Cerrado

Savana com flora mais biodiversa do mundo, Cerrado perde área para agropecuária

Presente em todas as regiões e ocupando um quarto do país, bioma recebe menos atenção que ecossistemas amazônicos e Mata Atlântica. Pelo menos 50% da vegetação original já não existe.

Alguns anos atrás, Nurit Bensusan, coordenadora de biodiversidade do Instituto Socioambiental (ISA), deparou-se com uma manchete curiosa em uma revista de bordo durante um voo. O título prometia o segredo para aumentar a produção agrícola sem derrubar nenhuma árvore. Ao ler a reportagem, veio a decepção: as árvores eram só as da Amazônia. O segredo? Expandir a lavoura no Cerrado.

Mapa do bioma Cerrado
O Cerrado é o único bioma presente em todas as regiões do país. Mas desde 1970 é, também, o mais ameaçado, tendo perdido cerca de 50% de sua vegetação original graças, principalmente, à expanção da fronteira agropecuária.

“Eu digo que o Cerrado é o bioma mais azarado do planeta. Pense: é super rico, a savana com a maior biodiversidade arbórea do mundo, contém uma série de espécies endêmicas, mas está no mesmo país que a Mata Atlântica – o bioma mais ameaçado do mundo – e a Amazônia – a floresta tropical mais exuberante”, conta Bensusan. “Se o Cerrado estivesse em qualquer outro país, seria megavalorizado.”

O Cerrado ocupa cerca de 24% do território nacional – quase um quarto do país – e é o único presente em todas as cinco regiões. Há no bioma uma grande variedade de ambientes e paisagens – são 11 fitofisionomias, ou seja, aspectos diferentes de vegetação. “A flora está assentada em diferentes níveis de altitude e diferentes tipos de solo, o que promove uma grande especiação entre grupos de plantas”, diz Marcos José da Silva, professor do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Goiás (UFG). Silva estuda a flora de áreas de preservação no Cerrado há dez anos, com foco especial em regiões de elevada altitude com relevo acidentado, lugares de difícil acesso. Nesses locais, explica o professor, há uma predominância de herbáceas, com uma alta taxa de endemismo. “Embora o bioma como um todo seja muito devastado, nessas áreas nós temos manchas relictuais, uma vegetação secular idêntica à do ano 1500”, conta. “Isso faz com que existam muitas espécies ainda desconhecidas”. Nos últimos oito anos, Silva orientou dissertações de mestrado e teses de doutorado que resultaram na descrição de 30 novas espécies.

Tipos de vegetação

Formações Florestais

Formações Savânicas

Formações Campestres

Por ocupar 23% do território nacional e fazer divisa com quase todos os biomas, menos o Pampa, o Cerrado possui uma grande variedade de vegetações. Há pelo menos 25 tipos e subtipos de fitofisionomias. Aqui, apresentamos os 14 principais, divididos em três tipos de formações.

Folhas, frutos e sementes

Entre elas, algumas são do gênero Manihot, o mesmo da mandioca, porém sem as raízes comestíveis. “Por outro lado, elas podem ser pesquisadas para melhoramento vegetal, para transferir genes para mandiocas cultiváveis”, diz o professor. Outras são do gênero Chamaecrista, das folhas-moedas. Após passar por um processo de esqueletização, folhas-moedas podem ser utilizadas na fabricação de joias e adereços.

As novas espécies vegetais se juntam a um total de 12.898 conhecidas no Cerrado, de acordo com o projeto Flora do Brasil, das quais 40% são endêmicas. “Acredito que a maior ameaça ao bioma é o desconhecimento e a desvalorização pela população brasileira”, afirma o doutor em botânica Marcelo Kuhlmann. “É necessário criar laços com a flora que nos cerca e, para isso, as espécies do Cerrado precisam estar mais presentes no cotidiano, como frutos comestíveis, plantas medicinais ou paisagismo.”

