História

Pesquisadores reconstroem as feições de crânio atribuído a Maria Madalena

As imagens revelam uma mulher de nariz pontudo, maçãs da face pronunciadas e rosto arredondado Quinta-feira, 26 Outubro

Em uma cidade medieval no sul da França, a cripta embaixo da basílica abriga um dos mais famosos restos humanos – crânios e ossos que dizem pertencer a Maria Madalena, personagem recorrente nas histórias de Jesus. Agora, um cientista e um artista forense usaram a ossada para reconstruir a aparência da mulher quando ainda era viva.

A reconstrução facial é baseada em um modelo computadorizado do crânio e revela uma mulher de nariz pontudo, maçãs da face pronunciadas e rosto arredondado. Para quem acredita que os ossos de fato pertencem a Maria Madalena, essa é a cara de uma das mulheres mais famosas da religião católica.

“Não temos absolutamente nenhuma certeza se esse é o verdadeiro crânio de Maria Madalena”, disse Philippe Charlier, bioantropólogo da Universidade de Versalhes. “Mas, para nós, era muito importante tirá-lo do anonimato”. Charlier concebeu a reconstrução junto com Philippe Froesch, um artista forense visual.

Já faz tempo que Maria Madalena é uma figura controversa na Igreja Católica. A partir do século 5, ela começa a ser retratada como prostituta, e teorias populares nunca provadas a colocam como esposa de Jesus.

Em entrevista de 2005 para a National Geographic, a professora da Escola de Divindade de Harvard, Karen King, disse que as únicas evidências de Maria Madalena a apontam como uma seguidora de Jesus. Na época, Karen alegava que Maria Madalena pode ter feito um papel crucial no desenvolvimento das primeiras fundações do cristianismo.

Rumores que seus restos jaziam no sul da França ficaram populares em 1279, escreveu Rebecca Lea McCarthy no livro Origins of Magdalene Laundries (Origens das Lavanderias de Madalena, inédito no Brasil). Desde então, seus restos foram 'encontrados' em pelo menos outros 5 lugares.

Apesar das parcas evidências sobre o paradeiro de Maria Madalena, Froesch e Charlier queriam dar uma cara ao famoso crânio de Saint Maximin.

Os dois se interessaram pela caveira há três anos, quando Froesch esteve no sul da França para trabalhar na reconstrução facial de outro crânio. Ele fez um desvio até à pequena cidade e, ao passear pela basílica, explorou a cripta onde o crânio é guardado em uma ornamentada caixa de vidro.

A caixa de vidro está trancada desde a última vez que a caveira foi estudada, em 1974. Os pesquisadores contornaram a situação tirando mais de 500 fotos que mostravam ângulos diferentes do crânio. Com base nas imagens, conseguiram criar um modelo tridimensional do rosto que mostrava características como tamanho do crânio, das maçãs da face e da estrutura óssea.

Com esses dados, puderam concluir que o crânio pertenceu a uma mulher que morreu com cerca de 50 anos de idade e cuja origem era mediterrânea. O formato do nariz e outros aspectos foram determinados usando razões trigonométricas sustentadas pelas características consistentes da idade, do gênero e da etnicidade do crânio.

Fotos de cabelos encontrados na caveira indicam que a mulher tinha cabelos castanhos. O tom de pele foi determinado com base nos tons tipicamente encontrados em mulheres da região mediterrânea. Um tipo de argila usado historicamente para prevenir piolhos também foi encontrado nos fios de cabelo.

Alguns aspectos, como peso e expressão facial, ficaram a critério da interpretação de Froesch e Charlier.

De acordo com Froesch, o processo que utilizaram se baseia em técnicas desenvolvidas pelo FBI, e utilizadas em investigações de cenas de crime.

No futuro, Charlier gostaria de conduzir novas pesquisas no crânio, mas fora da caixa de vidro. Técnicas como datação em carbono podem determinar a idade do objeto, mas só funcionam se tomado um pedaço do crânio – algo que a Igreja Católica não permitiu.

Ele também espera que um dia possa conduzir exames de DNA para descobrir as origens geográficas da ossada.

Tanto Charlier quanto Froesch estão convictos de que a pesquisa foi conduzida de forma independente e como um experimento acadêmico. Porém, os dois compartilharam as imagens com alguns líderes religiosos da cidade – os sacerdotes ficaram felizes com a reconstrução.

A possibilidade de trabalhar em uma pessoa tão conhecida, disse Froesch, “foi uma experiência muito emocionante para a gente”.

Por enquanto, os pesquisadores têm apenas um rosto, mas esperam um dia reconstruir todo o corpo com base nos ossos do fêmur e da costela associados ao crânio.

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