Amazônia

Amazônia é megabiodiversa. O quanto? Ninguém sabe

Maior bioma brasileiro é também um dos mais diversos do planeta, mas pesquisa esbarra em uma infinidade de entraves para precisar o quanto. Por causa do vácuo informacional, espécies desaparecem antes mesmo de serem catalogadas.

A Amazônia é superlativa. Com mais de 5,5 milhões de km² apenas na porção brasileira – o que equivale a cerca de 60% do território nacional –, a floresta suscita a ideia de um lugar mítico povoado por uma infinitude de espécies animais e vegetais. Não à toa, é comum associar a região ao título de megabiodiversa. No entanto, à medida que desmatamento, queimadas e mineração, entre outras atividades, põem em risco o maior bioma brasileiro, ainda estamos longe de entender de fato o quão biodiversa é a Amazônia e desvendar o mistério de todos os seus habitantes.

Mapa da área do bioma Amazônia
A Amazônia é o maior bioma brasileiro, ocupando cerca de 60% do território nacional. No entanto, quase 20% de sua vegetação original já foi suprimida.

Para se ter uma ideia, em 2017, o WWF Brasil e o Instituto Mamirauá calcularam que uma nova espécie de animal ou vegetal havia sido descoberta na Amazônia a cada dois dias entre 2013 e 2015 – ao todo, 381, incluídos 93 peixes e 18 mamíferos. Em 2019, por sua vez, pesquisadores do Mamirauá encontraram um novo macaco do gênero Leontocebus, um sagui, que ainda nem sequer foi batizado.

“Nós ainda temos tanto para saber, tantas perguntas para fazer, vivemos nessa busca”, diz Lúcia Rapp Py-Daniel, coordenadora de biodiversidade do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). “Sempre que vamos a um lugar estudar um bicho já conhecido, acaba que descobrimos coisas novas.”

Quando se fala em números de espécies que podem ser encontradas na Amazônia, alguns valores aparecem de forma recorrente. Teriam sido descritos por ali ao redor de 1,3 mil aves, 3 mil peixes, um pouco mais de 400 mamíferos, um pouco menos de 400 répteis, cerca de 400 anfíbios, mais de mil invertebrados e ao redor de 40 mil vegetais. Esses valores, no entanto, estão longe de ser precisos. Para entender o porquê, vale começar pelas plantas.

Onça-pintada

Nome científico: Panthera onca

Tamanho: 1,7 a 2,4 m (sem a cauda)

Peso: 35 a 130 kg


Risco de extinção (Ibama):

Vulnerável

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Curiosidade:

Maior felino das Américas, a onça-pintada exibe comportamentos diferentes em cada bioma. Em épocas de cheia na Amazônia, por exemplo, ela passa boa parte do tempo nas copas das árvores.

De acordo com estimativas feitas a partir de projeções de espécies encontradas em determinadas áreas, a Amazônia teria algo em torno de 16 mil espécies de árvores. Isso excluiria, por exemplo, cipós e samambaias. Dessas, cerca de 12 mil já teriam sido descritas. (Para efeito de comparação, o Reino Unido tem 60 espécies de árvores). No entanto, uma revisão taxonômica publicada em 2017 reduziu o número para menos de 7 mil por conta de entradas duplicadas, registro de espécies que na verdade não ocorrem na Amazônia ou são exóticas, entre outros motivos. Apesar de levantar a ideia de que o bioma não é tão diverso, as conclusões são outras: ainda há muito a ser estudado e faltam profissionais capacitados para fazê-lo.

“Todo mundo fala que a Amazônia é superbiodiversa, mas, na verdade, se olharmos os dados disponíveis para a flora, eles não mostram isso”, diz Mike Hopkins, curador do herbário do Inpa. “Na minha opinião, o problema é dos dados, não do bioma”, afirma.

Taxonomia em falta

Hopkins chama atenção para o fato de o repositório Flora do Brasil, organizado pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, trazer mais entradas para plantas conhecidas em Minas Gerais do que nos estados do Amazonas ou do Pará, por exemplo – algo que não corresponde à realidade encontrada em campo. Para o pesquisador, o número de espécies de árvores na região é de no mínimo 25 mil, e pode chegar a 50 mil.

