Como fazer compostagem e por que é bom para o meio ambiente

Conheça a ciência por trás da reciclagem de restos de comida em casa e como ela reduz as emissões de aterros sanitários.

Por Sarah Gibbens
Publicado 20 de abr. de 2022 12:00 BRT
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O composto é feito de uma mistura de restos de comida e resíduos de quintal, como folhas varridas. Quando adicionado ao solo, ajuda as plantas a prosperar.

Foto de Severin Wohlleben, laif/Redux

Cerca de um terço dos alimentos produzidos em todo o mundo vai para o lixo, e grande parte acaba em aterros sanitários – onde viram uma fonte de metano, gás de efeito estufa 25 vezes mais potente que o dióxido de carbono. Eliminar o desperdício é a melhor opção, mas sempre haverá lixo. Para isso existe uma solução que quase qualquer um pode fazer: compostagem.

A compostagem transforma o lixo podre em um valioso adubo, que ajuda as plantas a prosperar. Agricultores chamam isso de “ouro negro”. 

E se você faz compostagem em seu quintal ou em uma instalação comunitária, especialistas dizem que isso reduzirá seu lixo e, de certa forma, ajudará a combater as mudanças climáticas.

“Não tenha medo disso. É relativamente fácil. Não é sem seus erros, mas eles são facilmente aprendidos e corrigidos”, diz Bob Rynk, principal autor do The Composting Handbook (O guia da compostagem, em tradução livre) e professor emérito da Universidade do Estado de Nova York, nos Estados Unidos.

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O que acontece em uma pilha de compostagem?

Os alimentos se transformam em adubo através do trabalho árduo de pequenos microrganismos como bactérias, fungos e protozoários. 

“Quando você tem uma pilha de compostagem, você se torna um criador de micróbios. Você está gerenciando micróbios”, diz Rhonda Sherman, especialista em compostagem da Universidade Estadual da Carolina do Norte. “E o que os micróbios precisam? Das mesmas coisas que nós: ar, água, comida, abrigo.”

Em pequena escala, em seu quintal ou bairro, uma pilha de compostagem deve consistir em três coisas: restos de comida, água e material seco e lenhoso, como restos de poda, folhas varridas, cascas de árvore ou até papel.

As aparas de quintal são frequentemente chamadas de 'marrons' e são ricas em carbono. Restos de comida são chamados de 'verdes' e são ricos em nitrogênio. Uma pilha de compostagem normalmente deve ter duas vezes mais marrons do que verdes. 

Além de evitar que uma pilha se transforme em uma bagunça, os marrons são mais volumosos e criam espaço para o oxigênio se mover por toda a pilha. Esse oxigênio ajuda os minúsculos micróbios a decompor os resíduos de alimentos por meio de um processo chamado digestão aeróbica. 

Em aterros sanitários, pilhas profundas de lixo impedem que o oxigênio atinja os alimentos em decomposição e, por isso, ele é decomposto por micróbios que podem sobreviver sem ar. A digestão anaeróbica praticada por esses micróbios produz metano. 

Em contraste, à medida que os micróbios aeróbicos decompõem os resíduos – “primeiro, compostos açucarados mais fáceis, depois proteínas e gorduras e, finalmente, fibras”, diz Rynk – eles emitem dióxido de carbono, que também é um gás de efeito estufa, mas menos potente que o metano.

Os micróbios também emitem calor e, em uma pilha grande e bem gerenciada, esse calor pode atingir mais de 54°C, o suficiente para matar patógenos. 

O composto fresco deixado após vários meses fica em um estado de decomposição mais lento; é rico em microorganismos e nutrientes como nitrogênio, fósforo e potássio.

Como fazer uma pilha de sucesso

Em casa, você deve mexer ou misturar a pilha periodicamente e mantê-la úmida. Ambos os passos irão acelerar o processo de decomposição. A agitação permite que o oxigênio alcance todos os cantos e recantos, e a umidade garante a sobrevivência dos microrganismos, que precisam de umidade para viver.

