastros e cerca de 44 metros de comprimento especialmente construída para águas polares, Endurance tinha cascos de carvalho sólido de 76 centímetros de espessura. Partiu da Geórgia do Sul em 5 de dezembro de 1914, logo após o início da Primeira Guerra Mundial. A guerra podia ser vista e sentida mesmo nos confins da Terra. Quando o Endurance entrou no Mar de Weddell, as frotas britânicas e alemãs se posicionaram ao norte na Batalha das Malvinas.

Nas garras de um mar congelado

Sir Ernest Shackleton liderou a Expedição Transantártica Imperial que tentou ser a primeira a cruzar a Antártida. À medida que o navio Endurance se aproximava do continente, ficou preso no gelo marinho. As banquisas esmagaram o casco e a tripulação desceu e foi para o gelo, onde ficou à deriva por meses. Assim que as condições permitiram, Shackleton e um pequeno grupo navegaram em um dos barcos do navio pelo Mar de Scotia em busca de ajuda.

Foto de Matthew W. Chwastyk, NGM

Mas o inimigo que Shackleton e seus homens enfrentaram era diferente. O Mar de Weddell, que se estende por uma área de mais de 2,5 milhões de quilômetros quadrados, é um dos ambientes mais remotos e implacáveis do mundo, repleto de icebergs e constantemente agitado por fortes ventos na superfície. Shackleton o chamou de “o pior mar do mundo”.

Mas se alguém estava preparado para tal aventura essa pessoa era Ernest Shackleton: com explorações antárticas anteriores no currículo, ele fez parte da grande corrida para chegar ao Polo Sul antes que o explorador norueguês Roald Amundsen o fizesse. 

Para essa ambiciosa jornada pelo continente, ele escolheu a dedo a tripulação e a cativou com jantares, contando piadas, liderando cantorias e organizando jogos com os futuros tripulantes. Eles carinhosamente se referiam a Shackleton como “o Chefe”. 

No início, a expedição progrediu bem, mas à medida que o inverno antártico de 1915 se aproximava, os homens se viram presos no gelo marinho. “Às 19 horas, havia enorme pressão, com tensões de torção que moveram o navio para a frente e para trás”, escreveu Shackleton na terça-feira, 26 de outubro. “Podíamos ver da ponte que o navio estava se curvando como um arco sob pressão titânica.”

À esquerda: No alto:

A bordo do Agulhas II, os líderes da expedição analisam as primeiras imagens do Endurance. No momento em que o diretor de exploração Mensun Bound (segundo da direita) viu o nome revelador e a estrela no leme do navio, ele disse “pude sentir a respiração de Shackleton em meu pescoço”.

À direita: Acima:

A Enurance22 foi a segunda tentativa do Falklands Heritage Maritime Trust de encontrar o navio de Shackleton. Uma primeira expedição fracassou em 2019.

fotografias de Esther Horvath
O Agulhas II lançou dois AUVs ao mar para procurar pelo Endurance. Os veículos conseguem operar até 160 quilômetros de distância do navio. VÍDEO DE FALKLANDS MARITIME HERITAGE TRUST/NATIONAL GEOGRAPHIC

No dia seguinte, os tripulantes removeram ferramentas, instrumentos e provisões e montaram acampamento no bloco de gelo. Shackleton escreveu: “Embora tenhamos sido obrigados a abandonar o navio, que está sendo esmagado sem qualquer esperança de conserto, estamos vivos e bem, e temos suprimentos e equipamentos para a tarefa que temos diante de nós”.

O Endurance finalmente afundou em 27 de novembro. “Esta noite, enquanto estávamos deitados em nossas barracas, ouvimos o Chefe gritar: 'Ele está indo embora, pessoal!'”, escreveu um dos tripulantes. “Nós saímos rapidamente e fomos até a estação de observação e outros pontos e, foi bem nítido, lá estava nosso pobre navio a 2,4 quilômetros de distância lutando contra a morte em pura agonia. A proa afundou primeiro, a popa erguida no ar. Então, ele deu um mergulho rápido e o gelo se fechou sobre ele para sempre.”

Por mais de um século, o Endurance de cerca de 44 metros de comprimento ficou perdido no congelado Mar de Weddell, que se estende por mais de 2,5 mi km2. O navio foi encontrado a três mil metros de profundidade, mas em condições excepcionalmente boas.