“Metade da Amazônia nunca foi visitada por um botânico e nós temos uma riqueza gigantesca em cada hectare”, explica. A média de coleta de espécimes vegetais por km² na floresta é de 0,1. Em outras palavras, a cada 10 km², apenas um único vegetal foi estudado – ou melhor, foi levado até uma instituição de pesquisa. Isso porque os taxônomos, cientistas que se dedicam a identificar e categorizar seres vivos, estão em falta. “Não é uma área sexy da ciência”, acredita o curador.

Para piorar o cenário, as pesquisas são concentradas em locais de fácil acesso. No caso das plantas, o pesquisador do Inpa estima que a média de coleta sobe para 10 espécimes por km² nos arredores de Manaus.

“Tudo que você pensar em coleta nos últimos 300 anos foi feito ao redor dos grandes rios”, afirma Ivan Junqueira, zoólogo e pesquisador do Instituto Mamirauá, organização social fomentada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Especializado em mamíferos, Junqueira reforça a opinião de Mike Hopkins sobre a falta de taxônomos em campo na região.

Pirarucu

Nome científico: Arapaima gigas

Tamanho: 2 a 3 m

Peso: 100 a 200 kg


Risco de extinção (IUCN):

Dados Deficientes

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Curiosidade:

O pirarucu tem um sistema respiratório duplo que o permite captar oxigênio na água, com as brânquias, e no ar, com a bexiga natatória, que funciona como um pulmão e é útil em épocas com rios baixos.

Na avaliação dele, um taxônomo sênior leva cerca de 30 anos para ser formado. Além do baixo interesse na carreira entre pesquisadores iniciantes, há falta de investimento crônica para pesquisas na área. Soma-se a isso um alto grau de especialização que faz com que, em alguns casos, cientistas trabalhem com espécies de um único gênero. “Nós temos pouquíssimos profissionais dentro da Amazônia para trabalhar a maior biodiversidade do mundo”, diz Junqueira.

Ecossistemas diversificados

Esse cenário é ainda mais complexo por causa da diversidade de ecossistemas da Amazônia. Por mais que, de fora, exista a impressão de que a floresta é uniforme, ela na verdade é composta por diversas paisagens. Há regiões campestres, semelhantes às savanas e ao Cerrado, há trechos de mata que se enchem de água na época da cheia, restingas, igapós, mangues e floresta de terra firme distantes dos rios.

Os rios, por sua vez, também não são uniformes. Há três sistemas, os rios de água branca, como o Amazonas, que possuem muitos sedimentos e são os mais ricos em peixes; os de água clara, transparentes e com níveis intermediários de biodiversidade; e os de águas preta, como o Rio Negro, menos biodiversos.

Essa miríade de sistemas resulta em pequenos ecossistemas específicos, cada qual com uma população única de fauna e flora – em alguns casos, endêmicos dessas microrregiões. Para primatas, por exemplo, Ivan Junqueira diz que, em cada interflúvio – região entre dois rios – da Amazônia há, pelo menos, uma espécie endêmica.

“Países que têm sua fauna e flora bem documentadas podem se dar ao luxo de conhecer melhor o comportamento das espécies. Não é nosso caso”

Lúcia Py-Daniel, coordenadora de biodiversidade do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia

“É complexo trabalhar no bioma amazônico porque é semelhante à ideia de um fractal”, explica ele. “Por mais que você aumente a imagem, dê zoom numa região específica, você diminui a área investigada, a escala de trabalho, mas não diminui em hipótese alguma a complexidade.”

O zoólogo não se refere apenas a espécies novas. Mesmo entre animais catalogados, é baixo o grau de conhecimento. No caso da famosa onça-pintada, maior felino das Américas, Junqueira explica que ainda não se sabe o básico sobre sua biologia populacional: rotas de migração, se a população é uma só ou várias espalhadas pela Amazônia e se há fluxo genético com outras onças. “Países que têm sua fauna e flora bem documentas podem se dar ao luxo de conhecer melhor o comportamento das espécies. Não é nosso caso”, concorda Lúcia Py-Daniel, do Inpa.

