Deslizamento de terra em 'câmera lenta' intriga cientistas

É provável que as mudanças climáticas estejam intensificando esses eventos em regiões frias.

Thursday, October 26, 2017,
Por Sarah Gibbens
Descongelamento de permafrost cria uma correnteza de terra na China
Descongelamento de permafrost cria uma correnteza de terra na China

O que levou um rio viscoso de estranhos detritos de terra a derramar por um campo vazio? Especialistas ainda não têm certeza.

O vídeo que viralizou nas redes sociais chinesas Weibo e WeChat mostra um rio de terra e grama se movendo sobre o vilarejo Dimye, na Planície Qinghai-Tiber, em 7 de setembro. Foram os próprios usuários das redes que reconheceram o lugar.

Diferente da maioria dos deslizamentos de terra, normalmente rápidos e repentinos, esse morro ambulante é uma corrida de terra, tipo de deslizamento que a terra escorre sem grande volume de água líquida.

“É uma força lenta e imparável, mas não vai matar niguém imediatamente”, disse a pesquisadora de deslizamentos de terra Mika McKinnon.

De acordo com a mídia local, ninguém se feriu no deslizamento de 7 de setembro, mas o rancho, visto no vídeo, e o carro de uma família foram danificados.

As causas

Desde que o vídeo começou a circular em redes sociais do mundo, muitos especularam que o deslizamento foi causado pelo derretimento do permafrost – solo que continua congelado durante o ano inteiro. Esse tipo de derretimento e os pedaços de terra com marcações estranhas que ele causa são chamados de termocarste.

O permafrost é importante em locais frios porque mantem a camada superior do solo no lugar e serve como fundação onde árvores e plantas podem crescer.

Esse solo permanentemente congelado cobre cerca de 24% das terras do hemisfério norte, de acordo com dados do site de meteorologia Weather Underground. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estima que até meados do século 21, cerca de 20 a 35% do permafrost pode simplesmente acabar.

O descongelamento pode tornar áreas onde as temperaturas estão aumentando mais perigosas para quem vive nelas.

Quando a camada inferior de permafrost começa a esquentar, ela derrete e não consegue mais sustentar o solo que a encobre. Dependendo da quantidade de permafrost em determinada região, o solo pode ficar muito instável.

“Suponha que você tire uma carne do congelador – ela não vai derreter de uma vez. Vai passar de um estado congelado para um de descongelamento”, disse Sarah Godsey, professora da Universidade do Estado de Idaho, que estuda o derretimento de permafrost no Alasca. “Mas se a carne conter 50% de gelo, a história seria diferente. O gelo é realmente importante.”

Termocarste já foi observado anteriormente na Planície Qinhai-Tiber. Estudo publicado no periódico Scientific Reports apontou em maio que a desertificação da região está contribuindo para o derretimento do permafrost.

No entanto, não é claro se o derretimento do permafrost é culpado por essa corrida de terra específica – ou se o calor derreteu uma camada de solo congelada temporariamente. Cientistas dizem que é impossível dizer com certeza o que causou o deslizamento apenas pelo vídeo.

Sem a presença de pedaços óbvios de material congelado, fica difícil determinar se o permafrost de fato derreteu, de acordo com McKinnon.

Em resposta ao vídeo, McKinnon e um colega tibetano buscaram imagens de satélite que poderiam revelar a aparência de antes e depois da região, mas as tensões geopolíticas impossibilitaram a tarefa. O nome como um vilarejo é conhecido por tibetanos pode não aparecer em imagens de satélite chineses.

Godsey concordou que, sem estudos da composição do solo da área, atestar com certeza que a corrida de terra foi causada pelo derretimento do permafrost é difícil. Ela notou diferenças do vídeo que publicou em 2010 que revela o derretimento de permafrost no Alasca.

Onde o permafrost derrete?

Apesar de não sabermos com certeza se o deslizamento no Tibete foi causado por gelo derretido, o problema está acontecendo em todo o mundo e pode ter graves impactos.

Em e-mail para a National Geographic, o professor de geografia da Universidade de Sussex Thomas Opel comentou que viu um deslizamento semelhante no ártico siberiano.

“Em muitas regiões, a intensidade do derretimento temporal aumentou devida às mudanças climáticas”, ele disse.

Enquanto gases de efeito estufa aumentam a temperatura global, diz ele, permafrost mais quentes podem liberar uma enorme quantidade de carbono e contribuir com o aquecimento.

McKinnon observou que o vídeo revela cicatrizes de outros deslizamentos nas encostas próximas, o que indica que não foi a primeira vez que o solo escorreu.

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