Foto de THE FALKLANDS MARITIME HERITAGE TRUST, National Geographic
À esquerda: No alto:

Endurance no estaleiro de Millwall, em Londres, em 1914. Cinco anos antes, Shackleton quase se tornou a primeira pessoa a chegar ao Polo Sul, tendo chegado a apenas 156 quilômetros de distância antes de precisar dar meia volta.

À direita: Acima:

Uma estrela adorna a popa do Endurance enquanto espera para cair no mar no estaleiro de Millwall, em Londres, em julho de 1914.

fotografias de TOPICAL PRESS AGENCY, GETTY IMAGES

A proa a estibordo do Endurance nas profundezas do Mar de Weddell. O gelo marinho na superfície é tão traiçoeiro e imprevisível que poucos dados foram coletados sobre a área até hoje.

Foto de FALKLANDS MARITIME HERITAGE TRUST, National Geographic

Por que foi tão difícil encontrar o Endurance?

E foi lá que o Endurance permaneceu, sepultado sob o gelo polar a uma profundidade de três mil metros. Em 2019, o Falklands Heritage Maritime Trust montou uma primeira expedição para encontrar o navio, mas não conseguiu localizar os destroços. No início de 2022, eles tentaram novamente, organizando e financiando a Endurance22. 

Um dos maiores problemas foi estabelecer a localização do navio. Depois que o Endurance ficou preso no gelo, ele continuou à deriva conforme os blocos se moviam com a corrente. Quando o navio foi esmagado e afundou, o capitão do Endurance, Frank Worsley, fez medições da localização usando um sextante e registrou em seu diário. Contudo, devido à má visibilidade no dia em que a tripulação abandonou o navio, Worsley não conseguiu fazer as medições adequadas, que ajudariam a calcular a direção e a velocidade dos blocos de gelo.

Uma das primeiras tarefas da equipe de cientistas e especialistas em navegação da Endurance22 foi revisar os registros de Worsley para chegar a uma localização mais precisa. 

“A última observação de Worsley foi em 18 de novembro, então ele fez outra em 20 de novembro, um dia após o naufrágio”, conta Bound. “Fez outra no dia 22, mas já estava longe. Então, teve que adivinhar a velocidade de movimentação do gelo.”

Havia também a questão dos cronômetros da tripulação. Utilizando os mapas celestes de hoje que são muito mais precisos, os pesquisadores calcularam que os relógios do Endurance estavam funcionando mais rápido do que a tripulação acreditava, um erro que mudaria a localização da embarcação a oeste da última posição registrada de Worsley. Com base nesses cálculos, a expedição afunilou a busca, mas ainda eram poucas as chances de encontrar a embarcação.

“Havia três ou quatro dias restantes e ainda não tínhamos encontrado”, disse Bound. “Três áreas ainda seriam analisadas. Mas, muitas vezes, o gelo decide os locais que iremos analisar. Ele estava se movimentando de oeste para leste, o que nos levou a começar pela porção sul de nossa área de busca. E lá estava ele!”

O Endurance começou sua jornada pelo gelo ártico em 1914 como parte da Expedição Transantártica Imperial. Shackleton recebeu milhares de inscrições de pessoas que queriam participar da viagem e partiu com uma equipe que incluía um artista, um meteorologista e dois cirurgiões. VÍDEO DE FALKLANDS MARITIME HERITAGE TRUST/NATIONAL GEOGRAPHIC

Equipe subaquática e tripulação do S.A. Agulhas II retiram o VSA após um mergulho no Mar de Weddell, em busca do navio Endurance de Ernest Shacklaton.

Foto de Esther Horvath

“Na verdade, estava a apenas 4,16 milhas náuticas da posição de Worsley, o que mostra a incrível precisão de seus cálculos”, acrescenta John Shears, líder da expedição Endurance22.

