Meio Ambiente

Aumento de 50 vezes no uso de agrotóxicos pode levar a apocalipse de insetos

Abelhas, borboletas e outros insetos estão sendo atacados pelas próprias plantas que lhes servem de alimento enquanto a agricultura dos Estados Unidos insiste em utilizar produtos químicos sabidamente mortais.terça-feira, 20 de agosto de 2019

Por Stephen Leahy
Abelhas melíferas no exterior de uma colmeia. A agricultura nos Estados Unidos está quase 50 vezes mais tóxica para abelhas melíferas e outros insetos do que nos últimos 25 anos, concluiu novo estudo.

A paisagem agrícola dos Estados Unidos é atualmente 48 vezes mais tóxica para abelhas melíferas e outros insetos do que há 25 anos, sobretudo pelo uso generalizado dos chamados pesticidas neonicotinoides, segundo um novo estudo publicado no periódico PLOS One.

Este aumento enorme na toxicidade acompanha os declínios vertiginosos nas populações de abelhas, borboletas e outros polinizadores, além de pássaros, afirma Kendra Klein, coautora do estudo, cientista da equipe sênior da organização ambiental não governamental Friends of the Earth US.

“Esta é a segunda Primavera Silenciosa. Os neonicotinoides são como um novo DDT, com a diferença de que são mil vezes mais tóxicos às abelhas do que era o DDT”, afirma Klein em entrevista.

Utilizando uma nova ferramenta que mede a toxicidade em relação a abelhas, o período em que um pesticida permanece tóxico e a quantidade empregada por ano, Klein e pesquisadores de três outras instituições determinaram que a nova geração de pesticidas tornou a agricultura muito mais tóxica para os insetos. As abelhas são como representantes de todos os insetos. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos segue o mesmo procedimento quando exige dados de toxicidade para fins de registro de agrotóxicos, explicou ela.

O estudo verificou que neonicotinoides respondiam por 92% desse aumento na toxicidade. Neonicotinoides não são apenas extremamente tóxicos para abelhas, mas também podem permanecer tóxicos na natureza por mais de mil dias, contou Klein.

“A boa notícia é que não precisamos de neonicotinoides. Temos quatro décadas de pesquisas e provas de que métodos de produção agroecológica podem ser empregados para cultivar alimentos sem dizimar os polinizadores”, afirma ela.

“É perturbador. Esse estudo revela uma escalada nos neonicotinoides tóxicos presentes no ambiente, o que pode explicar o declínio nas populações de insetos”, afirma Steve Holmer, da American Bird Conservancy.

Com o declínio dos insetos, as populações de pássaros que se alimentam de insetos despencaram nas últimas décadas. Também houve um declínio generalizado em praticamente todas as espécies de pássaros, contou Holmer. “Todo pássaro precisa se alimentar de insetos em algum momento de seu ciclo de vida”.

O que são neonicotinoides?

Inseticidas neonicotinoides são utilizados em mais de 140 culturas agrícolas diferentes em mais de 120 países. Eles atacam o sistema nervoso central dos insetos, provocando estimulação excessiva das células nervosas, paralisia e morte.

São inseticidas sistêmicos, o que significa que as plantas os absorvem e incorporam sua toxina em todos os tecidos vegetais: caules, folhas, pólen, néctar, seiva. Também significa que os neonicotinoides se mantêm na planta permanentemente, desde a semente até a colheita, mesmo nas folhas mortas. Quase todo neonicotinoide utilizado nos Estados Unidos se destina ao revestimento de sementes, incluindo quase todas as sementes oleaginosas, sementes de milho, canola, a maioria das sementes de soja e algodão e muitas plantas vendidas em centros de jardinagem.

No entanto, apenas 5% das toxinas acabam na planta do milho ou da soja: o restante se dispersa no solo e na natureza. Os neonicotinoides são prontamente solúveis em água, o que implica que tudo que for utilizado em uma propriedade rural não ficará lá.  Estudos descobriram que a substância contamina riachos, lagoas e brejos.

Este é o primeiro estudo a quantificar a toxicidade das propriedades agrícolas para insetos. O estudo mostra ainda que os níveis de toxicidade dispararam rapidamente com o aumento acentuado no tratamento de sementes com neonicotinoides, afirmou Klein. “Esse aumento ocorreu simultaneamente com as primeiras observações de declínios nas populações de abelhas feitas por apicultores”, prosseguiu.

