Projeto de pesquisa de 40 anos guarda a história recente da Amazônia

Desde que foi idealizado pelo falecido biólogo Thomas Lovejoy, o PDBFF viu a Amazônia perder 20% de sua área. Mas pesquisadores seguem monitorando a biodiversidade nas reservas protegidas.
Uma das 69 parcelas Floresta Amazônica monitoradas desde a década de 1970 por pesquisadores do PDBFF.
Por Paulina Chamorro
fotografias de André Dib
Publicado 5 de jul. de 2022 13:28 BRT, Atualizado 8 de jul. de 2022 17:53 BRT

Rio Preto da Eva, Manaus e Iranduba, Amazonas | Acariquara, carapanauba, escorrega-macaco, cedro, louro, castanha-de-macaco. Por entre trilhas de mata fechada, o coordenador de campo João Batista recitava o nome popular de algumas árvores pelas quais passamos em uma parcela de Floresta Amazônica.

Esse trecho de floresta é o caminho para chegar no emblemático acampamento Km 41, localizado ao norte de Manaus. Por cerca de 40 anos, esse espaço foi o preferido do ambientalista, biólogo, escritor e explorador da National Geographic Thomas Lovejoy, considerado o ‘padrinho’ da biodiversidade, morto no fim de 2021.

Ali funciona uma das bases de um dos mais antigos programas de estudo em conservação natural no mundo, o Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), idealizado por Lovejoy no final dos anos 1970, a fim de estudar, entre outras coisas, como a fragmentação das florestas afeta sua diversidade biológica. O projeto é uma cooperação científica entre o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), do Brasil, e o Instituto Smithsonian, dos Estados Unidos.

A reportagem acompanhou os pesquisadores do projeto em maio deste ano, em uma viagem que contou com apoio do Amazon Rainforest Journalim Fund, do Pulitzer Center. Foi a primeira parada de um projeto para documentar a volta dos cientistas às pesquisas de campo depois do hiato provocado pela pandemia de Covid-19.

O modesto, porém lendário, acampamento Km 41 era um dos lugares preferidos de Thomas Lovejoy, o padrinho da biodiversidade. 

Foto de André Dib

Vista aérea do acampamento incrustado no meio da Floresta Amazônica.

Foto de André Dib

“O primeiro contato que [Lovejoy] teve foi um campo que ele fez na região de Belém, final dos anos 1960”, conta José Luiz Camargo, secretário-executivo do PDBFF e professor de pós-graduação em ecologia na botânica no Inpa, que começou no início do programa, como estagiário, quando o Instituto era um celeiro de jovens e promissores cientistas.

Pouco antes, os biólogos Robert MacArthur e Edward Wilson – outro gigante da biologia, morto um dia depois de Lovejoy –, publicaram a teoria da biogeografia das ilhas, uma ideia revolucionária que propunha que a diversidade de espécies em um local é resultado apenas do equilíbrio entre migrações e extinções. Na prática, ilhas maiores e menos isoladas possuem mais diversidade, enquanto ilhas menores e mais isoladas, menos.

À esquerda: No alto:

O professor José Luís Camargo começou como estagiário no início do PDBFF e hoje é coordenador científico do projeto no Inpa.
 

À direita: Acima:

João Batista começou a trabalhar no PDBFF como mateiro há 17 anos e por sete conviveu com Lovejoy, a quem ainda chama, carinhosamente, de Lovinho. Hoje ele coordena as atividades de campo nos acampamentos Km 37 e Km 41.

fotografias de André Dib

Com o PDBFF, Lovejoy e os pesquisadores do programa tentavam aplicar a ideia de ilhas aos fragmentos de floresta preservados na Amazônia, observando e comparando como trechos de florestas – delimitados por GPS e chamados pelos cientistas de parcelas – sofrem com os impactos que acontecem nas vizinhanças, como desmatamento e mudanças climáticas.

“Nessa época, tinha uma discussão muito forte na literatura sobre a questão de conservação: o que era melhor você manter, uma grande reserva ou manter várias reservas pequenas”, conta Camargo. “A discussão era baseada na teoria da biogeografia das ilhas.”

Uma pergunta feita desde o começo do projeto era qual o tamanho mínimo que uma reserva precisaria ter para conservar certos grupos biológicos.

Já no final dos anos 1970, Lovejoy começou a perceber o avanço do desmatamento. No entanto, conseguiu convencer fazendeiros e governos a manterem pequenas parcelas de floresta intactas, a fim de acompanhar os efeitos antrópicos na Amazônia. Era a oportunidade de ter um marco zero, com medições antes da floresta ser completamente destruída.

