O que é turismo regenerativo e quais são seus benefícios?

No Dia Mundial do Turismo, saiba mais sobre a tendência que, segundo especialistas, tem impacto positivo não só para as comunidades locais, como também contra o aquecimento global.

Instalações de uso compartilhado no Pacuare Lodge, na Costa Rica. Este local está na lista de alojamentos exclusivos da National Geographic.

Foto de LIN KUCZERA
Por Redação National Geographic Brasil
Publicado 27 de set. de 2022 11:11 BRT

Apesar de não existir uma definição precisa sobre o que é turismo regenerativo, o conceito preza pela sustentabilidade e pela conservação, mas vai além. Trata-se de uma tendência ascendente no setor de viagens, segundo especialistas como Alexa Pauls, mestre em antropologia e história e diretora da área acadêmica de turismo sustentável da Universidade de Meio Ambiente (UMA) no México, que concedeu entrevista sobre o tema à National Geographic.

A especialista explica que esse conceito em aberto se baseia em três pilares inter-relacionados. De acordo com ela, o turismo regenerativo  analisa o ecossistema local e cria benefícios como gerar emprego e condições de trabalho decentes para a comunidade em questão. Além disso, desenvolve relações com a população do lugar e favorece a conexão do turista consigo mesmo e com a região em que está visitando. E, por fim, também cultiva condições para que todos os integrantes desse ecossistema desenvolvam seu potencial.

O turismo regenerativo é uma alternativa para um setor que também tem sua parcela de impacto na crise climática, pois a atividade – quando realizada de forma convencional – "contribui para a emissão de gases de efeito estufa (GEE) que causam o aquecimento global", como informam dados da rede One Planet Vision para uma recuperação responsável do setor turístico, facilitada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). 

O que é o turismo regenerativo?

"Um projeto de turismo regenerativo é baseado em uma leitura sistêmica do lugar. Ele nutre as relações entre quem coabita e visita um destino, cria condições em favor de todas as formas de vida locais, inclui ações de prevenção, mitigação, compensação e conservação, e gera benefícios tanto para a comunidade anfitriã quanto para os viajantes e para o destino", afirma Alexa Pauls.

Esta modalidade propõe uma nova e harmoniosa relação entre indivíduo, natureza e sociedade, explica Martín Araneda, engenheiro comercial, consultor e facilitador do turismo regenerativo e desenvolvimento e co-fundador da iniciativa global Turismo Regenerativo.

Seguindo esta ótica, o mundo é entendido "como um organismo vivo, integrado em uma relação de co-evolução com a natureza, onde as comunidades locais se organizam com base em sua própria identidade e senso de lugar", informa o especialista. 

Além disso, o impacto gerado a partir desta nova perspectiva é positivo, ou seja, o sistema "devolve mais do que é necessário e trabalha para melhorar as capacidades que sustentam a vida do lugar", diz Araneda.

Gers tradicionais no Three Camel Lodge situado no deserto de Gobi, na Mongólia.

Foto de Jonathan Irish

Turismo regenerativo, convencional e sustentável: qual é a diferença?

O turismo regenerativo difere da forma tradicional ou convencional de turismo porque este último se concentra em agradar ao turista, como explica Alexia Pauls. “Os operadores e prestadores de serviços tentam satisfazer todos os desejos dessa pessoa”. 

Além disso, seus benefícios são medidos por indicadores econômicos, mas não está claro para onde vão esses recursos. "Eles podem causar danos ambientais e tensões sociais porque tudo é feito às custas da população e dos recursos locais", afirma.

"O turismo convencional é degenerativo, deixa lugares em piores condições do que eram e limita a capacidade dos ecossistemas de sustentar a vida", acrescenta Araneda.

Por outro lado, há uma diferença entre turismo regenerativo e turismo sustentável: neste último, a abordagem é fazer o mínimo dano possível, mas "sem mudar a maneira de pensar sobre produção e economia", explica ele.

Já a mestre em antropologia Alexa Pauls argumenta que o turismo regenerativo também se difere do turismo de conservação, "no qual os recursos gastos pelos turistas são investidos em programas de conservação da flora e da fauna". Embora tenha um impacto positivo, também é insuficiente.

Portanto, "a ideia de turismo regenerativo vai um pouco mais longe”, diz Araneda. “Não se trata apenas de conservação, mas também de regeneração e reparação dos danos causados". Ele se concentra no destino, nas comunidades locais, no meio ambiente e não no aspecto turístico ou econômico. 

Em resumo, o objetivo é que todos os envolvidos experimentem o bem-estar como uma atividade que contribui para o tecido social e para a identidade local.

"A regeneração aprende com a natureza e imitando-a. Podemos criar um impacto positivo através do que fazemos e, portanto, há muita inspiração que vem da observação do natural", acrescenta o especialista.

Quais são os princípios do turismo regenerativo?

O consultor de turismo regenerativo Martín Araneda também argumenta que o turismo regenerativo se baseia em certos princípios fundamentais. Em primeiro lugar, concentra-se em abordar a vida, a saúde e a resiliência com o objetivo de atender a esses três fatores que têm impacto sobre comunidades, cidades e vilas.

Isto leva a maiores benefícios para todos e à valorização de conceitos como "inovação, integração social, revitalização da cultura e modos de vida; além de restauração ecológica e proteção de locais para conservação", explica ele.