Espécie em investigação

Além de promover a conservação, estudar melhor espécies catalogadas também pode revelar outras. Foi o que aconteceu com a piraíba, um gigantesco bagre que pode chegar a 2,5 metros de comprimento e pesar até 300 kg. Pescadores mais fantasiosos afirmam que ela é capaz de engolir um homem inteiro.

Conhecida pela ciência desde o início do século 19 como Brachyplatystoma filamentosum, a piraíba sempre foi vista como uma única espécie. No entanto, pescadores locais da Amazônia afirmavam que existiam a piraíba branca e a piraíba preta. Dado o tamanho do bicho, não havia espécimes disponíveis para estudo em coleções zoológicas, então um grupo de pesquisadores começou a visitar frigoríficos para estudar peixes capturados.

Seringueira ou árvore-da-borracha

Nome científico: Hevea brasiliensis

Altura: 30 m

Dito e feito: diferenças morfológicas sutis e exames genéticos comprovaram que havia dois tipos de piraíba, e em 2005 a descrição da Brachyplatystoma capapretum foi publicada. Em 2019, algo semelhante aconteceu com o poraquê, um peixe elétrico também de grande porte, com exemplares que superam 2 metros de comprimento.

O poraquê foi descrito pela primeira vez em 1776 pelo sueco Carl Lineu, criador da nomenclatura científica binomial e considerado pai da taxonomia moderna. Alguns anos atrás, no entanto, uma dissertação de mestrado se debruçou sobre a espécie e notou que havia diferenças marcantes entre alguns indivíduos. De novo, um peixe conhecido havia séculos se revelou vários: existem três espécies diferentes de poraquês na Amazônia.

“Até a potência do choque dele estava subestimada. Nós tínhamos como dado 600 volts, hoje vimos que uma espécie ultrapassa 800 volts”, diz Luciano Montag, pesquisador do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Pará (UFPA), e um dos autores do artigo no qual estão descritas as novas espécies de poraquê.

No que tange aos peixes como um todo, Montag chama atenção para o fato de a Amazônia ser um ponto crucial de ocorrência de espécies: 15% da diversidade mundial para animais de água doce está no bioma. “Nós descrevemos cerca de 100 novas espécies por ano. Estamos acostumados a ver peixes grandes, mas se você vai olhar peixes de riachos, principalmente os pequenos, há uma riqueza desconhecida”, afirma ele.

Parauacu de Vanzolini

Nome científico: Pithecia vanzolinii

Tamanho: 325 a 500 mm

Peso: 2,1 a 2,9 kg


Risco de extinção (Ibama):

Pouco preocupante

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Curiosidade:

Batizado em homenagem ao sambista e zoólogo paulista Paulo Vanzolini, ele foi avistado por pesquisadores em 2017, 80 anos depois da último registro científico.

Riqueza em perigo

O avanço de hidrelétricas no bioma amazônico é o principal risco às espécies de peixes da região, principalmente em rios de corredeiras, propícios à instalação de usinas. Como que por ironia, é justo quando ocorrem empreendimentos do tipo que há dinheiro disponível para fazer pesquisas de inventário de fauna e flora. “Quando tem edital para fazer inventários é para áreas que vão ser detonadas, onde vão ser construídas hidrelétricas ou rodovias, não tem um sistema de trabalho antes de a desgraça ocorrer”, nota Lúcia Py-Daniel. “Nós vamos conhecer para dizer ‘acabou, tá gente’.”

Nesse caso, pelo menos os animais e plantas seriam conhecidos. Com o aumento da pressão humana para agropecuária e mineração em áreas preservadas da Amazônia, entre outras atividades, o risco é que espécies sequer conhecidas e muito menos estudadas desapareçam para sempre do planeta. O exemplo mais recente de como isso pode ocorrer foram as queimadas de agosto de 2019, quando a fumaça resultante do fogo na região deixou a cidade de São Paulo escura durante o dia. Naquele mês, foram quase 31 mil focos de incêndio, o maior número desde 2010. Em outubro, é importante destacar, o número de focos foi o menor para o período desde 1998, com 7.855 registros.