“Depois veio o processo de fragmentação, com abertura das fazendas”, explica José Luiz Camargo. “Nós planejamos as reservas que iam ficar fragmentadas, as marcamos no meio do contínuo florestal. Fizemos as medições, monitoramento, marcamos muita coisa. E aí veio o desmatamento e deixou aquelas reservas que estavam marcadas. Na verdade, é um experimento no nível de paisagem.” Hoje, a área de estudo é formada por uma rede de 69 parcelas permanentes.

Ao todo, o projeto já formou centenas de pesquisadores e resultou em mais de 700 artigos em revistas científicas. “Temos o maior banco de dados para árvores, a longo prazo, na Amazônia”, diz Ana de Andrade, gerente da coleção botânica do projeto e coordenadora das atividades de campo para monitoramento de árvores. Segundo ela, a primeira planilha de campo do PDBFF tem a data de outubro de 1979.

Depois de dois anos parada por conta da pandemia, Ana voltava à parcela do acampamento Km 37 para dar continuidade a um censo que teve início em 2004.

O projeto de monitoramento de árvores às vezes exige escaladas para coleta de folhas.

Foto de André Dib
À esquerda: No alto:

Apesar de liderado por professores doutores, o trabalho de campo muitas vezes é tocado pelos cientistas mais jovens. Aqui, a bióloga Maria Thamiris de Sousa Macedo.

À direita: Acima:

O biólogo Renan Parmigiani.

fotografias de André Dib
À esquerda: No alto:

A bióloga Jennifer Prestes Auler.

À direita: Acima:

As árvores têm suas medidas tiradas.

fotografias de André Dib

Lovejoy, ou Lovinho

João Batista começou a trabalhar no PDBFF há 17 anos, e por sete conviveu com Lovejoy, a quem ainda chama, carinhosamente, de Lovinho, o acompanhando em várias saídas de campo. “Thomas vinha, há muitos anos, todo final de dezembro, trazendo pessoas para conhecer este trecho do acampamento”, conta Batista.

A rotina de Lovejoy no acampamento Km 41, segundo Batista, era sempre a mesma. “Saíamos às 7h e voltávamos sempre ao meio-dia”, lembra. “E voltava novamente para a floresta à tarde.”

Essa experiência no campo com Lovejoy despertou o amor e um dom inato de Batista para a identificação de espécies. Hoje, ele coordena as equipes de campo nos acampamentos Km 37 e Km 41.

O acampamento Km 41 tem uma estrutura de laboratório, uma área de alimentação para os pesquisadores e duas áreas dormitório, com espaço suficiente para abrigar, pelo menos, 20 pessoas dormindo em rede.

Quando chegamos, estava vazio. A única equipe que o ocupava estava em campo, em coleta de material. E a dinâmica costuma ser esta: campo, sempre coletando informações e materiais que possam revelar o que acontece com a floresta.

O pesquisador, ornitólogo e curador da coleção de aves do Inpa Mario Cohn-Haft, outro antigo amigo de Lovejoy, também relembra com carinho os primeiros anos do projeto. Ele falou à reportagem durante um fim de tarde, enquanto esperava as últimas andorinhas-azuis chegarem em uma nova área de dormitório, no Rio Negro.

“Aquela época foi muito mais que árvores e aves. Havia um grupo grande estudando herpetofauna. Tinha gente com insetos, tanto formiga quanto aranha e borboletas. Eram várias equipes para era entender o efeito da fragmentação em toda biota, toda a fauna e flora”, conta Cohn-Haft, enquanto observava as aves passarem pouco antes do Sol se pôr. “A pesquisa era liderada por doutores, mas era tocada mesmo por estagiários como eu ou o José Luiz. A maioria já formada em biologia e [estava] esperando decidir sobre a próxima etapa, o próximo passo. Era um clima fantástico de aprendizado, de ânimo, de vontade de lutar pela conservação e de otimismo, porque ainda tinha muita Amazônia, tinha muito potencial de fazer a diferença.”

À esquerda: No alto:

O biólogo Francisco Javier Farronay organiza as folhas coletadas em campo antes de levá-las para um estufa – um trabalho que exige muitas mãos.

