Animais

Cabras podem transmitir doenças e ameaçam rebanho único de carneiros-selvagens

Um rebanho incomum de carneiros-selvagens já sobreviveu à caça comercial, à expansão das cidades e ao isolamento. Agora, eles enfrentam um novo inimigo.Tuesday, October 16, 2018

Por Christine Peterson
Um carneiro-selvagem macho caminha na neve no Parque Nacional de Grand Teton, em Wyoming. Um pequeno rebanho com uma genética valiosa mora nessas montanhas e biólogos dizem que o futuro deles é incerto devido à invasão das cabras-das-rochosas.

SINAIS DA PRESENÇA DE CARNEIROS-SELVAGENS podiam ser observados próximo à beira do penhasco: sujeira de onde haviam dormido, excrementos e um odor ainda pungente. Os próprios animais já tinham ido embora, misturando-se a camadas distantes de montanha e rocha.

Steve Kilpatrick, biólogo aposentado que agora está à frente da Wyoming Wild Sheep Foundation, estava nas montanhas na fronteira do Parque Nacional de Grand Teton, nos Estados Unidos, em agosto, pesquisando sobre os carneiros-selvagens como parte de um trabalho anual de análise das estatísticas de sua decrescente população.

Atualmente, menos de 100 carneiros-selvagens fazem parte do antigo rebanho da Cordilheira Teton, no noroeste de Wyoming – um dos locais mais ímpares do Ocidente. E os biólogos dizem que esses animais correm o risco de desaparecer.

A lista de ameaças inclui a conhecida combinação de perda de habitat, caça predatória na virada do século 20 e interrupções nas rotas de migração.  (Leia mais: Carneiros-selvagens ensinam uns aos outros como migrar.)

Contudo, o rebanho da Cordilheira Teton enfrenta algo incomum até mesmo para a vida selvagem do mundo moderno: as cabras-das-rochosas, animais invasivos que vagam sem destino e transmitem doenças.

Biólogos temem que, sem nenhuma intervenção, as cabras-das-rochosas, que não são nativas do local e que transmitem patógenos mortais aos carneiros, entrem em contato com o rebanho de carneiros-selvagens da Cordilheira Teton.

“Se apenas observarmos e não fizermos nada, as cabras ajudarão a acabar com o rebanho”, diz Kilpatrick, e esses animais podem desaparecer em até uma década se não houver nenhuma intervenção.

“Seria uma vergonha perder essa icônica espécie nesse ambiente tão importante, um parque nacional”, comenta ele. “Isso reflete, em um panorama geral, na forma como conseguimos ou não coexistir com a vida selvagem”.

Escondendo-se do mundo

No passado, os carneiros-selvagens desenvolveram-se no oeste da América do Norte até que a expansão do Ocidente trouxe a caça comercial, alterações no uso da terra e doenças. Já existiu pelo menos 1,5 milhão de animais dessa espécie, agora existem cerca de 85 mil animais espalhados em populações isoladas entre a região central do Canadá e a Baixa Califórnia, no México.

O rebanho da Cordilheira Teton, que tecnicamente é composto pela combinação de dois rebanhos menores, parou de migrar para fugir da invasão humana, isolando-se no alto de íngremes montanhas cobertas de neve, que circundam o sudoeste do Parque Nacional de Yellowstone.

O rebanho da Cordilheira Teton é difícil até mesmo para os carneiros-selvagens, uma espécie capaz de sobreviver em alguns dos lugares mais inóspitos do Ocidente.

Alpinista desliza sobre um campo de neve no Grand Teton National Park. O rebanho de ovelhas da cordilheira Teton também enfrenta ameaças de um número crescente de esquiadores que as surpreendem e fazem com que elas queimem as calorias necessárias para inverno.

Eles vivem, o ano todo, a cerca de 2.590 a 3.350 metros de altura, onde as temperaturas no inverno podem atingir 40 graus Celsius abaixo de zero e a velocidade do vento chega a 160 quilômetros por hora. Para se alimentarem, eles raspam das montanhas líquen de cor alaranjada e marrom, e arrancam os topos secos de flores silvestres e arbustos.  Esses animais se movimentam o mínimo possível, equilibrando-se na beira do penhasco, prontos para saltarem em segurança ao sinal de um predador.

