Conheça aldeias abandonadas que viraram ecoparaísos

A Espanha rural vem perdendo população há décadas. Agora, novas comunidades idealistas estão se instalando no interior do país.

Prada de la Sierra, no noroeste da Espanha, ficou vazia nos anos 1970 à medida que as pessoas migravam para as cidades. Nos últimos anos, recebeu cerca de uma dúzia de novos moradores que se instalaram e restauraram alguns de seus edifícios. Os residentes ganharam uma ordem judicial no início de junho para que a vila fosse reconhecida novamente.

Foto de Sanne Derks National Geographic
Por Myrthe Prins
Publicado 4 de set. de 2022 16:00 BRT

Onde uma pessoa vê o vazio, outra pode encontrar oportunidade. Esse foi o tema principal para a antropóloga e fotojornalista holandesa Sanne Derks enquanto documentava a vida de pessoas que se mudaram para casas e aldeias abandonadas no interior espanhol escassamente povoado.

“Eu estava trabalhando em uma história sobre cidadãos europeus desenvolvendo iniciativas para resistir às mudanças climáticas”, lembra Derks. Ela ficou fascinada pelas ecovilas – comunidades cooperativas sustentáveis ​​– que inspiraram um projeto maior.

Marta Haro López, Sara Vallejo Sarden, Mauricio Noel Strübing e Yule Argüello Navarro tomam café da manhã em uma casa que construíram na isolada aldeia de Matavenero, no noroeste da Espanha. Hippies alemães reassentaram a vila abandonada na década de 1980; hoje é o lar de pelo menos 50 residentes permanentes de várias gerações.

Foto de Sanne Derks

Durante 2020 e 2021, ela explorou sete aldeias espanholas que foram “repovoadas”, incluindo não apenas ecovilas, mas também outras formas de vida. Derks descobriu que os moradores compartilhavam uma visão comum. “Quase todos eles estão fazendo isso com a convicção de que no mundo de hoje as coisas têm que ser diferentes”, afirma Derks. “Eles acreditam que a cidade já não é o lugar para morar.”

Ela batizou seu projeto de fotografia Rutopia, uma mistura de “rural” e “utopia”, que explora duas questões: o que leva alguém a fazer as malas e se mudar para uma vila em ruínas e quais são os desafios que enfrentam quando lá estão?

Hannah Brüderer é uma das fundadoras da comunidade de Matavenero. Seu filho e seus netos ainda moram aqui. "A maioria das pessoas fica aproximadamente 10 anos", diz ela. Um dos desafios é ganhar dinheiro no local remoto: as pessoas geralmente se mudam quando seus filhos atingem a idade escolar para obter rendimentos mais estáveis ​​e acesso à educação. "Em Matavenero, trabalhamos muito, mas não por dinheiro", conta. 

Foto de Sanne Derks National Geographic

O conceito de comunidade sustentável existe há séculos, mas o termo “ecovila” é relativamente novo. Fundado há mais de 30 anos, um dos exemplos mais antigos da Espanha é Matavenero, um remoto posto de montanha na província de León. Esta vila abandonada, acessível apenas a pé, foi povoada novamente por um grupo de hippies alemães no final dos anos 1980 e hoje tem aproximadamente 50 moradores permanentes. De acordo com a organização voluntária Global Ecovillage Network, a Espanha tem cerca de 90 ecovilas, muito mais do que a maioria dos países da Europa.

O país também tem algo que outros países europeus carecem. “A Espanha é muito mais espaçosa do que, digamos, a Holanda ou a Bélgica”, diz Derks. “Além disso, houve uma grande migração para as cidades costeiras e para Madri desde a década de 1970.”

De acordo com o governo espanhol, 70% das terras do país estão ocupadas por apenas 10% da população, um fenômeno comumente chamado de España vacía, ou Espanha vazia, em português. O êxodo é tão extremo que muitas aldeias rurais são agora cidades completamente fantasmas.

