Meio Ambiente

Deslizamento de terra em 'câmera lenta' intriga cientistas

É provável que as mudanças climáticas estejam intensificando esses eventos em regiões frias. Quinta-feira, 26 Outubro

Por Sarah Gibbens

O que levou um rio viscoso de estranhos detritos de terra a derramar por um campo vazio? Especialistas ainda não têm certeza.

O vídeo que viralizou nas redes sociais chinesas Weibo e WeChat mostra um rio de terra e grama se movendo sobre o vilarejo Dimye, na Planície Qinghai-Tiber, em 7 de setembro. Foram os próprios usuários das redes que reconheceram o lugar.

Diferente da maioria dos deslizamentos de terra, normalmente rápidos e repentinos, esse morro ambulante é uma corrida de terra, tipo de deslizamento que a terra escorre sem grande volume de água líquida.

“É uma força lenta e imparável, mas não vai matar niguém imediatamente”, disse a pesquisadora de deslizamentos de terra Mika McKinnon.

De acordo com a mídia local, ninguém se feriu no deslizamento de 7 de setembro, mas o rancho, visto no vídeo, e o carro de uma família foram danificados.

As causas

Desde que o vídeo começou a circular em redes sociais do mundo, muitos especularam que o deslizamento foi causado pelo derretimento do permafrost – solo que continua congelado durante o ano inteiro. Esse tipo de derretimento e os pedaços de terra com marcações estranhas que ele causa são chamados de termocarste.

O permafrost é importante em locais frios porque mantem a camada superior do solo no lugar e serve como fundação onde árvores e plantas podem crescer.

Esse solo permanentemente congelado cobre cerca de 24% das terras do hemisfério norte, de acordo com dados do site de meteorologia Weather Underground. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estima que até meados do século 21, cerca de 20 a 35% do permafrost pode simplesmente acabar.

O descongelamento pode tornar áreas onde as temperaturas estão aumentando mais perigosas para quem vive nelas.

Quando a camada inferior de permafrost começa a esquentar, ela derrete e não consegue mais sustentar o solo que a encobre. Dependendo da quantidade de permafrost em determinada região, o solo pode ficar muito instável.

“Suponha que você tire uma carne do congelador – ela não vai derreter de uma vez. Vai passar de um estado congelado para um de descongelamento”, disse Sarah Godsey, professora da Universidade do Estado de Idaho, que estuda o derretimento de permafrost no Alasca. “Mas se a carne conter 50% de gelo, a história seria diferente. O gelo é realmente importante.”

Termocarste já foi observado anteriormente na Planície Qinhai-Tiber. Estudo publicado no periódico Scientific Reports apontou em maio que a desertificação da região está contribuindo para o derretimento do permafrost.

No entanto, não é claro se o derretimento do permafrost é culpado por essa corrida de terra específica – ou se o calor derreteu uma camada de solo congelada temporariamente. Cientistas dizem que é impossível dizer com certeza o que causou o deslizamento apenas pelo vídeo.

Sem a presença de pedaços óbvios de material congelado, fica difícil determinar se o permafrost de fato derreteu, de acordo com McKinnon.

Em resposta ao vídeo, McKinnon e um colega tibetano buscaram imagens de satélite que poderiam revelar a aparência de antes e depois da região, mas as tensões geopolíticas impossibilitaram a tarefa. O nome como um vilarejo é conhecido por tibetanos pode não aparecer em imagens de satélite chineses.

Godsey concordou que, sem estudos da composição do solo da área, atestar com certeza que a corrida de terra foi causada pelo derretimento do permafrost é difícil. Ela notou diferenças do vídeo que publicou em 2010 que revela o derretimento de permafrost no Alasca.

Onde o permafrost derrete?

Apesar de não sabermos com certeza se o deslizamento no Tibete foi causado por gelo derretido, o problema está acontecendo em todo o mundo e pode ter graves impactos.

Em e-mail para a National Geographic, o professor de geografia da Universidade de Sussex Thomas Opel comentou que viu um deslizamento semelhante no ártico siberiano.

“Em muitas regiões, a intensidade do derretimento temporal aumentou devida às mudanças climáticas”, ele disse.

Enquanto gases de efeito estufa aumentam a temperatura global, diz ele, permafrost mais quentes podem liberar uma enorme quantidade de carbono e contribuir com o aquecimento.

McKinnon observou que o vídeo revela cicatrizes de outros deslizamentos nas encostas próximas, o que indica que não foi a primeira vez que o solo escorreu.