Eles perseveram sozinhos há dezenas de milhares de anos.

O isolamento desses animais lhes trouxe uma vantagem: ao passo que surtos de pneumonia mortal, normalmente transmitidos de carneiros domésticos, dizimaram dezenas de milhares de carneiros-selvagens no Ocidente, o rebanho da Cordilheira Teton permaneceu saudável.

“O rebanho que restou em Teton após a maioria dos rebanhos de carneiros-selvagens ter sido eliminada é realmente valioso para a espécie como um todo”, diz Alyson Courtemanch, bióloga de vida selvagem do Departamento de Caça e Pesca de Wyoming. “Eles representam um reservatório de genes que nunca foi perdido”.

Contudo, cientistas como Courtemanch se preocupam e afirmam que os carneiros enfrentam uma nova onda de ameaças da qual não conseguem escapar sozinhos. A primeira é a chegada de esquiadores do interior do estado que buscam por neves mais profundas e pistas maiores, assustando os carneiros e desperdiçando do rebanho uma preciosa energia necessária para o inverno.

A segunda são as cabras-das-rochosas, que transmitem pneumonia.

Esses animais igualmente carismáticos, com barbas felpudas e saltos impressionantes, foram introduzidos em Idaho no final da década de 1960 e início da década de 1970 pelo departamento de vida selvagem do estado, e estão se movimentando para o nordeste, em direção a Teton. Alguns modelos demonstram que a Cordilheira Teton poderia suportar cerca de 400 desses indivíduos caso nenhuma intervenção seja implementada, diz Kilpatrick. Isso significa não apenas competição por comida, mas também uma possível via de transmissão de doenças.

Como as cabras-das-rochosas transitam entre rebanhos de carneiros domésticos, elas coletam, acidentalmente, os agentes causadores da pneumonia, levando-os até os rebanhos de carneiros-selvagens, onde as bactérias podem ser transmitidas por leves toques no nariz, tosse ou espirros.

Algumas das cabras que chegam à Cordilheira Teton já foram testadas e descobriu-se que elas carregam pelo menos dois dos cinco patógenos capazes de causar uma pneumonia letal.

Controlando as cabras

Se o rebanho da Cordilheira Teton pode desaparecer em apenas uma década caso não haja nenhuma intervenção, conforme previsto por Kilpatrick e Courtemanch, o que pode ser feito?

Controlar a população de cabras é uma forma de começar, diz Courtemanch.

Mas as cabras-das-rochosas não fazem inimigos com facilidade como os mexilhões-quagga ou a bromo-vassoura, outras duas espécies invasivas e destrutivas que se espalham pelo país. As cabras são carismáticas, vivem em grupo e são famosas entre os visitantes.

Isso dificulta o controle, tanto nos locais onde as cabras podem estar quanto nos locais onde elas não podem estar, afirma a bióloga.

O Parque Nacional de Grand Teton, onde vive a maior parte do rebanho da Cordilheira Teton, está trabalhando para controlar as cabras, diz Sarah Dewey, bióloga de vida selvagem do parque. O Serviço do Parque Nacional reconhece a ameaça das cabras e diz que uma solução poderá ser encontrada até o fim deste ano. Profissionais que lidam com a vida selvagem também estão trabalhando com esquiadores do interior para que evitem perturbar o rebanho no inverno.

Uma genética rara e o alto risco de introdução de doenças fazem do rebanho um mau candidato à realocação, processo que já repopulou muitos outros rebanhos no Ocidente. (Leia: Na Califórnia, carneiros-selvagens são realocados de helicóptero).

Em suas mais ousadas ideias, Kilpatrick pensou em tentar reintroduzir no rebanho as rotas de migração. Para isso, alguém precisaria morar nas montanhas e basicamente atrair os carneiros de Teton para as partes mais baixas, com melhores opções de alimentos para o inverno. Isso seria parcialmente possível, diz ele, mas também apresenta riscos, como a exposição a doenças.

Por enquanto, os biólogos continuarão a pesquisar as montanhas, em busca de locais com odor pungente e em busca dos próprios animais, a fim de monitorar as populações de carneiros e cabras.

É um rebanho que persiste há dezenas de milhares de anos, diz Courtemanch. Agora, é tarefa dos humanos mantê-los vivos.

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