À direita: Acima:

A professora Ana de Andrade analisa as folhas coletadas em campo no laboratório do acampamento Km 37. O projeto de monitoramento de árvores, liderado por Andrade, está em seu segundo censo e já registrou 160 mil plantas e 2,5 mil espécies de árvores e arvoredos.

fotografias de André Dib

Pequeno verão

O ânimo que encontramos em quem está no PDBFF desde o início era o mesmo que vimos na equipe de campo do acampamento Km 37. Eram os últimos dias do censo de árvores liderado por Ana Andrade, e os pesquisadores estavam divididos em dois grupos. Um fazia as medições de troncos e folhas, e deixava marcações nas árvores onde seriam feitas coletas de galhos e folhas. O segundo passava coletando.

Os biólogos e bolsistas do PDBFF Jennifer Prestes Auler, Maria Tamiris de Souza Macedo, Francisco Javier Farronay e Renan Parmigiani se revezam nas funções e entre os grupos em campo, que eram organizados por João Batista. 

No fim do dia, todo o material apanhado era organizado, catalogado e colocado na estufa. Neste momento, as conversas giravam em torno dos nomes científicos das espécies coletadas e separadas.

A época da visita da reportagem coincidiu com um ‘veranico’, uma época de muita chuva. Mas não choveu. A rotina era acordar às 5h30, com manhãs quentes, sair para acompanhar os pesquisadores em campo, retornar ao acampamento para almoçar, e voltar a campo.

Por dentro, a floresta está fresca, mas os caminhos são sinalizados com apenas algumas marcações em árvores. Por vezes, mal dá para ver as trilhas marcadas no chão. Impera o som do mato – vento nas copas, aves, macacos.

Em uma das saídas, em um terreno mais inclinado, Francisco Farronay, peruano conhecido como Pancho, me explica que estamos em uma área difícil de fazer coleta. “As raízes ficam mais inclinadas e caem mais árvores no solo, portanto abre mais espaço para os cipós”, explica.

Somente neste detalhe sobre topografia, já percebemos a importância de ter um estudo com tanto tempo dedicado a entender a dinâmica da Amazônia. A parcela de 25 hectares está passando por seu segundo censo, e os números resumem bem a ambição do projeto de monitoramento: 160 mil plantas e 2,5 mil espécies de árvores e arvoredos já foram mapeadas até agora.

Esse acervo natural serviu e servirá como fonte de estudos para gerações de pesquisadores, que encontrarão novas espécies, descobrirão novas interações e testarão novos métodos de pesquisas.

O ornitólogo do Inpa Mario Cohn-Haft observa as andorinhas-azuis, objetos de sua pesquisa, chegarem em uma nova área de dormitório, no Rio Negro, ao sul de Manaus. "É lindo saber que nós estamos cercados por tantos tipos de seres vivos", diz Cohn-Haft. "Cada espécie vive de uma forma diferente e representa um conjunto único de soluções para o problema da sobrevivência."

Foto de André Dib

Futuro da vida

Vendo esses jovens pesquisadores coletando galhos, medindo minunciosamente troncos, separando e secando folhas para a estufa, ouvindo música no fim de tarde e saboreando um café quentinho, não pude deixar de lembrar das palavras de Thomas Lovejoy e como ele perpassa pelo pensamento de todos que amam a natureza e o conhecimento. “É a ciência que deve espalhar o entendimento de que a escolha não é entre a natureza selvagem ou pessoas, mas sim uma existência rica ou pobre para a humanidade”, disse, uma vez, Lovejoy.

Com os novos dados e recordes de desmatamento no Brasil, estar próximo de quem está em campo, mantendo um projeto de pesquisa tão importante, é olhar não apenas para o futuro, mas também para a importância da continuidade das pesquisas científicas.

E por que se importar com a natureza ou de documentar a biodiversidade, apesar de tudo o que está acontecendo?, perguntou-se naquele fim de tarde Cohn-Haft.

“Porque é lindo saber que nós estamos cercados por tantos tipos de seres vivos. Todos os indivíduos de uma espécie têm uma maneira de viver, que é compartilhada entre os membros daquela espécie. Por mais sutil que possa parecer, cada espécie vive de uma forma diferente e representa um conjunto único de soluções para o problema da sobrevivência”, diz Cohn-Haft. “Então, não nos inspirar, não nos espelhar ou não aprender com a natureza é, além de uma burrice, impossível. Quase tudo que a gente já inventou foi inspirado pela natureza. Observar uma ave voar inspira a forma da asa do avião. Ver baleia e boto inspiraram a criação do nosso sonar.”

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