Kuhlmann é autor do livro Frutos e Sementes do Cerrado: Espécies atrativas para a fauna, e criador do site Frutos Atrativos do Cerrado. Ao todo, são 4 mil variedades diferentes de frutos no bioma – alimento para aves, mamíferos, répteis e peixes da região.

Lobo-guará

Nome científico: Chrysocyon brachyurus

Tamanho: 0,95 a 1,15 m (sem cauda)

Peso: 20 a 30 kg


Risco de extinção (Ibama):

Vulnerável

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Curiosidade:

Maior canídeo da América do Sul, o lobo-guará é um animal solitário que se comunica com outros inivíduos através de um forte cheiro parecido com o de gambás.

Entre eles, mil podem ser consumidos por seres humanos, com potencial para uso econômico em curto, médio ou longo prazo, a depender da espécie. Ainda que Mata Atlântica e Amazônia também tenham um número alto de frutos locais, Kuhlmann explica que as características do Cerrado fazem com que seus frutos sejam mais disseminados entre os povos e culturas tradicionais do bioma. Enquanto nos dois primeiros a vegetação é composta em geral por árvores de grande porte, a savana brasileira traz copas ao alcance das mãos, como num pomar.

Um desses frutos, cita Kuhlmann, é o bacupari-do-cerrado (Salacia crassifolia), que possuem casca grossa, cor laranja-amarelada e polpa gelatinosa bastante saborosa. “A gente come da mesma forma que se come uma lichia, apenas mordendo e destacando a casca grossa e saboreando a polpa adocicada que envolve a semente grande”, observa ele. “Animais como o lobo-guará e a raposinha-do-campo também apreciam bastante esse fruto.”

Outro exemplo apontado pelo botânico é a pêra-do-cerrado (Eugenia klotzschiana), um arbusto da mesma família (Myrtaceae) e gênero da pitanga, mas com formato e tamanho bastante peculiar, como uma pêra. “A polpa é bastante suculenta e aromática, no entanto o seu sabor predominante é um pouco ácido, o que a torna mais interessante para o preparo de polpas para sucos, doces e receitas”, detalha ele.

Há ainda a pimenta-de-macaco (Xylopia aromatica), que vem ganhando destaque na alta gastronomia e atraindo chefs renomados. Esses frutos são ricos em óleos essenciais, bastante aromáticos e levemente picantes, podendo ser utilizados em diversas receitas como equivalente ou substituto à pimenta-do-reino. “Os frutos são do tipo deiscentes (que se abrem quando maduros) e bastante coloridos, sendo especialmente atrativos para aves”, comenta Kuhlmann.

Hoje, frutos como esses são explorados de forma extrativista e em alguns casos por pequenas cooperativas. Mas o investimento em atividades de educação sobre o potencial das espécies e interesse do público nelas ainda são baixos.

Cuíca-graciosa

Nome científico: Gracilinanus agilis

Tamanho: 20 a 25 cm (com cauda)

Peso: 15 a 30 g


Risco de extinção (Ibama):

Pouco preocupante

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Curiosidade:

Parentes dos gambás, esses pequenos marsupiais são arborícolas de hábitos noturnos que se alimentam de frutos, invertebrados e pequenos vertebrados

Da supercastanha ao pequi

Um exemplo de como a flora do Cerrado poderia ser aproveitada é o caso do baru, castanha que ganhou fama de superalimento. “Ele nem era muito coletado, e hoje gente que nunca coletou está coletando. O preço já está mais alto do que o da castanha-do-brasil e estamos vendendo quase toda a produção para os Estados Unidos”, conta o engenheiro florestal Aldicir Scariot, atualmente pesquisador visitante da Universidade de Wageningen, na Holanda.

