Animais

Associadas a figuras demoníacas, víboras raras são assassinadas no Quênia

A superstição e o medo das cobras prejudicam iniciativas para deter o comércio ilegal. Quinta-feira, 18 Abril

Por Maurice Oniang'o

NAIROBI - Agnes Pili estava na cozinha em Kilifi, cidade costeira do Quênia em uma ensolarada tarde no ano passado, preparando o almoço para a família, quando notou uma visita inesperada.

“Fui pegar um prato quando a vi”, conta ela. “Gritei pedindo socorro, mas meu marido não estava por perto.” Uma cobra tinha esgueirado para dentro da cozinha e se enrolado em um canto perto da estante de utensílios. Ela pegou um porrete que seu marido guarda em caso de roubo e matou a cobra com um golpe.

Pili acredita que as cobras são más. “Não entendo para que preservá-las, já que são criaturas mortais e satânicas”, afirma ela.

Mais de 80% dos quenianos são cristãos e, na Bíblia, as cobras são associadas com Satã: Deus amaldiçoou a serpente e a declarou inimigo eterno do homem. Muitos quenianos pensam atualmente da mesma forma. As cobras também são associadas à bruxaria porque os feiticeiros as utilizam para fazer magia negra para assustar ou ferir inimigos. Alguns quenianos acreditam que ver ou sonhar com uma cobra significa que você ou alguém amado vai morrer.

“Cobras são um mau presságio e não deixo escapar quando vejo uma”, afirma Gitari Njagi, professor titular da escola de ensino fundamental de Chuka, no leste do Quênia. Njagi conta que a primeira coisa que faz quando encontra uma cobra é matá-la.

O medo de picadas de cobras também contribui com as atitudes negativas em relação às cobras, afirma Patrick Malonza, cientista pesquisador sênior que chefia o departamento de herpetologia dos Museus Nacionais do Quênia, órgão público que administra museus e sítios históricos.

Essas crenças facilitam que caçadores capturem ilegalmente cobras ameaçadas de extinção na natureza e não sofram consequências, explica Royjan Taylor, diretor da Fazenda de Cobras Bio-Ken, em Watamu, que procria cobras para educação e pesquisas com soros antiofídicos. Os caçadores geralmente não são encarados como infratores, mas solucionadores de um problema por eliminar uma ameaça à comunidade, prossegue.

Serpentes raras

Os herpetólogos dos Museus Nacionais do Quênia, órgão público que administra museus e sítios históricos, temem que duas cobras raras encontradas apenas no Quênia, em duas regiões isoladas, estejam ambas em risco de extinção. A Atheris desaixi e a Bitis worthingtoni, com dois chifres miúdos na cabeça, reforçam a crença de que são a encarnação do diabo e enfrentam ameaças pela destruição do habitat e captura ilegal para os mercados de animais domésticos exóticos da Europa e América.

Ambas venenosas, as duas espécies de cobras também são utilizadas por artistas de circo para apresentações como encantamento de serpentes, beijos em cobras, danças com cobras e enrolamento de cobras ao redor da cintura ou pescoço do artista.

“Não é possível encontrar a Atheris desaixi e a Bitis worthingtoni em nenhum outro lugar do mundo e qualquer pessoa que tiver uma víbora e afirmar que ela veio da Tanzânia ou de Uganda está mentindo”, conta Taylor, acrescentando que a procura é motivada pelo desejo de possuir algo raro. “Essas espécies são como um selo raro pelo qual alguém paga bem caro e quer ficar com ele”, afirma.

É por isso que o Quênia considera ambas as espécies “vulneráveis e com necessidade de proteção especial” desde 2013, quando a Lei de Administração de Animais Silvestres entrou em vigor. Antes disso, não havia limites à quantidade de cobras que podiam ser capturadas ou sobre quais regiões podia ser feita a captura; agora, a única forma de capturar as víboras legalmente é com a permissão do Serviço de Animais Silvestres do Quênia, o órgão responsável pela administração de plantas e animais silvestres do país. Foram implantadas mais proteções em 2016, quando a Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES), tratado que regulamenta o comércio de animais silvestres entre fronteiras, proibiu a comercialização internacional das duas espécies.