Na verdade, o erro mais comum em composteiras de quintal é elas ficarem muito secas. Mas também não afogue a pilha – adicionar mais verduras, que contêm umidade, pode ser suficiente. Caso contrário, borrifar água suavemente sobre a pilha deve resolver o problema.

Torça uma esponja molhada e observe sua textura levemente úmida: “É assim que sua pilha de compostagem deve parecer e sentir”, diz Sherman. “Você pode ver que está úmido, mas não está pingando por toda parte.” 

Sherman diz que incentiva as pessoas a manter caixas de compostagem com cerca de um metro de altura para que possam acumular calor suficiente – mas para mantê-las à sombra, onde não secarão.

“As pessoas acham que têm que colocar no sol para esquentar. Isso é um mito! A ação dos micro-organismos aquece os materiais da lixeira”, diz ela.

Nem todos os restos de comida são recomendados para uma pilha de compostagem no quintal. Os restos de frutas e vegetais geralmente são seguros para jogar na pilha, mas carne ou laticínios não consumidos são mais propensos a cheirar e atrair pragas. Eles também contêm níveis mais altos de gordura, que levam mais tempo para se decompor. Embora não seja incomum ver roedores em uma caixa de compostagem, virar a pilha regularmente os impede de criar ninhos, e o composto pode efetivamente ser feito em caixas fechadas.

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Os resíduos alimentares mostrados aqui foram coletados dos residentes de Lyon, França, e serão processados em uma instalação de compostagem comercial. Ao acrescentar a coleta de resíduos alimentares aos programas regulares de reciclagem e coleta de lixo, as cidades podem reduzir a quantidade total de lixo enviado para aterros sanitários.

Foto de Nicolas Liponne, Hans Lucas/Redux

Algumas comunidades oferecem lixeiras para restos de comida junto com as de lixo e reciclagem. Os restos de comida coletados no nível da cidade normalmente vão para uma grande composteira industrial, onde os itens geralmente são triturados ou picados na chegada e processados ​​em altas temperaturas. A compostagem neste nível pode ser feita em grandes pilhas ou em silos. Como eles enviam resíduos de alimentos para instalações de compostagem industrial, os municípios tendem a aceitar uma variedade maior de restos do que você pode jogar em seu quintal, e as regras variam de acordo com a cidade. 

Se você não tem um quintal, acesso a um serviço de resíduos alimentícios ou simplesmente não quer mexer em uma pilha de compostagem, muitas hortas urbanas e mercados de agricultores aceitam composto.

E se você está preocupado com o odor ao manter o composto na bancada ou na cozinha antes de movê-lo para uma pilha maior de compostagem, Sherman diz que colocar restos de comida no freezer é um “divisor de águas”. Ao congelar suas sobras, você faz uma pausa no processo de decomposição e evita a formação de odores. 

Como você faz compostagem com minhocas?  

A compostagem com minhocas, chamada vermicompostagem ou minhocultura, produz um adubador de solo ainda mais valioso. Os vermes digerem restos e excretam carcaças ricas em nutrientes para as plantas. Os pesquisadores também estão descobrindo que os microrganismos vivos encontrados especialmente no vermicomposto podem ajudar a proteger as plantações de doenças comuns e reduzir a necessidade de herbicidas e pesticidas. 

No entanto, embora as minhocas às vezes sejam encontradas naturalmente no fundo de uma pilha de compostagem, elas não devem ser adicionadas a uma grande e quente caixa de compostagem de quintal. 

As minhocas não têm pulmões e, em vez disso, respiram pela pele, que precisa permanecer úmida para evitar que sequem e morram. Embora uma caixa de compostagem deva ser úmida, normalmente não é úmida o suficiente para que as minhocas sobrevivam. 

Em vez disso, diz Sherman, os vermes devem ser colocados em caixas menores, com menos de 60 centímetros de altura. Por prosperarem em espaços menores, as minhocas podem ser facilmente contidas em uma lixeira fechada sob a pia da cozinha ou na varanda de um apartamento, tornando a vermicompostagem uma opção potencial para pessoas sem quintais.