Especializado em produtos não madeireiros, Scariot explica que o Cerrado é riquíssimo nesse sentido. “Podem ser folhas, palmitos, galhos, flores, frutos, látex, óleo – há muitos itens pouco utilizados”, diz o pesquisador, que só entendeu a importância econômica do pequi, fruto famoso da região, ao conhecer um atravessador da espécie no noroeste de Minas Gerais. O atravessador contou que se estabelecera em uma cidade estratégica e erguera uma pequena choupana em cada pequena encruzilhada de estradinhas de terra. Ali, um empregado dele comprava com dinheiro vivo a produção de pequi que era trazida desde crianças em busca de um troco para o picolé até idosos e famílias inteiras. Em um dia, chegou a movimentar 10 caminhões de pequi.

Mas não há qualquer dado oficial que dê conta dessa movimentação. Por conta disto, Scariot trabalha para mensurar a quantidade total de pequi disponível no Cerrado hoje, quantas plantas existem, quanto cada árvore produz e qual seu tamanho conforme as características locais do solo e o volume total de calorias disponíveis. Por enquanto, ele sequer arrisca um chute.

“O Cerrado é o bioma mais azarado do planeta. Pense: é super rico, a savana com a maior biodiversidade arbórea do mundo, contém uma série de espécies endêmicas, mas está no mesmo país que a Mata Atlântica e a Amazônia. Se o Cerrado estivesse em qualquer outro país, seria megavalorizado.”

Nurit Bensusan, coordenadora de biodiversidade do Instituto Socioambiental

“Não é uma informação valorizada, não se tem noção do tamanho disso. Na verdade, há a percepção de que o Cerrado está atrapalhando a economia”, lamenta. “Enquanto isso, não fazemos ideia do que estamos perdendo, nem da magnitude do que estamos perdendo.”

Terra sob ameaça

E estamos perdendo rápido. O número oficial dá conta de que 50% da vegetação original do bioma já não existe, mas há estimativas que chegam a 70%. Apenas 20% da área do Cerrado é preservada em grandes fragmentos e 8% é protegida em algum tipo de reserva. Tudo isso em tempo recorde: a maior parte foi desmatada a partir da década de 1970 com a expansão da fronteira agrícola.

“Apesar de termos demorado 500 anos para destruir a Mata Atlântica, acabamos com o Cerrado em 50”, diz Nurit Bensusan, do ISA. O resultado desse processo é que hoje o bioma é considerado um hotspot de biodiversidade, onde há pelo menos 1,5 mil espécies vegetais endêmicas distribuídas em menos de 30% de vegetação original.

Pequizeiro

Nome científico: Caryocar brasiliense

Altura: Até 12 m

Curiosidade:

Seu fruto, o pequi, é uma iguaria identificada com as culinárias mineira e goiana. Se não for ingerido da maneira correta, sua semente pode liberar doloridos espinhos de até 4 mm de espessura.

Jader Marinho, professor titular aposentado e pesquisador colaborador do Programa de Pós-Graduação em Zoologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UnB), explica que até esse período havia um entendimento equivocado de que as espécies da fauna encontradas no Cerrado eram comuns aos biomas circundantes. À medida que as pesquisas na área se intensificaram, ficou claro o tamanho do equívoco. Os números não são precisos, mas trabalha-se hoje com a ideia de que o Cerrado tenha 1,2 tipos de peixes, 180 répteis e 150 anfíbios. “A taxa de endemismo para lagartos é superior a 40%. Para serpentes, aproximadamente 32%”, diz Marinho. “Para o grupo específico das Anfisbena, as cobras-cegas ou cobras-de-duas-cabeças, a taxa de endemismo chega a mais de 60%. Das 33 espécies conhecidas, 20 são endêmicas do Cerrado.”

Para mamíferos, a quantidade de espécies únicas no bioma é menor, mas ainda assim os registros cresceram de maneira significativa na última década: 7% de endemismo nos anos 1960 e 1970 para 13% hoje em dia. “Se você tira os morcegos, esse valor salta para 20%”, diz o pesquisador da UnB. Animais de grande porte como anta, onça-pintada, tatu-canastra e os emblemáticos tamanduá-bandeira e lobo-guará não são estritamente endêmicos, porque também aparecem por outras áreas do Brasil.

