Um dos vulcões mais perigosos da África, o Monte Nyiragongo entrou em erupção

A lava da última erupção parou de avançar pouco antes de invadir a cidade de Goma, na República Democrática do Congo. Mas fatores geológicos e o monitoramento irregular tornam o vulcão uma ameaça permanente.

Publicado 1 de jun de 2021 16:30 BRT
Mount Mount Nyiragongo

Estrutura rodeada por lava em 23 de maio de 2021, durante a erupção do vulcão Nyiragongo, vista ao fundo. O rio de lava se deteve nos arredores de Goma, salvando a cidade no leste da República Democrática do Congo do desastre depois que a erupção noturna obrigou a evacuação de milhares de moradores.

Foto de Moses Sawasawa, AFP via Getty Images

O Monte Nyiragongo raramente fica calmo. O vulcão montanhoso no leste da República Democrática do Congo (RDC) é um dos poucos do mundo que contém um lago permanente de lava borbulhante no interior da cratera.

E, no fim do dia 22 de maio, no horário local, houve uma mudança abrupta: rachaduras se abriram nas encostas rochosas do vulcão, expelindo rapidamente lava por suas encostas. Parte da lava se dirigiu à cidade de Goma, uma metrópole a menos de 10 quilômetros de distância que abriga uma população de cerca de 1,5 milhão de habitantes. O céu noturno brilhou com a tonalidade avermelhada da lava, que, em alguns momentos, chegou a atingir uma altura de até três andares, invadiu as ruas de várias aldeias próximas a Goma a um ritmo acelerado e engoliu todas as construções pelo caminho, deixando-as em chamas. Até o fechamento desta matéria, havia 32 mortes confirmadas.

Duas das erupções recentes do Nyiragongo, em 1977 e 2002, provocaram desastres enormes. Em 1977, segundo estimativas, cerca de 600 a duas mil pessoas foram mortas por torrentes de lava. Em 2002, a rocha derretida destruiu até um quinto da cidade de Goma, deixando 120 mil desabrigados e matando cerca de 250 pessoas em decorrência de asfixia por dióxido de carbono, queimaduras e pela explosão de um posto de gasolina causada pela lava.

Esses desastres anteriores deixam os vulcanólogos nervosos a cada sinal de atividade do Nyiragongo. “É um dos vulcões mais perigosos da África”, afirma Benoît Smets, especialista em riscos geológicos do Museu Real da África Central em Tervuren, na Bélgica.

A reputação mortal de Nyiragongo se deve a uma conjunção de fatores. Devido às complexidades geológicas da região, sua lava é notavelmente fluida, capaz de se deslocar a cerca de 60 quilômetros por hora. As erupções também podem emitir grandes quantidades do gás letal dióxido de carbono na atmosfera. É extremamente preocupante, já que milhões vivem nas proximidades do vulcão.

Escombros rodeiam construções na vila de Bushara, perto da cidade de Goma, na República Democrática do Congo, em 23 de maio de 2021, após a erupção do vulcão Nyiragongo.

Foto de Justin Katumwa, AFP via Getty Images

Além disso, a instabilidade política e os conflitos da região dificultam ainda mais o monitoramento do vulcão Nyiragongo. Apesar das iniciativas do Observatório do Vulcão de Goma — construído na cidade de mesmo nome em 1986 — nenhum sinal de alerta nítido foi detectado antes da última erupção.

Com todos esses fatores em jogo, a montanha explosiva é capaz de produzir “um tipo de erupção muito amedrontadora”, afirma Corentin Caudron, vulcanólogo do Instituto de Ciências da Terra em Grenoble, na França.

Fenda tectônica

O Nyiragongo, cujo pico fica a quase 3,5 mil metros acima do Parque Nacional de Virunga, na RDC, deve sua existência a dois fatores. Um deles é a fragmentação geológica gradual da África Oriental. Uma faixa de terra entre o Mar Vermelho e Moçambique está se separando alguns centímetros a cada década: a placa núbia se desloca a noroeste e a placa somali, a sudeste, em direções opostas. Essa divisão tectônica é conhecida como Fenda da África Oriental.

