Nova Zelândia

Esta foto revela uma experiência de quase-morte. E um eventual trauma

Depois de sobreviver a uma avalanche, o alpinista e fotógrafo Cory Richards registrou o momento. E agora? Quarta-feira, 2 Maio

Por Cory Richards

Esta reportagem está na edição de maio de 2018 da revista National Geographic Brasil, publicada pela ContentStuff.

Fiz esta foto uma hora depois de cavar uma saída para fora de uma avalanche que quase matou a mim e a dois amigos, quando descíamos a 13a montanha mais alta do mundo. Era 4 de fevereiro de 2011, e tínhamos acabado de completar a primeira subida de inverno do Gasherbrum II, no Paquistão. Desde então, esta imagem já saiu na capa da National Geographic, apareceu em cartazes e outdoors e viralizou na internet. Virou minha “marca” e me rendeu muitos trabalhos bem pagos. Mas, ao longo dos anos, a história que a foto sugere – a de um alpinista heroico que acaba de desafiar a morte – vem me incomodando profundamente.

Sempre tive dificuldade em pensar no alpinismo como algo heroico, embora entenda por que algumas pessoas o vejam assim. Fique no sopé de um pico do Himalaia e você logo entenderá que chegar ao topo vai exigir força, resistência, concentração e coragem excepcionais. Mas sempre pensei que um ato de heroísmo exigisse algum tipo de propósito maior do que apenas o de arriscar sua vida só para ver se chega ao topo. Claro que eu posso argumentar que o alpinismo apoia economias locais em muitos lugares, incluindo o Paquistão, e que escalar picos remotos aciona algo vital na psique humana. Mas não nos enganemos: boa parte se reduz a uma recreação cara e perigosa e uma certa dose de comodismo.

Minha ideia não era escalar o Gasherbrum II. Fui convidado por dois alpinistas veteranos, Simone Moro e Denis Urubko, para participar de sua expedição. Eu era um jovem alpinista que havia progredido nos picos da América do Norte e dos Alpes e, finalmente, chegara ao máximo da provação, o Himalaia.

Simone e Denis eram ícones no mundo do alpinismo porque haviam sido pioneiros de novas rotas em algumas das montanhas mais altas e perigosas do mundo. É difícil descrever o quão empolgado eu estava quando me convidaram para uma subida de inverno no Gasherbrum II. Os alpinistas escolhem seus parceiros de escalada com cuidado. É uma decisão que pode determinar se você sobrevive a uma expedição ou não. Você precisa de alguém que tolere sofrimento prolongado – queimaduras por congelamento, fome, cansaço esmagador – enquanto mantém a vontade de avançar e a coerência para responder a uma emergência.

O convite dos dois alpinistas lendários para me juntar a sua expedição foi uma espécie de ordenação a um sacerdócio. A escalada é uma religião; ela me salvou, oferecendo a saída de uma adolescência turbulenta. Abandonei o ensino médio, me afundei no álcool e nas drogas e vivi na rua por um tempo. Escalar me salvou. Isso me deu um propósito, concentrou minha mente e meu corpo e me deixou são.

No alto, eu parecia me distanciar das inseguranças e da raiva que haviam definido tanta coisa na minha vida: eu olhava para o mundo lá embaixo e percebia que, enfim, podia respirar profundamente, com satisfação e descontração. Mas, aí, eu descia, e minha turbulência interior voltava. Por isso, quando Simone e Denis me convidaram para fazer parte de um escalada histórica, senti que, se eu conseguisse alcançar aquele cume, eu ficaria “curado” de vez.

Chegamos ao topo após uma seção pesada durante um breve intervalo de tempo bom. Subidas durante o inverno se resumem a uma questão de momento – a capacidade de aproveitar uma brecha para subir entre tempestades que se formam rapidamente e enchem os picos de neve instável. Mas o cume é apenas a metade do caminho. As mortes costumam ocorrer na descida, quando os alpinistas precisam navegar campos minados de fendas – rachaduras profundas escondidas sob finas lâminas de gelo – e derivas de neve que pesam toneladas e ameaçam lançar avalanches estrondosas a qualquer momento.

Nós nos apressávamos – os três amarrados, juntos – na esperança de chegar antes das nuvens ameaçadoras que se moviam em nossa direção. Então eu ouvi o rugido. Os guias de montanha ensinam que, se ficar preso em uma avalanche, você deve tentar nadar para cima. Eu me lembro de tentar, inutilmente, mover meus braços e bater as pernas, mas eu girava como se estivesse dentro de uma máquina de lavar roupa em fúria. Eu tinha um pequeno e borrado vislumbre de céu azul e depois era tudo breu, azul de novo, breu, escuridão total. Minha boca e meu nariz estavam repletos de pó e a neve entrou na minha roupa inteira. Veio um silêncio profundo, e um frio opressor começou a tomar todo o meu corpo.

É difícil colocar em palavras o terror dessa experiência – ser uma presa nas garras de um monstro primordial, esperando que sua coluna se parta ao meio, que sua consciência se esvaia, que a montanha te engula. Mas nós três sobrevivemos.

Longe de me curar, o Gasherbrum II me destruiu. Com o passar do tempo, ondas de pânico subitamente me tomavam como miniavalanches. Eu suava do nada. De repente, eu ficava irritado ou enfurecido. Parecia a volta do caos da minha adolescência, só que maior e mais pesado. Para escapar, eu bebia em quantidades cavalares e traía minha esposa, o que veio a somar vergonha e repulsa por mim mesmo. Eu me divorciei, perdi meu principal patrocinador, machuquei pessoas que amo. Não há desculpa para o mau comportamento e as decisões ruins. Mas, às vezes, o caos resultante gera um pouco de clareza.

Um terapeuta me explicou que eu estava sofrendo de transtorno de estresse pós-traumático, e, com o amor e o apoio de muitas pessoas, consegui me desenterrar dele. Parei de beber e voltei a escalar – e retornei ao Himalaia. E reconheci que a ideia de que chegar ao cume de uma montanha poderia me curar era uma ilusão tanto quanto a de que a minha foto pós-avalanche de alguma forma retratava um herói.

Ainda assim, não tenho como escapar da foto. É uma imagem que parece me seguir como um fantasma de mim mesmo, me lembrando do quão frágil eu realmente sou. Do quão frágeis somos todos.

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