Além do desejo de transformar o estilo de vida, Derks observou que as pessoas que se mudaram para esses lugares escassamente povoados também foram estimuladas pelos rigorosos confinamentos durante a pandemia de coronavírus e uma série de crises econômicas e habitacionais. “Eles estão se afastando do capitalismo, do consumismo – e buscando algum tipo de mini sociedade utópica”, explica ela. Mas Derks descobriu que esse ideal tem mais do que algumas imperfeições.

À esquerda: No alto:

Felix Franco Escobar e Guillem Mateu Prat fazem churrasco na ruína onde vive Franco Escobar, em Aguinalíu. O prédio, antigo estábulo para animais, não tem janelas nem portas, mas ele está satisfeito com sua casa.

À direita: Acima:

Barchel, uma vila isolada na província de Valência, ficou vazia por 40 anos. Há sete anos, novos moradores se instalaram. Eles se organizaram de forma comunitária, alternando tarefas diárias como preparar o jantar, trabalhar no jardim e pastorear as cabras. Aqueles que têm um emprego remunerado doam 30% de seu salário para a comunidade. Os fundos são usados ​​para comprar alimentos que eles não podem produzir, bem como outros suprimentos.

fotografias de Sanne Derks National Geographic

Jürgen Pluindrich, que mora em Matavenero, recebeu sua casa em troca de três semanas de trabalho para outro morador, há mais de 20 anos. Originalmente da Alemanha, ele diz ter um sentimento de pertencimento que não conseguia encontrar na selva urbana.

Foto de Sanne Derks National Geographic

Desafios de viver em uma comunidade pequena

Conexão telefônica instável. Ficar coberto de neve durante o inverno. Não poder sobreviver apenas com a colheita da sua própria horta. Antes de começar sua reportagem, Derks esperava que os desafios do campo fossem encontrados principalmente nas dificuldades de uma vida isolada e autossuficiente. “Esses desempenham um papel, é claro”, conta. “Mas depois de visitar alguns lugares, percebi que a maioria dos problemas nas comunidades tinha a ver com conflitos internos.”

Uma mistura ruim de “No meu quintal, não” ou Nimby (do inglês: not in my back Yard) e fofoca poderia estragar o espirit de corps. “Você tem uma linda árvore, mas ela projeta uma sombra no lugar de outra pessoa. Ou você está muito feliz com seu arbusto de bagas, mas se não for podado a tempo, as crianças vizinhas vão coçar as pernas nele”, diz ela. “Ou suponha que seu relacionamento romântico termina. Isso pode de repente se tornar um grande problema em uma comunidade tão pequena.”

No Parque Natural da Zona Vulcânica La Garrotxa, na região da Catalunha, Dídac Costa comprou 70 hectares, que incluem quatro estruturas abandonadas em uma aldeia – o parque inclui municípios. Ele investiu seu dinheiro na reforma desta casa, mas seu sonho é criar um coletivo de moradores ecologicamente conscientes e com ideias semelhantes.

Foto de Sanne Derks National Geographic

Mesmo a venerável Matavenero não conseguiu alcançar a harmonia perfeita. “Eu esperava que essa comunidade fosse uma história de sucesso porque já durou várias gerações”, conta Derks. “Mas os problemas acabaram sendo tão graves quanto em outros lugares. Houve um caso em que alguém até incendiou a casa de outra pessoa.”

A comunicação parecia ser um desafio contínuo, e uma pessoa pode até ser expulsa do grupo por causa de um conflito.

Uma comunidade emergente na província espanhola de Girona está completamente livre de conflitos interpessoais – porque tem apenas um único residente. No Parque Natural da Zona Vulcânica La Garrotxa, uma paisagem idílica de vulcões extintos cobertos de árvores ao norte de Barcelona, ​​Derks visitou Dídac Costa. Com dinheiro herdado de seu pai, ele comprou 70 hectares de terra no parque, que incluem várias ruínas no vilarejo de Ca l'Amat, para fundar uma comunidade.

Nativo de Barcelona, ​​Dídac Costa tem quatro gatos, três cachorros, dois burros e 35 cabras. Mas, além dos animais, ele ainda não conseguiu encontrar moradores com ideias semelhantes para a ambiciosa comunidade que ele chama de Ecovila Amat. “O que Dídac tem em mente é politicamente complicado”, acredita a fotógrafa Sanne Derks.

