Animais

Freiras lutam pela sobrevivência de salamandras ameaçadas de extinção no México

Esta pode ser a primeira vez que um grupo religioso se envolve em um programa para reprodução de anfíbios, diz especialista.Thursday, June 21

O Lago Pátzcuaro, o terceiro maior lago do México, situa-se a pouco mais de 320 quilômetros a oeste da Cidade do México. Por ser uma bacia endorreica, o lago não tem saída para o oceano, e é o único lar para uma espécie rara e única de salamandra.

Conhecidas localmente como “achoques,” a salamandra do Lago Pátzcuaro (Ambystoma dumerilii) é um anfíbio que vive toda a sua vida em água doce. Com brânquias que se abrem quando submersa, a salamandra se parece com o axolote, seu primo. Ela encontra-se criticamente ameaçada, com estimativas que indicam que haja menos de 100 indivíduos na natureza.

“Ela pode estar extinta nos próximos 20 ou 30 anos”, escreveu Omar Domínguez, biólogo conservacionista da Universidade de Michoacán, em Morelia, em um e-mail.

Mas parece que a salamandra do Lago Pátzcuaro está recebendo uma intervenção divina. Com Domínguez como coordenador do programa de reprodução, um convento, um zoológico e a Universidade de Michoacán estão se unindo em um esforço de conservação internacional para salvar a espécie. 

“Esta é provavelmente a primeira vez que uma comunidade religiosa se envolve na conservação de anfíbios”, diz Gerardo Garcia, especialista do Zoológico de Chester que participa do esforço de conservação. “Todos podem ser conservacionistas”.

Em 2014, Gerardo Garcia, também curador de vertebrados amniotas e invertebrados para o Zoológico de Chester, na Inglaterra, visitou o México enquanto trabalhava em um programa de reprodução para peixes ameaçados de água doce. Enquanto no país, seus colegas da Universidade de Michoacán o encorajaram a visitar as freiras do mosteiro da Ordem Dominicana, e suas operações para a conservação da salamandra, na cidade próxima de Pátzcuaro. (Assista: “5 Espécies de Salamandras Gigantes Identificadas – E Estão Todas Ameaçadas”)

“Não é algo que eu normalmente faça durante minhas viagens de campo, conhecer freiras”, diz Garcia.

Nos últimos 150 anos, as freiras do convento vêm criando de maneira sustentável as raras salamandras. Os anfíbios são um ingrediente crucial para um medicamento misterioso feito no convento, o qual acredita-se que cure tosse, asma e anemia, razão para as mulheres reproduzirem as salamandras, mantendo vivas suas tradições.

Das 23 freiras do convento, três ou quatro vivem e trabalham nas instalações de cada vez, onde é feita a reprodução para cuidar dos animais. As instalações consistem de duas salas grandes repletas de tanques que podem abrigar até 400 salamandras. As freiras alimentam os anfíbios com minhocas orgânicas e utilizam o poço próximo para trocar a água regularmente.

“Elas têm um ambiente limpo, comida fresca e uma equipe dedicada em tempo integral”, diz Garcia. “É exatamente o que precisam. Elas quase criaram um ambiente ideal para a espécie ameaçada”.

Além das necessidades diárias das salamandras, as freiras medem e inserem microchips nos animais, além de formar pares para procriação. Garcia diz que, aos olhos de um leigo, não é possível distinguir uma salamandra da outra, mas as freiras, com todos os seus anos de experiência, conseguem.

Ao redor do mundo

O Zoológico de Chester também tem na Inglaterra uma pequena população de salamandras do Lago Pátzcuaro, e a Universidade de Michoacán em conjunto com um criador privado possuem populações no México. Mas Garcia diz que a população no convento é a mais viável, uma vez que as salamandras estão mais próximas de seu ambiente natural. Quanto mais próximo estiverem do lago, menos provável será sua exposição a patógenos estrangeiros.

“Estes espécimes que temos na Europa podem não ser tão vitais quanto aqueles que elas mantêm no convento ou na universidade”, diz Garcia. “Todas as diferentes questões que precisam ser abordadas no lago estão nas comunidades”.

Como superpredador, Domínguez diz que as salamandras são importantes para a biodiversidade do México. Elas são também um símbolo da região desde os tempos pré-hispânicos, ele adiciona, e são cruciais por razões culturais.

Por enquanto, Garcia diz que os animais podem se reproduzir lentamente e que não há um cronograma exato para quando eles poderão ser reintroduzidos na natureza. Os pesquisadores devem ter a certeza de que a espécie possa prosperar em cativeiro antes de começarem a soltar lentamente alguns espécimes para ver como se saem do lado de fora. (Relacionado: “Assista como ‘Monstros Subaquáticos’ Bizarros Recebem uma Segunda Chance”)

“Isso levará um ano, ou talvez dois. Após um ano, teremos uma percepção melhor”, diz Garcia. “2020 poderá ser o ano de início dos testes de reintrodução na natureza”.

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