"A busca por um sentido de lugar é essencial, porque, a partir de suas características e qualidades únicas enraizadas em sua história natural e cultural, pode-se encontrar o potencial inerente que esse lugar tem", acrescenta Araneda. Desta forma, o desenvolvimento do turismo favorece o estilo de vida de seus habitantes.

Turismo e proteção da natureza

O turismo regenerativo propõe ainda a concepção de experiências que acompanham o ritmo da natureza e a cultura do lugar. Por exemplo, Araneda sugere práticas que atendem às quatro estações do ano, ao calendário agrícola e aos festivais culturais ancestrais e contemporâneos.

É o tipo de prática de turismo que se preocupa em promover uma mobilidade limpa e saudável, que prefere caminhadas ou saídas de bicicleta e uso do transporte público elétrico, para deixar o carro como última opção. 

"O propósito de gerar valor integral e a experiência como momento de pico nos leva a projetar e gerar condições onde os viajantes, que geralmente vêm das grandes cidades, com muito estresse e falta de conexão com o meio ambiente, possam se conectar profundamente com consigo mesmos, com os outros e com a natureza para encontrar saúde física e emocional, e um sentido de vida", acrescenta o especialista.

Finalmente, o turismo regenerativo também incentiva práticas ligadas à agricultura local, que melhoram a fertilidade do solo e garantem o acesso à alimentação para a comunidade.

Quais são os benefícios do turismo regenerativo?

Em termos ambientais, este tipo de atividade permite a conservação, a regeneração e a melhoria das condições do sistema em que se encontra o ambiente, assinala Pauls.

Por sua vez, esta indústria depende da atratividade de seus destinos. Portanto, ao cuidar do meio ambiente, o turismo regenerativo ajuda a preservar esses espaços e a manter a fonte da atividade.

Além disso, a modalidade está de acordo com as atuais tendências de mercado e de comportamento do consumidor: "Os turistas estão mais conscientes dos impactos negativos de sua viagem, por isso buscam opções mais sustentáveis para compensar seu voo, preferindo empresas que ofereçam condições justas para os funcionários e cuidado com o meio ambiente", diz a antropóloga. 

Em termos econômicos, continua a especialista mexicana, o turismo é apresentado como um complemento às atividades produtivas da área em questão. Tem também um impacto positivo em termos de geração de empregos, "criando oportunidades de trabalho decente e envolvendo a população local".

Além disso, ele é benéfico para a sociedade, pois os projetos regenerativos "têm a capacidade de fortalecer o tecido social, incentivando a população local a pesquisar, promover e viver sua cultura de forma mais consciente", complementa Pauls.

Já Martín Araneda acrescenta que "a regeneração tenta devolver o sentido e a direção que queremos dar a um mundo no qual as gerações presentes e futuras possam viver". 

Como um turista pode ser regenerativo

Alexia Pauls lista algumas recomendações para que os turistas pratiquem esta atividade de forma regenerativa. Primeiramente, ela sugere fazer uma busca consciente ao planejar uma viagem. 

Ao chegar ao local, a antropóloga recomenda manter uma atitude "de abertura, de curiosidade para conhecer e se conectar com as pessoas e contribuir conscientemente com os recursos que deixamos para trás".

Araneda, por sua vez, reconhece que as práticas sustentáveis (por exemplo, não jogar lixo em qualquer lugar ou evitar garrafas descartáveis) devem ser mantidas e enfatiza a importância de encontrar bons operadores e serviços turísticos. 

Alexia Pauls aponta que é possível também para os prestadores de serviços de turismo contribuírem de forma positiva. Por exemplo, "as agências de viagem têm a oportunidade de fazer uma grande diferença, promovendo projetos que têm um impacto positivo sobre o lugar e sua gente".

As companhias aéreas, por sua vez, "podem otimizar rotas, o uso de combustível e, como empresas, investir parte de seus lucros em projetos regenerativos para os destinos para os quais voam", recomenda ela.

Por que é importante migrar para o turismo regenerativo

A atividade turística tem sua parcela de impacto no meio ambiente e, por isso, esteve presente na Declaração de Glasgow sobre a Ação Climática no Turismo, apresentada na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP26) de 2021.

De acordo com o último estudo da Organização Mundial do Turismo (OMT) e do Fórum Internacional de Transportes (ITF), as emissões de dióxido de carbono (CO2) provenientes de atividade turística cresceram pelo menos 60% entre 2005 e 2016. E estima-se que, se a descarbonização não desacelerar, as emissões aumentarão 25% até 2030, em comparação com 2016.

Além disso, o comunicado aponta que "a mudança climática, a poluição e a perda da biodiversidade ameaçam a maioria das atividades turísticas". É urgente, portanto, que mais ações sejam tomadas. "Se formos capazes de priorizar o bem-estar das comunidades e dos ecossistemas, o turismo pode levar a transformação para um futuro com baixo teor de carbono", enfatiza o documento.

"O mais importante do turismo regenerativo é esta esperança e consciência de que além de não ter um impacto negativo ou preservar as coisas como elas são, como seres humanos temos a capacidade de recriar e regenerar um contexto, de criar condições para que todos os elementos de um sistema possam expressar todo o seu potencial", reflete Pauls.

Ela conclui ao analisar que "o ato de viajar, de sair do contexto cotidiano, de se desligar da vida cotidiana abriga esse potencial para descansar, refrescar, renovar e buscar outras perspectivas”. “Isto pode ter um efeito regenerativo em cada viajante”, afirma.

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