Essas são correlações, já que o estudo não quantificou nem estimou ao que estão realmente expostas as abelhas ou outros insetos. O estudo faz a ressalva de que pode ter superestimado as doses de inseticidas realmente recebidas pelas abelhas.

No entanto o estudo não avaliou os inúmeros efeitos não letais documentados dos neonicotinoides sobre as abelhas, como a reprodução prejudicada, a anomalia no sistema imunológico e a incapacidade de localização eficiente.

“Por esse motivo, acredito que nosso estudo foi bastante conservador”, afirma Klein.

Apocalipse dos insetos?

Alguns cientistas vêm alertando de que um “apocalipse dos insetos” está em andamento. Uma análise global de 452 espécies em 2014 estimou que a população de insetos sofreu um declínio de 45% ao longo de 40 anos. Nos Estados Unidos, a população da icônica borboleta-monarca caiu entre 80 e 90% nos últimos 20 anos. Um estudo publicado no mês passado verificou um declínio médio de 33% nas populações de 81 espécies de borboletas em Ohio nos últimos 20 anos. Medições sistemáticas das populações de borboletas são o melhor indicativo da situação em que se encontram os 5,5 milhões de espécies de insetos existentes no mundo, observaram os autores do estudo de Ohio.

Além da importância das abelhas, borboletas e outros insetos por serem responsáveis pela polinização de um terço de todas as lavouras de alimentos, a redução nas populações de insetos podem ainda ter repercussões ecológicas catastróficas. E.O. Wilson, um renomado entomologista de Harvard, declarou que, sem insetos, o restante das formas de vida, incluindo o homem, “em sua maioria, desapareceria da face da Terra. E em poucos meses.”

Em abril de 2019, um importante estudo alertou que 40% de todas as espécies de insetos estão em risco de extinção devido aos agrotóxicos — sobretudo neonicotinoides, uma vez que são os inseticidas mais amplamente utilizados do planeta — mas também por causa das mudanças climáticas e da destruição de seus habitats.

David Fischer, cientista-chefe e diretor da divisão de Segurança de Polinizadores da Bayer Crop Science, esclarece que os autores do estudo admitem que “a análise é simplista e não constitui uma fundamentação adequada para tirar conclusões sobre riscos”.

Órgãos reguladores como a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos concluíram que o tratamento de sementes com neonicotinoides representa um risco pequeno, escreveu Fischer por e-mail.

A Bayer-Monsanto produz os inseticidas imidacloprida e clotianidina, dois dos três neonicotinoides que mais contribuíram para a toxicidade geral, segundo o estudo da PLOS One. A Syngenta-ChemChina produz o terceiro, o tiametoxam.

“Os neonicotinoides são menos tóxicos a organismos não visados do que os inseticidas mais antigos e, quando utilizados de acordo com o rótulo, representam um menor risco às abelhas”, informa a Syngenta em um comunicado.

Em 2018, a União Europeia baniu o uso de neonicotinoides na agricultura em razão dos danos aos polinizadores. Em 2019, o Canadá também aprovou restrições ao uso dos neonicotinoides mais amplamente utilizados.

Propriedades rurais que utilizaram neonicotinoides apresentaram uma infestação com insetos 10 vezes maior e metade dos lucros em comparação com aquelas que adotaram práticas de agricultura regenerativa no lugar de inseticidas, segundo um estudo de 2018. Assim como a agricultura agroecológica, a agricultura regenerativa utiliza o cultivo de plantas de cobertura, o plantio direto e outros métodos para aumentar a qualidade do solo e a biodiversidade na propriedade rural. As lavouras regenerativas de milho e soja analisadas no estudo não precisaram se preocupar com problemas relacionados a pragas, afirmou Jonathan Lundgren, coautor do estudo, agroecologista e Diretor da Fundação ECDYSIS.

Proprietários rurais que dependem de produtos químicos estão abandonando o ramo, contou Lundgren, que também cultiva grãos em Dakota do Sul. “Dói saber que dispomos de soluções testadas e comprovadas cientificamente que não utilizamos. Trabalhar em favor da natureza é um bom negócio”, afirma ele.

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