Embora se desconheça a população de ambas as espécies, a raridade das cobras parece evidente. Em 2010, Jacob Ngwava, cientista pesquisador do departamento de herpetologia dos Museus Nacionais do Quênia, passou seis meses procurando pela Atheris desaixi. Ele e sua equipe encontraram apenas doze.

Relatos de cientistas nas regiões do Vale do Rift onde vive a Bitis worthingtoni indicam que a espécie agora está mais rara do que nunca: em um levantamento conduzido no Planalto de Kinangop, por exemplo, não apareceu nenhuma, afirma Malonza.

A Atheris desaixi e a Bitis worthingtoni vêm sido anunciadas para venda em pet shops da Europa e América do Norte e em fóruns online a preços mínimos de US$ 1.000,00, de acordo com a proposta de conservação que o Quênia apresentou à CITES em 2016. Em maio de 2017, a página da Internet Mongabay informou que um policial do Serviço Policial Nacional do Quênia estimou que entre 100 e 350 das duas espécies de cobras são contrabandeadas para fora do país todos os anos desde a década de 1980.

Apesar das proteções para as cobras, poucos caçadores foram presos no Quênia, afirma Jim Karani, da WildlifeDirect, ONG de conservação estabelecida em Nairóbi. Os policiais não conseguem detectar bem o contrabando de cobras e, quando confiscadas, não há um local para abrigar e manter os animais, que devem ficar disponíveis como prova para os trâmites judiciais.

Além disso, prossegue Karani, “o problema com a polícia é que ninguém está procurando cobras.” Para dificultar as coisas ainda mais, as cobras podem ser escondidas facilmente e passar despercebidas pelos pontos de controle. É importante, afirma ele, treinar policiais sobre como monitorar áreas de trânsito, como fazer fiscalizações de rotina, como identificar espécies e como manusear cobras quando forem encontradas.

Solomon Kyalo, chefe da implantação da CITES para o Serviço de Animais Silvestres do Quênia, observa que, a cada dois anos, o serviço e os Museus Nacionais do Quênia oferecem a guardas-florestais cursos rápidos de treinamento em répteis, inclusive no manuseio de cobras.

Karani afirma que os guardas-florestais também precisam ser informados sobre a história natural das cobras e seu papel nos ecossistemas. “Os agentes que aplicam a lei da Atheris desaixi não receberam treinamento a ponto de entenderem a importância da cobra no ecossistema do Monte Quênia”, afirma ele. Essa cobra é um predador intermediário que ajuda a manter o ecossistema saudável e equilibrado por se alimentar de roedores e pragas e as pessoas não sabem que ela é encontrada apenas na região do Monte Quênia “e em nenhum outro lugar do mundo”.

Salvação contra o mal

Em vista do temor e horror de cobras entre tantos quenianos, Agnes Pili acha estranho que alguém queira capturá-las ou comprá-las. Ela também não acredita que a caça à cobra seja um problema. “Não entendo por que isso seria uma preocupação”, afirma ela, já que os caçadores de cobras “estão ajudando a sociedade de certo modo.”

Karani afirma que o medo e a superstição em relação às cobras podem impedir prisões e denúncias de caçadores de cobras. Os próprios policiais podem associar as cobras com o mal e procurar evitar qualquer contato com elas.

De acordo com o projeto de monitoramento judicial da WildlifeDirect, que acompanha trâmites judiciais de ações penais referentes a animais silvestres, houve apenas um caso conhecido de uma ação judicial relacionada a cobras no Quênia. A ação ocorreu em 2013, quando um britânico e um cúmplice queniano se declararam culpados da posse de seis cobras Bitis worthingtoni vivas. Os dois não conseguiram explicar por que estavam com as cobras sem a permissão do Serviço de Animais Silvestres do Quênia e para onde pretendiam levá-las. Eles foram condenados a cinco anos de prisão.

“Nós, quenianos, temos que reconhecer que uma cobra é um mero animal silvestre, afirma Royjan Taylor, o chefe da fazenda de cobras. “Ela não é o diabo nem um espírito mau. Se for encontrada onde não deveria, peça ajuda para que a cobra possa ser retirada: da mesma forma que você faria com qualquer outro animal, como um elefante, por exemplo, porque são igualmente importantes e necessitam de extrema proteção.”