“Quando pega fogo na floresta virgem, preservada, 50% das árvores de cada hectare morrem”, diz Erika Berenguer, pesquisadora da Universidade de Oxford que estuda o impacto de queimadas na biodiversidade. “Quando falamos da Amazônia, que é hiperdiversa, isso é ainda mais preocupante, porque há muitas espécies ocorrendo em baixos números. Se perdermos indivíduos de uma espécie com distribuição bem restrita, a área queimada pode levar a uma extinção local”, explica ela.

Amazônia,
ar-condicionado
das Américas

Limite original
da Amazônia

Parte da humidade que chega à Amazônia em forma de chuva volta para a atmosfera e, através de correntes de ar, leva a água a outras regiões do continente. Estima-se que esses rios voadores transportem cerca de 20 bilhões de toneladas de água por dia, 3 bi a mais que o volume do rio Amazonas.

Na região, o fogo é ainda mais problemático já que a Amazônia não é um bioma onde ele ocorre naturalmente, ao contrário do Cerrado, da Savana africana ou das florestas da Califórnia, nos EUA. “A Amazônia não evoluiu com o fogo, é uma floresta muito úmida, por isso a biodiversidade não está adaptada a lidar com isso, o que causa uma alta taxa de mortalidade”, afirma Berenguer.

Equilíbrio em risco

É importante contextualizar essa discussão para entender que perder espécies animais e vegetais da Amazônia não se trata apenas de ver um número diminuir ou a exuberância da floresta reduzir. A biodiversidade do bioma é essencial para manter em equilíbrio todo o ecossistema que influencia na habitabilidade do restante do mundo. Por mais que seja um exagero dizer que a Amazônia é o pulmão da Terra, pode-se afirmar que ela é uma espécie de ar-condicionado do planeta. Como maior área de floresta tropical contínua do mundo e único local na faixa de latitude que não é um deserto, a região é responsável pelo equilíbrio de chuvas de todas as Américas – inclusive das que garantem a fertilidade agrícola no Centro-Oeste e Sudeste brasileiros.

“Além disso, a gente desconhece o potencial dessa biodiversidade, de que forma ela poderia ser empregada”, afirma Nurit Bensusan, coordenadora de biodiversidade do Instituto Socioambiental (ISA). Bensusan lembra que o captopril, fármaco para hipertensão mais vendido no mundo, é produzido a partir do veneno de uma espécie de cobra jararaca encontrada no Brasil.

Aplicações semelhantes poderiam ser encontradas para substâncias produzidas por outras plantas ou animais, assim como seria possível inspirar-se em mecanismos biológicos para o desenvolvimento de produtos. Ela cita as recém-descobertas espécies de poraquês com capacidade de descargas elétricas de maior voltagem como passíveis de serem mimetizados em baterias de implantes médicos, por exemplo.

Boto-cor-de-rosa

Nome científico: Inia geoffrensis

Tamanho: 2,5 m

Peso: 200 kg


Risco de extinção (IUCN):

Em perigo

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Curiosidade:

Maior espécie entre as três de golfinhos fluviais que habitam a Amazônia, é muito caçada para ser usada como isca na pesca de peixes de valor comercial como a piratinga.

“Imagine a quantidade de medicamentos, produtos e inovações biotecnológicas que poderiam sair se a gente se dignasse a pesquisá-la de forma mais sistemática. Há uma riqueza praticamente infinita”, diz Bensusan. A Amazônia é um mundo. E um mundo que ainda não entendemos muito bem. Por enquanto, resta esperar que o futuro permita a realização do desejo de conhecer a biodiversidade amazônica. E olha que nem falamos dos insetos.

“Aí é uma coisa absurda”, destaca Lúcia Py-Daniel, do Inpa. “Cada copa de árvore tem uma comunidade gigantesca. Se você faz a coleta em um dossel, volta com uma quantidade absurda de bichos, que ficam concentradas em um único depósito esperando a vinda de diversos especialistas, porque há espécimes de ordens muito diferentes.”