Foto de Sanne Derks National Geographic

“Ele renovou por completo uma casa e hoje mora lá com três cachorros, quatro gatos, dois burros e 35 cabras”. Mas, além dos animais, ele ainda não conseguiu encontrar pessoas afins para a comunidade que ele chama de Ecovila Amat.

“O que Dídac tem em mente é politicamente complicado”, acredita Derks. “Para viver com ele, as pessoas têm que compartilhar suas convicções anarquistas. E os candidatos que são suficientemente ecolibertários/pacifistas/hippies, “muitas vezes não têm dinheiro para investir”, explica. “Então ele está morando lá sozinho há anos.”

Não importa o quão idílico seja o cenário, não existe um grupo social livre de conflitos, pondera Derks. É “o preço que você tem que pagar se quiser iniciar uma comunidade com personalidades diversas”.

Costa alimenta seus animais em frente à sua casa na aldeia de C'al Amat. Ele não vê sua tentativa de iniciar uma comunidade como um fracasso. “Mesmo que você nunca chegue ao destino, ainda dá direção à sua vida”, diz Derks.

Foto de Sanne Derks National Geographic

Mas de vez em quando ela se encontrava em lugares que pareciam bastante utópicos. Em Barchel, uma vila isolada a oeste de Valência, Derks imediatamente se sentiu em casa. Um grupo de jovens idealistas estava transformando uma casa de fazenda vazia em uma nova residência. Sete anos atrás, quando eles chegaram, o lugar já tinha sido abandonado durante quatro décadas.

“Há uma horta enorme e eles se divertem muito juntos”, conta. “Eles estão altamente motivados para desenvolver a vila com base em seus valores.” Por um lado, em Barchel não há hierarquia. Os moradores tomam quase todas as suas decisões por meio de uma reunião. “Quem vai ordenhar as cabras? Quem vai trabalhar no jardim? Quem está cuidando do almoço? Quem está fazendo sabão? É como viver continuamente numa viagem de acampamento escolar”, diz ela.

Derks percebeu que ela não foi feita para a vida comunal. “Esse talvez tenha sido o maior desafio deste projeto”, acredita. “Eu concordo com muitas das ideias que compõem a base de tal vila, como sustentabilidade e minimalismo.” Mas seu lado individualista puxa mais.

“Em certo sentido, você tem que se deixar de lado para o objetivo coletivo de construir juntos um futuro sustentável”, explica. “É fantástico que eles façam isso, mas eu não poderia. Realizar uma reunião para cada pequena decisão? Não tenho paciência para isso”.

Andrea Martín Moreno, Duende del Parke, Lalo Arracil Coca e Miguel Martínez, que vivem em Fraguas, na região de Castilla-La Mancha, fazem uma pausa à tarde na casa comunitária e na cozinha. Os barris são a preparação para a resistência: sob a ameaça de despejo por ocupação ilegal, eles planejam se acorrentar no local. No final da década de 1960, os moradores daqui venderam a terra para dar lugar a um projeto de madeira. Mais tarde, a área foi usada como campo de treinamento para soldados, que demoliram algumas das estruturas. Na última década, um coletivo de moradores ressuscitou a vila.  

Foto de Sanne Derks National Geographic

Reinvenção rural

Embora uma utopia nas montanhas espanholas possa não ser para todos, muitas pessoas prosperam. Jürgen Pluindrich, nativo da Alemanha, vive em Matavenero há 30 anos e criou seu filho lá. “Ele me disse que não conseguiria encontrar seu caminho entre o asfalto e o consumismo de uma cidade”, relata Derks.

Em Aguinalíu, uma aldeia sobre a montanha na região de Aragão, ela ouviu uma história semelhante de Guillem Mateu Prat. Ele comprou um lugar por mil euros e quer renová-lo usando apenas materiais reciclados. Ele encontrou a paz interior que estava faltando em sua vida anterior. “Ele se sentia perdido na cidade”, conta a fotógrafa.