Entre outros aspectos, essa separação abre espaço para o magma subir e originar vulcões. Além disso, uma coluna de materiais do manto superaquecidos, mas sólidos, sobe a partir de uma profundidade considerável e interage com a base das placas tectônicas. Essa combinação de separação de placas e formação de colunas de materiais cria fenômenos magmáticos peculiares, afirma Christopher Jackson, geólogo da Universidade de Manchester, no Reino Unido.

A maior parte do magma contém uma quantidade razoável de sílica, composto que forma a estrutura da rocha derretida. Quanto menos sílica houver, menos viscosa ou pegajosa será a lava ao entrar em erupção. O magma basáltico, material atualmente expelido na Península Reykjanes, na Islândia, possui baixa proporção de sílica, o que o torna bastante fluido, mas, em uma superfície plana, é possível escapar dele facilmente.

Não é o que ocorre com o material derretido do Nyiragongo: sua lava é tão pobre em sílica que avança rapidamente pelo solo, sobretudo se a lava for expelida em altas velocidades. Se a lava for lançada de uma altitude elevada, a encosta íngreme do vulcão pode impulsionar sua velocidade ainda mais.

No posto de fronteira conhecido como “Petite Barriere”, em Gisenyi, na Ruanda, em 23 de maio de 2021, uma pessoa carrega mala na cabeça enquanto habitantes fogem de Goma, na República Democrática do Congo, após a erupção do vulcão Nyiragongo.

Foto de Photogrpah by Simon Wohlfahrt, AFP via Getty Images

O magma do vulcão também é bastante rico em dióxido de carbono, gás incolor e inodoro. É comum esse gás aflorar silenciosamente à atmosfera por meio de aquíferos acima de câmaras profundas de magma de degaseificação. Por ser mais denso que o ar, o gás se acumula despercebido em áreas de baixa altitude. Os moradores referem-se a ele como mazuku, ou “vento maligno”.

“Muita gente morre por causa do mazuku todos os anos na região”, conta Smets. Se o magma rico em dióxido de carbono for expelido pelo Nyiragongo, volumes perigosos do gás também podem subitamente jorrar de fissuras e áreas de inundação.

Emboscada vulcânica

As erupções do Nyiragongo geralmente ocorrem quando a pressão de acúmulo de magma ou um terremoto abre fissuras nas encostas da montanha, o que causa um escoamento catastrófico do lago de lava ou o lançamento do magma armazenado a maiores profundidades.

Contudo, assim como os vulcões, erupções individuais têm características e comportamentos próprios e únicos, e não há nenhuma igual à outra. O monitoramento de vulcões em busca de sinais de atividade iminente é, portanto, uma tarefa repleta de dificuldades, e a última erupção do Nyiragongo é um exemplo perfeito desses desafios.

Entre erupções, a cratera do cume do Nyiragongo costuma ser preenchida por magma e tem apresentado exatamente esse comportamento desde a erupção de 2002. Em 2016, uma segunda chaminé se abriu no cume. Em 2020, vulcanólogos enviados por soldados de missões da paz da ONU, que protegeram os cientistas de rebeldes armados na região, notaram que o lago de lava estava sendo preenchido mais rápido do que nunca. Uma notícia preocupante, mas os cientistas não sabem ao certo se a altura do lago de lava é um indicativo de iminência de erupção do vulcão.

Em 10 de maio de 2021, o Observatório do Vulcão de Goma detectou um aumento na atividade sísmica no cume, o que talvez sugerisse um deslocamento do magma em profundidades rasas, mas não significava um indicativo infalível de erupção iminente.

