Animais

Como as aves da era dos dinossauros sobreviveram ao apocalipse pós-asteroide?

Esporos fossilizados e árvores genealógicas de aves sugerem que o desmatamento foi um fator chave para determinar quem sobreviveria 66 milhões de anos atrás. Quinta-feira, 31 Maio

Por John Pickrell

Quando um asteroide de 14 quilômetros de largura atingiu a Terra há 66 milhões de anos, ele explodiu com uma força mais forte que um milhão de bombas atômicas e dizimou três quartos da vida na Terra, incluindo os dinossauros não aviários. Mas sabemos que alguns membros da árvore genealógica dos dinossauros sobreviveram, levando suas vidas em um mundo pós-impacto e, eventualmente, se proliferando para se tornarem as aves de hoje em dia.

A questão que ainda persiste, então, é por que certas aves sobreviveram enquanto outras morreram na extinção em massa do fim do período cretáceo?

Talvez seja porque o impacto e suas consequências destruíram florestas em todo o planeta, resultando na extinção de aves arborícolas pré-históricas, discutem hoje os pesquisadores no periódico Current Biology.

As únicas aves que sobreviveram eram terrícolas, incluindo antigos parentes dos patos, galinhas e avestruzes. Após a catástrofe, estes sobreviventes evoluíram rapidamente, tornando-se parte da maioria das linhagens de aves modernas que conhecemos hoje, de acordo com paleontólogos liderados por Daniel Field da Universidade de Bath, no Reino Unido.

“É uma intrigante nova hipótese para explicar a extinção e sobrevivência” disse Julia Clarke, especialista em evolução das aves na Universidade do Texas, em Austin.

“Essas observações são consistentes com a ideia de que linhagens terrícolas sobreviveram para além do fim do período cretáceo e, então, evoluíram rapidamente para o topo das árvores uma vez recuperadas as florestas mundiais”, diz Field. “Todas as diversas fontes de dados que encontramos, como os registros de pólen fossilizados, os registros de fósseis de aves, e deduções baseadas na ecologia de aves modernas, apoiam fundamentalmente a mesma hipótese”.

Preenchendo as lacunas

“Os autores fizeram um grande trabalho ao apresentarem um argumento muito convincente sobre o papel do desaparecimento mundial de florestas na evolução das aves modernas”, disse Luis Chiappe, especialista em aves pré-históricas e diretor do Instituto do Dinossauro, no Museu de História Natural de Los Angeles, na Califórnia.

“Esta é uma estimulante nova hipótese que oferece uma explicação plausível para a extinção de grupos arborícolas de aves arcaicas no fim do período cretáceo”, ele disse. No entanto, os dados ainda não explicam por que uma quantidade de enantiornithes e outras aves pré-históricas que não viviam em árvores também foram extintas.

“A extensão com a qual a história evolucionária de grandes grupos modernos, como aves, mamíferos e plantas floríferas, foi influenciada pela extinção em massa do fim do período cretáceo está ganhando enfoque apenas agora”, disse Field.

“Esta catástrofe global deixou uma marca tão indelével nas trajetórias evolucionárias desses grupos que ainda podemos distingui-las 66 milhões de anos depois”.

Aumento de samambaias

Field e seus coautores reuniram uma grande quantidade de evidências de diversas fontes para ajudar a corroborar seu argumento. Isso inclui dados de enormes árvores genealógicas novas de aves contemporâneas, pistas em fósseis de aves recentemente descobertos, e uma análise de esporos e pólen da camada de rocha formada logo após o impacto.

“O estudo foi concluído pouco a pouco”, disse Field.

Ele começou com uma análise sobre as mudanças ocorridas na ecologia das aves durante a sua história evolutiva. Após investigar as relações evolutivas entre as mais de 10 mil espécies de aves vivas hoje, a equipe percebeu que ela sugeria que os primeiros sobreviventes fossem terrícolas, dando a pista de que haveria um desmatamento global em seu passado compartilhado.

“Estas análises mostraram que o ancestral comum mais recente de todas as aves vivas hoje, e de todas as aves que ultrapassaram a fronteira do fim do período cretáceo, eram provavelmente terrícolas”, disse Field.

Pesquisadores há muito já haviam deduzido que o impacto do asteroide haveria causado incêndios mundiais, mas a equipe agora reforçou o argumento de uma total obliteração das florestas. O coautor do estudo, Antoine Bercovici, paleobotânico no Museu Nacional de História Natural Smithsonian, em Washington, D.C., reuniu dados de esporos fossilizados e contagens de pólen em rochas de muitas regiões do mundo, incluindo Nova Zelândia e Estados Unidos.

Em uma fina camada de rocha formada durante os primeiros milhares de anos após o impacto, 70 a 90% dos esporos encontrados originaram de apenas duas espécies de samambaias.

“Este aumento de samambaias representa evidências de uma ‘flora de desastre’, em que espécies pioneiras recolonizam rapidamente os campos abertos, como pode ser visto hoje quando samambaias recolonizam fluxos de lava no Havaí ou deslizamentos após erupções vulcânicas” disse Bercovici.

Florestas maduras podem ter levado milhares de anos para se recuperarem, dizem os pesquisadores, e sua composição foi mudada para sempre.

Além disso, uma análise das aves fossilizadas mais comuns do fim do período cretáceo, um grupo primitivo chamado enantiornithes—sugere que sua maioria era arborícola. Nenhuma destas aves sobreviveu, o que os autores concluem ter sido devido a completa destruição de seu habitat.

Ademais, novos fósseis descobertos de representantes de grupos de aves ainda vivos do período logo após o impacto parecem ter sido terrícolas, de acordo com as proporções de suas pernas.

“Um dos aspectos mais bacanas deste estudo é o fato dele ser testável” adiciona Clarke. “O mesmo não pode ser dito de todas as explicações dadas para a extinção dos dinossauros”.

Por exemplo, pesquisadores deveriam continuar em busca de evidências geológicas para grandes incêndios em rochas em todo o mundo, visando seguir a construção da hipótese de um desmatamento global. Field e seus colegas também esperam preencher as lacunas nos registros fósseis de aves, escassos nos primeiros milhões de anos após o impacto.

“Como todas as boas hipóteses, [este estudo] estimulará novas pesquisas e novas perguntas”, disse Chiappe, e algumas respostas poderão ser encontradas em novos fósseis descobertos em partes pouco exploradas do mundo.