Ela também conheceu pessoas que cresceram em uma ecovila. “Depois que as crianças vão para a escola, os pais muitas vezes se mudam para uma vila próxima que tem outras infraestruturas”, explica ela. “Mas quando eles crescem e querem começar sua própria família, muitos voltam para a comunidade. Isso lhes dá uma sensação de conforto.”

Mesmo Dídac Costa, ainda em busca de moradores que compartilhem suas ideias para a Ecovila Amat, não vê sua comunidade como um fracasso. Derks expressa a mentalidade de Costa: “Mesmo que você nunca chegue ao destino, ele ainda dá direção à sua vida”.

A vista de manhã sobre Fraguas. Cerca de 15 recém-chegados reconstruíram as estruturas abandonadas com a esperança de iniciar uma comunidade autossustentável. Desde então, o governo local lhes ordenou que desmantelassem os prédios ou pagassem por sua demolição. Depois disso, a terra poderia ser usada para a colheita de madeira.

Foto de Sanne Derks National Geographic

Conflitos pioneiros

Ela reconhece o valor de reduzir os próprios pertences. “Quando trabalhei como guia de turismo na América do Sul, vi pessoas em meus grupos com bastões de trekking, 17 pares de sapatos, calças conversíveis”, lembra. “Todo mundo pensa que precisa de tudo isso. Quando você aprende a se afastar dessa ideia, em certo sentido você fica mais livre.”

Felix Franco Escobar, um paraguaio que Derks conheceu em Aguinalíu, encarnava esse espírito. “Sempre de bom humor e completamente satisfeito, embora não possua praticamente nada”, lembra. “Um mestre do minimalismo.” Geralmente bebendo seu chá mate, Escobar mora num antigo curral de ovelhas, feito de pedra, sem porta nem janelas, onde dorme numa cama sem colchão.

“Ele trabalha na construção, mas não tem nenhuma pressa em reformar aquela casa”, diz Derks. Quanto à falta de colchão, ele afirma que é bom para as costas. “Não estou dizendo que todos devem viver dessa maneira”, pondera. “Mas é importante refletir sobre o que você realmente precisa ter.”

De certa forma, a pequena comunidade de Fraguas, nas colinas arborizadas de Guadalajara, nordeste de Madri, leva ao extremo o minimalismo – segundo o governo local, eles não têm o direito de morar lá. Derks relembra as árvores frutíferas e os arbustos de bagas florescendo durante sua visita. “Muito idílico, mas há uma boa chance de que essas pessoas sejam despejadas”, comenta.

Os habitantes consideram o repovoamento como seu direito, mas o governo espanhol tem uma visão diferente. Os invasores, rotulados como “ocupas” – a Espanha tem uma história complexa de ocupação, que se originou na era pós-Franco – estão envolvidos em uma disputa legal com as autoridades há sete anos, em parte por violação de direitos de propriedade.

Recentemente, um tribunal ordenou que seis membros da comunidade de Fraguas paguem 110 000 euros para demolir a cidade que reconstruíram ou vão para a prisão por mais de dois anos. Eles anunciaram que apelarão da decisão. “Afinal, eles não podem pagar porque não têm nada. Agora, alguns deles têm uma sentença de prisão pairando sobre suas cabeças”, destaca Derks. “É um preço alto para uma utopia.”

Essas comunidades enfrentam tantos conflitos justamente porque são pioneiras, acredita a fotógrafa. “Eles estão experimentando modelos anticapitalistas, algo que parece totalmente impossível em um mundo capitalista”, diz ela.

O compromisso ideológico é um denominador comum dos lugares que Derks visitou – sejam moradores que desejam reduzir sua pegada ecológica, viver com menos pertences ou experimentar novos sistemas políticos e econômicos. “Exatamente essa é a utopia, eu acho”, diz. “Comecei a admirar o fato de que eles ousaram fazer uma escolha tão consciente. Porque não importa quão pequeno seja, eles estão fazendo alguma coisa.”

Esta história foi adaptada da edição holandesa da National Geographic. A fotógrafa e exploradora da National Geographic Sanne Derks trabalha extensivamente na América Latina.

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