Nova Zelândia

A grande saudação da Nova Zelândia

Nossa correspondente é recebida calorosamente em lugares inesperados. Sexta-feira, 15 Fevereiro

Por Heather Greenwood Davis

A longa lança Māori que aponta para o pomo-de-adão de Christoph Niemann está a dois centímetros de distância de seu alvo. Os olhos do lanceiro estão mais ou menos à mesma distância dos de Niemann, buscando neles algum sinal de medo. Niemann nem pisca. Por alguns segundos, nenhum dos dois se move. Os únicos sons que ouço são a respiração deles e as batidas do meu coração.

Essa recepção foi além do que eu esperava quando Niemann, artista de Berlim e colega explorador pela National Geographic Travel, e eu nos aproximamos do portão da Mataatua Wharenui, tradicional casa de encontros dos māoris, em Whakatāne, na Ilha Norte.

Queríamos ver as intrigantes esculturas em madeira da wharenui, mas uma visita a um marae, solo de encontros sagrados dos māoris, não é tão simples quando bater na porta. Eles precisam primeiro lhe inspecionar e lhe convidar a entrar. O desafio pelo qual passou Niemann faz parte da passagem. É assim que se fazia entre os ancestrais e é assim que ainda se faz, nos disseram. A justificativa é parecida.

 “Sobre o chão [da wharenui] se trocam poderosas palavras”, explicou o ancião Māori Te Taru White em visita que lhe fizemos alguns dias antes, na cidade de Rotorua. “A passagem por essa ocasião é uma parte muito rica do manaakitanga. Você é levado ao coração das pessoas”.

Manaakitanga é um conceito Māori que representa o sentimento de ser bem recebido, espalhado por toda a Nova Zelândia. Suas raízes se estabelecem na crença espiritual de que a maneira como tratamos as pessoas é um reflexo direto do nosso próprio mana, ou integridade. Ao honrar os convidados, dizem, estão honrando a tudo, desde a água, até as florestas e a terra. Numa cultura que venera a natureza, a desonra, portanto, não é uma opção.

Embora originado entre os māoris, trata-se de um sentimento que perpassa tudo. Quem visita a Nova Zelândia o sente em todo e cada encontro. Os moradores locais que você encontra lhe oferecem de tudo, desde chá até um lugar para ficar, ou mesmo a camiseta que estão vestindo – e eles falam sério.

“Não tenha dúvidas, as ideias do manaakitanga estão por toda parte e em qualquer lugar", diz White sobre as interações que os turistas podem esperar na Nova Zelândia. "Eu lhe conecto à terra. Conecto-lhe a quem sou, ao meu povo, minha cultura, meu lugar."

De volta à Mataatua Wharenui, os procedimentos formais já estão quase finalizados. Após uma música, uma dança haka e orações, somos convidados a participar de um hongi – o tradicional cumprimento nariz a nariz – com nossos anfitriões. O momento é pessoal e profundo.

Na América do Norte, falamos o tempo todo de encontrarmos um espaço privado; na Nova Zelândia, me incentivam a empurrar minha testa e nariz contra os de desconhecidos e dividir a respiração com eles, literalmente. Crianças estudantes ofereceram, timidamente, seus narizes depois de nos receberem com músicas e apresentações de haka. White participou de um hongi conosco em Rotorua.

E há também os golfinhos.

Com traje de mergulho e capuz, nadadeiras nos pés e esnórquel posicionado, pulo da lancha para a água verde e fria do litoral de Kaikōura. Minha entrada cria bolhas e uma nuvem e, esperando elas desaparecerem, sinto minha respiração vagarosa. Sei que não estou sozinho na água, mas não vejo nada que possa provar isso.

Sinto o barulho de algo passando rápido do meu lado, bem antes de eu entender a forma. E, em seguida, antes de eu conseguir processar o que está acontecendo, sou rodeado de golfinhos-do-crepúsculo selvagens.

A Dolphin Encounter é motivo de orgulho em Kaikōura. A empresa, fundada em 1990, aproxima os turistas desses acrobáticos animais, ao mesmo tempo em que respeita a liberdade dos golfinhos de viver a vida naturalmente.

Ao longo da próxima hora, tento seguir todas as orientações passadas pelos operadores ainda em terra – nadar em círculos para despertar a curiosidade deles, fazer um zumbido na água para que eles se aproximem.

Sou agora uma atração de karaokê: zumbindo músicas da Katy Perry como se não houvesse amanhã, nadando em círculos até ficar tonta.

E isso funciona. Meus novos amigos golfinhos nadam comigo – girando e pulando – durante minutos a cada vez, antes de saírem em disparada sem deixar para trás nenhuma pista na água.

“Onde eles estão?”. Me pergunto. “Será que eu imaginei tudo isso?”

Os golfinhos vêm e vão. Nadam comigo quando têm vontade. Me deixam sozinha quando não têm. Voltam com a mesma rapidez. E, assim como foi boa parte das minhas experiências na Nova Zelândia, entrego-me ao momento e curto os golfinhos, sem nenhuma ansiedade ou expectativa.

Mantenho as mãos ao meu lado (porque é proibido tocá-los) e curto a magia do momento, que me deixa rindo feito uma criança. Um instante, porém, me lembra exatamente de onde estou.

Um golfinho se aproxima pelo lado oposto, na altura dos olhos. A cara dele se aproxima da minha, mas eu não sou Niemann.

Assustada, eu recuo, e ele se vai.

Somente ao relatar a história já na lancha é que me ocorre: no verdadeiro estilo da Nova Zelândia, até mesmo a vida selvagem lhe dá as boas-vindas.

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