Além de estabelecer a localização, o maior desafio da expedição foi o gelo marinho. “Um especialista em Londres disse que tínhamos 10% de chance de atravessar o gelo”, lembra Shears, rindo. Felizmente, o navio de pesquisa S.A Agulhas II conseguiu abrir caminho em meio ao gelo de um metro de espessura a uma velocidade de cinco nós. Mas nem mesmo esse obstáculo impediu que a embarcação fosse ligeiramente “mordiscada” pelo gelo em fevereiro, quando as temperaturas caíram para -10ºC. “A imprensa fez tempestade em copo d’água”, disse Shears. “Ficamos presos apenas por cerca de quatro horas em uma pequena plataforma de gelo até que a maré nos fez flutuar.”

O navio de pesquisa finalmente chegou à área de busca designada em 18 de fevereiro e a equipe começou a caça submarina pelo Endurance. Para pesquisar o fundo do mar a três mil metros de profundidade, eles usaram dois VSAs equipados com sonar e tecnologia de inspeção visual. Amplamente utilizados na indústria petrolífera offshore, as sondas têm 3,6 metros parecem discos rígidos gigantes de computador. Capazes de operar de forma autônoma a 160 quilômetros da embarcação-guia e suportar pressões e temperaturas extremas, eles conseguiram recuperar as primeiras imagens do local dos destroços do Endurance

Bound e Shears estavam passeando no gelo quando as primeiras imagens foram transmitidas dos VSAs, lembra Bound. “No momento em que voltamos ao navio, corremos até a ponte. Um dos membros da equipe subaquática estava lá, sorrindo de orelha a orelha. Quando ele me mostrou uma captura de tela, foi como se toda a minha vida se resumisse àquele momento.”

O Agulhas II atravessa espessas camadas de gelo no Mar de Weddell, que continua sendo uma das regiões mais remotas e implacáveis do planeta.

Foto de Esther Horvath

O capítulo final da saga Shackleton revelado

Shackleton é dono da famosa frase: “O que o gelo agarra, ele guarda para si”. Mas a história do Endurance não terminou com o naufrágio do navio. A jornada de volta de Shackleton pelo Mar de Weddell para obter ajuda para sua tripulação se tornaria uma das narrativas mais célebres sobre exploração e sobrevivência. 

Em 4 de abril de 1916, Shackleton deixou a maior parte de sua tripulação na Ilha Elefante e partiu com outros cinco em um dos botes salva-vidas modificados do Endurance para a ilha de Geórgia do Sul. Foi uma jornada de 1,2 mil km e 16 dias por mares gelados e agitados, açoitados por vendavais que tinham a força de um furacão. “O vento simplesmente emitia um som agudo conforme arrancava o topo das ondas”, escreveu Shackleton. “Descendo vales, atingindo alturas impressionantes, sendo utilizado ao máximo até suas costuras se abrirem, assim balançava nosso pequeno barco.” 

Chegando à costa sul da Geórgia do Sul, eles fizeram uma caminhada de 36 horas pela ilha montanhosa e acidentada para chegar a uma estação baleeira em Stromness. Shackleton se esforçou ao máximo para conseguir chegar, embora ele provavelmente tivesse um buraco no coração, conforme sugerem novas pesquisas.

Quando os homens entraram cambaleando, o encarregado da estação, Thoralf Sorlle, mal podia acreditar no que estava vendo. “Nossas barbas estavam compridas e nossos cabelos emaranhados”, escreveu Shackleton. “Estávamos sujos e as roupas que havíamos usado por quase um ano sem trocar estavam esfarrapadas e manchadas.”

Quase seis anos depois, enquanto se preparava para outra expedição à Antártida, Shackleton morreria de ataque cardíaco na Geórgia do Sul. Ele foi enterrado lá em 5 de março de 1922. Exatamente 100 anos depois, a equipe da Endurance22 capturou as primeiras imagens do Endurance

Bound diz que ele e seus companheiros de equipe vão parar na Geórgia do Sul a caminho de casa para visitar o túmulo de Shackleton. “Estamos tristes por deixar o local”, conta ele. “Mas há um grande sentimento de orgulho e realização. E vamos parar para expressar nosso respeito ao Chefe.”

Nota do editor: The Falklands Maritime Heritage Trust é uma organização não-governamental com sede no Reino Unido dedicada a preservar a história das ilhas Malvinas e dos mares adjacentes. A República Argentina reivindica a soberania desse território e reconhece as ilhas Malvinas, Georgia do Sul e Sandwich do Sul como seus territórios marítimos.

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