Entre os carnívoros, o único endêmico seria a raposinha-do-campo, mas trabalhos recentes de revisão pressupõem que ela também possa ser encontrada na Caatinga. Ambos os biomas compartilham um volume significativo de espécies por serem grandes corredores ecológicos entre as florestas mais frondosas ao norte e no litoral.

Chuveirinho

Nome científico: Paepalanthus chiquitensis

Altura: 1 a 2,5 m

Curiosidade:

O inconfundível cacho circular de flores na ponta de hastes é a última fase da vida do chuveirinho – o indívuo morre depois desse espetacular evento de reprodução.

Adoráveis voadores

Em áreas assim, os morcegos predominam – por isso a exceção feita por Jader Marinho. “Os morcegos são de longe o maior número de espécies mamíferas nos biomas não-florestais”, explica Ludmilla Aguiar, também professora do Instituto de Ciências Biológicas da UnB. “No Cerrado, de 270 mamíferos, 118 são morcegos.”

A má-fama dos bichinhos e o preconceito que ainda sofrem, no entanto, transformam o estudo deles em uma atividade difícil. Além do desafio de capturar uma pequena espécie voadora no campo aberto de noite, falta financiamento. Por conta disso, animais como o simpático e endêmico morceguinho-do-cerrado tem desaparecido de alguns locais.

“O morceguinho-do-cerrado já foi registrado em pontos que desapareceram, viraram pasto”, comenta Aguiar. Quando não desaparecem, a modificação no bioma faz com que animais se mudem – o que também tem ocorrido com diversas aves do Cerrado.

João Pinho, professor da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) especializado em ornitologia, conta que uma pesquisa recente na região de Aripuanã, cidade na porção amazônica do Mato Grosso, registrou mais de 30 espécies de aves do Cerrado. “Há um trabalho de 1978 que não registrava nenhuma delas, era um bioma puramente amazônico”, nota Pinho. Entre as recém-chegadas estavam rolinhas, seriemas e emas, a maior ave brasileira. As emas, aliás, estão se espalhando junto das lavouras. Pinho ressalta que é comum ver o animal em plantações de soja, locais que não habitavam anteriormente. Esse é um reflexo das mudanças no bioma, cujas consequências são muito sérias.

Morceguinho-do-cerrado

Nome científico: Lonchophylla dekeyseri

Tamanho: 35 a 37 cm

Peso: 10 a 12 g


Risco de extinção (Ibama):

Em perigo

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Curiosidade:

O morceguinho-do-cerrado vive em cavernas e come pequenos insetos, néctar e frutos, sendo importante para a dispersão de sementes e polinização de espécies do Cerrado.

Ao contrário da Amazônia, o Cerrado é uma região que pega fogo naturalmente. Ele depende do fogo para controlar o extrato herbáceo rasteiro da vegetação, e é por isso que suas árvores possuem raízes profundas e cascas grossas para se protegerem do calor. Da mesma forma, a fitofisionomia fragmentada ajuda a fauna a encontrar refúgio próximo em paisagens de mato denso, menos propensas aos incêndios, nas redondezas.

Normalmente, o fogo ocorre em anos espaçados. Com casos recorrentes de incêndios criminosos e a destruição desses refúgios naturais para dar lugar a pastos ou lavouras, o Cerrado queima de maneira mais frequente e por mais tempo. E aí não há adaptação que salve a biodiversidade da região.

“Há um mal-uso do Cerrado onde o lucro é privatizado e o prejuízo é socializado”, diz Aldicir Scariot. “Não estou dizendo que explorar um hectare de Cerrado com pequi vai dar mais dinheiro que plantar soja ou gado. Mas quando você coloca na balança outros componentes socioambientais, a maneira como o bioma vem sendo explorado não compensa.”