O que fazer com embalagens  biodegradáveis/compostáveis?

Produtos rotulados como 'compostáveis' ou 'biodegradáveis', como material de embalagem ou utensílios, estão se tornando mais populares, mas devem ser processados ​​em uma instalação de compostagem industrial. 

Ian Jacobson, presidente da Eco-Products, fabricante de produtos compostáveis, diz que sua empresa vendeu 200 produtos em 2010, mas agora oferece mais de 450. Os recipientes com rótulos compostáveis ​​podem ser desde papel e bagaço de cana-de-açúcar até bioplástico, que é plástico feito de plantas como milho. Alguns, mas não todos, são certificados pelo Instituto de Produtos Biodegradáveis (BPI), o maior certificador de compostáveis, que testa produtos compostáveis ​​para garantir que possam ser processados ​​em instalações comerciais. 

Os recipientes de comida para viagem geralmente são feitos de papel compostável. Mas se “você simplesmente jogar o recipiente em sua caixa de compostagem, ele vai ficar ali”, diz Sherman. Triturar o recipiente em pedaços pequenos, não maiores que cinco centímetros, dará aos micróbios uma chance melhor de quebrá-lo. 

Mesmo assim, ele pode não se decompor facilmente. Embora uma pilha de compostagem de quintal bem gerenciada possa atingir altas temperaturas, as temperaturas mais altas em uma instalação industrial decompõem o material de forma mais eficaz. Sherman também aponta que produtos de papel compostável, como jornal ou toalhas de papel, podem ficar “moles” e compactados em uma pilha de compostagem, evitando a aeração.

Embalagens de alimentos feitas de bioplásticos não são compostáveis ​​em uma lixeira doméstica porque geralmente possuem fortes ligações de polímeros que só podem ser quebradas em uma instalação industrial. No entanto, nem todos os bioplásticos podem ser processados ​​por composteiras comerciais, porque alguns contêm aditivos químicos tóxicos para impermeabilizá-los ou dar-lhes resistência.

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Como a compostagem ajuda o meio ambiente? 

Em 2019, o Brasil recolheu 79 milhões de toneladas de lixo, cerca de 343 kg por pessoa. Desse total, 40% não teve destinação adequada – foram parar em lixões ou aterros não sanitários, por exemplo.

Quando feita em grande escala, a compostagem pode reduzir as emissões. A cidade de São Francisco, nos EUA, que estabeleceu compostagem obrigatória em toda a cidade em 2009, conseguiu desviar 80% de seus resíduos de aterros sanitários todos os anos, mais de 2,5 milhões de toneladas no total.

Uma estimativa do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais constata que as leis de compostagem de São Francisco reduziram o equivalente a 90 mil toneladas de dióxido de carbono por ano, o mesmo número de emissões de cerca de 20 mil veículos de passageiros .

Além de reduzir as emissões de aterros, o composto torna o solo mais saudável. Quando colocado em cima do solo em um jardim ou em uma fazenda, a matéria orgânica encontrada no composto melhora o solo insalubre. Também ajuda a unir as partículas do solo e retém mais água. Um solo melhor ajuda a apoiar o crescimento das plantas, o que pode ajudar a sequestrar o carbono da atmosfera. O solo mais forte e rico em nutrientes também reduz a necessidade de fertilizantes e pesticidas, que são poluentes e muitas vezes são produzidos com práticas de mineração destrutivas e uma alta pegada de carbono. 

Na verdade, a única desvantagem da compostagem pode ser o “fator nojento”. Nesse ponto, Sherman diz para não se preocupar. 

“Não é fedorento, não é nojento. E uma vez por semana eu vou para a composteira do meu quintal. Levo três minutos para compostar. Eu realmente tento encorajar as pessoas. Eu tento dizer às pessoas como é tão fácil fazer.”

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