As iniciativas de monitoramento do Nyiragongo pelo observatório foram frustradas de certa forma nos últimos tempos. Houve furtos e vandalismo em algumas das estações sísmicas, muitas delas permaneceram sem reparos devido ao risco de violência. No ano passado, o observatório também perdeu o financiamento do Banco Mundial em decorrência de alegações de fraude.

Consequentemente, os sensores remotos ficaram sem conexão com a internet por vários meses e as medições regulares do vulcão não foram possíveis. Apesar desses problemas contínuos, o observatório, com um pequeno orçamento recebido do governo da RDC e em cooperação com outros parceiros internacionais, manteve suas iniciativas de monitoramento do Nyiragongo.

Contudo, no fim, o vulcão entrou em erupção inesperadamente, sem ter apresentado nenhum indicativo geológico evidente da iminência de erupção. “Não houve absolutamente nenhum sinal de aviso dessa erupção”, lamenta Smets. “Ninguém poderia prevê-la.”

A erupção de 22 de janeiro surpreendeu uma cidade assombrada pelos infernos passados do Nyiragongo. Por pura sorte, a lava não atingiu Goma. Na manhã de 23 de janeiro, a erupção perdeu intensidade. A lava parou de avançar a menos de 300 metros da periferia de Goma, deixando para trás um rio solidificado e ardente de rocha vulcânica.

Ainda assim, a tragédia assolou 17 aldeias vizinhas, que foram atingidas pela lava, resultando na destruição de centenas de casas, uma escola, três postos de saúde e a tubulação de água. Até o momento desta matéria, duas pessoas morreram queimadas, nove morreram em acidentes de trânsito durante a evacuação caótica e quatro prisioneiros foram mortos ao tentar escapar de suas celas.

Futuro de fogo

O Nyiragongo ainda está emitindo muitos ruídos sísmicos e alguns abalos significativos estão sacudindo a região, o que sugere turbulência no subterrâneo. Mas os cientistas não sabem se outra erupção pode ocorrer em breve.

No fim de semana da erupção, foi a primeira vez que um amplo conjunto de equipamentos de monitoramento — ao contrário das reduzidas estações sísmicas do passado — passou a operar durante uma erupção do Nyiragongo. É uma ótima notícia àqueles que desejam estudar a atividade geológica atual, porém, sem dados anteriores para compará-la, a atividade vulcânica recente será difícil de interpretar. Entretanto, segundo Caudron, esses registros serão inestimáveis aos cientistas que tentam entender as atividades do vulcão antes da próxima erupção.

Em algum momento, certamente o Nyiragongo voltará a entrar em erupção. Na próxima vez, Goma pode ser atingida pela lava. Se o lago Kivu da região for afetado por atividade vulcânica subaquática intensa, quantidades significativas de dióxido de carbono podem se infiltrar em suas águas. E se o magma se deslocar a outro ponto subterrâneo, uma nova chaminé vulcânica pode se abrir no meio da cidade.

Os riscos são imensos e permanentes no entorno desse vulcão hiperativo. Goma, bem como Gisenyi — uma cidade em Ruanda que faz fronteira com Goma — estão em perigo praticamente constante.

Mas há realização contínua de pesquisas para aumentar a compreensão dos cientistas, determinar a frequência de erupção e mapear prováveis trajetos futuros dos fluxos de lava, afirma Matthieu Kervyn, especialista em riscos naturais da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica.

Sejam quais forem as futuras revelações científicas, muitos dos moradores da cidade provavelmente não podem ou não vão se mudar a um local mais seguro, até mesmo aqueles que vivem em eventuais percursos futuros dos fluxos de lava do vulcão. Se a lava invadir mais uma vez as ruas de Goma, poderá causar grandes danos e traumas duradouros em milhões de pessoas.

Mas talvez a experiência recente tão vívida de destruição generalizada desencadeie uma nova iniciativa de redução de danos, produzindo estudos científicos mais profundos na região, mais monitoramento ativo e planejamento urbano nas áreas de maior risco.

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