Meio Ambiente

Como 3 toneladas de porcos mortos alteraram esta paisagem

Os resultados do incomum experimento ecológico surpreendeu cientistas – principalmente os rios de larvas. Quinta-feira, 26 Outubro

Às vezes, mortalidades em massa acontecem na natureza. Mais de 200 mil antílopes Saiga caíram mortos no Cazaquistão em questão de semanas; 337 baleias apareceram mortas em um remoto fiorde no sul do Chile; cerca de 300 renas foram vítimas fatais de um único tornado na Noruega – tudo isso apenas em 2015. Há evidências de que as mortes em massa estão mais frequentes por causa das mudanças climáticas.

“Esses eventos cataclísmicos são resultados de caos ecológico”, disse o entomólogo da Universidade do Texas A&M, Jeffrey Tomberlin. No entanto, “não temos a menor ideia de como eles impactam o meio ambiente”.

O grande problema é que as mortes são imprevisíveis. Quando acontecem, cientistas não podem voltar no tempo e traçar as linhas bases que permitiriam dizer como, exatamente, o ecossistema foi alterado pelo surgimento repentino de várias carcaças de animais.

A solução, escolhida por Tomberlin e Brandon Barton – com colegas da Universidade do Estado do Mississipi (MSU) –, foi simples: se não é possível prever um evento de mortalidade em massa, é só criar um.

Para isso, a equipe precisou de uma enorme massa de animais mortos. Por sorte, o biólogo de vida selvagem Marcus Lashley, da MSU, tinha contatos. Ele acionou agências federais e estaduais responsáveis por combater pragas de vida selvagem no Mississipi e outros estados.

Depois de alguns telefonemas, os porcos assilvestrados mortos começaram a chegar.

Onde deixá-los?

O plano era colocar diferentes quantidades de cadáveres de porco em uma série de lotes de 20 metros quadrados. Em seguida, coletariam, antes e depois, dados sobre tudo – desde a composição química do solo a micróbios, urubus e coiotes.

Mas depois de coletar e congelar os porcos, enfrentaram um segundo problema: onde realizar o experimento? “Ninguém quer colocar milhares de toneladas de cadáveres sobre sua terra e observá-los decompor”, disse Lashley.

Por acidente, ele recebeu um e-mail da administração da MSU estimulando professores a utilizar áreas de florestas da própria universidade para pesquisas. Lashley então enviou a proposta da equipe. “Apesar da solicitação ser um pouco estranha”, disse Wes Berger – diretor associado de pesquisa – a universidade deu luz verde para o projeto.

Até o começo de julho de 2016, a equipe já tinha coletado tanto as carcaças, cerca de 1,8 toneladas de porco, quanto os dados que serviriam de parâmetro. Estavam prontos para começar. Mas o telefone tocou novamente. “Nunca pensei que ficaria tão empolgado em receber uma ligação dizendo que eu tinha uma tonelada – literalmente – de porcos mortos para mim”, disse Barton.

Mais 900 quilos foram adicionados ao experimento e, em 5 de julho, com a ajuda de alguns técnicos cedidos por colegas, 3 toneladas de porcos mortos foram levadas até os lotes de estudo deixados para apodrecer.

Rios de larvas

Quase imediatamente, armadilhas fotográficas gravaram dezenas de urubus pousando nas pilhas de porcos. Outras armadilhas, que capturavam insetos, tinham que ser substituídas diariamente porque não “dava para colocar nem mais um inseto nelas”, disse Barton. Os rios de larva entre as carcaças tinham vários centímetros de profundidade.

Urubus e larvas eram esperados, claro, mas a intensidade da resposta surpreendeu os pesquisadores. “Estávamos completamente despreparados para o que aconteceu”, disse Barton.

Coletar dados de micróbios durante a fase de decomposição ativa era como uma brincadeira, disse Heather Jordan, da MSU. “Você não podia cair e tinha que evitar pisar nos porcos e no adipocere” – uma cera resultante da hidrólise de gordura dos tecidos – “que estava em todos os cantos, essa gosma imunda. Depois, você precisava agachar e entrar nessa comunidade microbiana interna com aranhas, larvas e diferentes moscas nojentas por toda parte.”

A resposta biológica foi tão extremada que os pesquisadores tiveram que abandonar alguns métodos de amostragem. Quantidades medidas de folhas mortas, cuja decomposição eles planejavam monitorar, “foram inundadas pelos restos de porco”, disse Lashley. “Ficou impossível coletar os resultados”. Armadilhas para insetos rastejantes foram removidas pelas larvas e “navegaram rio de larvas abaixo”.

As moscas atraíram predadores, inclusive anolis – um tipo de lagarto pequeno – e vespas. “Você podia ver as vespas voarem, capturar uma mosca e depois pousarem para comê-las tranquilamente”, disse Barton. Foi “uma das coisas mais legais que vimos”.

Depois que os rios de larvas abandonaram as carcaças esqueléticas e voltaram para baixo da terra para virarem pupas, bandos de tatus-galinha invadiram a área. Eles devastaram o solo para buscar os vermes. A soma de todas alterações fez do solo um lugar “muito esquisito de se andar”, disse Barton. A textura estava completamente diferente. As comunidades de plantas também foram dizimadas, permitindo que novas espécies colonizassem a área.

Até hoje, mais de um ano depois, o lugar continua ecologicamente modificado. “Se um dia vai voltar ao normal? Provavelmente não”, disse Barton.

A parte ruim de abater porcos selvagens

Foi a presença constante de urubus que assustou Jordan, a microbiológa. “Eu olhava para cima e via pelo menos 15, ou 20, deles nos galhos”, ela lembra.

Por outro lado, metade dos lotes estavam cercados para excluir urubus e outros comedores de carniça – nesses, as carcaças demoraram mais para desaparecer e era cercado por muito mais moscas. Para Barton, “os urubus estão nos fazendo um favor” ao diminuir a população de moscas e mosquitos que podem transmitir doenças.

Os pesquisadores compartilharam os resultados preliminares na reunião deste ano da Sociedade Ecológica da América e no periódico Ecologu – mas a pesquisa está longe do fim. Jordan ainda processa amostras para rastrear como as comunidades microbiais do solo mudam durante o tempo.

Para Tomberlin, o experimento enfatiza o impacto ambiental do sacrifício de porcos assilvestrados. Os porcos são, eles mesmo, espécies invasivas e também causam danos consideráveis. No entanto, disse Tomberlin, paradoxalmente, a morte em grande escala desses bichos pode fazer surgir outras espécies invasivas.

“Espécies invasivas tendem a gostar de ambientes instáveis”, ele explica, “e se você cria um ambiente caótico, você pode estar criando oportunidades para que elas tenham um ponto de apoio.”

“Como muita coisa em ecologia, as consequências desses eventos não ficam isoladas ao evento – pode desencadear uma reação em cadeia por todo o ecossistema de maneiras inesperadas”, disse Barton.

Apesar de não ter sobrado muito das três toneladas de porcos mortos que iniciaram o projeto, os pesquisadores planejam continuar monitorando os lotes experimentais até que se tornem indistinguíveis do resto da floresta – talvez nunca, observam. “Vamos medir isso pelo resto de nossas carreiras”, Lashley prevê.

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