Enorme bagre devorador de pombos causa devastação em ecossistemas europeus

O maior peixe de água doce do continente, originário do Leste Europeu, é uma espécie invasora que ameaça peixes nativos já em declínio.

Published 21 de jan de 2021 08:00 BRST
Os siluros, nativos do Leste Europeu, podem alcançar até cerca de três metros de comprimento.

Os siluros, nativos do Leste Europeu, podem alcançar até cerca de três metros de comprimento.

Foto de Stephane Granzotto / NPL / Minden Pictures

A primeira vez em que Frédéric Santoul testemunhou os hábitos alimentares vorazes dos maiores peixes de água doce da Europa, ele estava em uma ponte medieval em Albi, cidade ao sul da França.

Em uma pequena ilha abaixo dele, no rio Tarn, pombos perambulavam, alheios ao grupo de siluros que se movia perto da margem de cascalho. De repente, um peixe saltou da água para a terra, agarra um pombo e causa um alvoroço de penas antes de se lançar de volta ao rio com a ave na boca.

“Sabia que as baleias-assassinas sobem à superfície (para caçar focas), mas nunca havia observado esse tipo de comportamento em peixes”, conta Santoul, ecologista de peixes da Universidade de Toulouse, que passou os meses seguintes documentando o fenômeno.

Na época, há quase uma década, pouco se sabia sobre o siluro (também conhecido como bagre-europeu ou peixe-gato-europeu) no oeste da Europa, onde foi introduzido por pescadores na década de 1970. A espécie, que pode chegar a cerca de três metros de comprimento e pesar até aproximadamente 272 quilos, é nativa do leste da Europa, mas desde então se expandiu para ao menos 10 países no oeste e sul da Europa.

Em seu habitat nativo, onde o animal é pescado e criado para alimentação, o siluro não é considerado uma espécie problemática. No local, as populações parecem ter permanecido relativamente estáveis por décadas, com poucas evidências de predação excessiva de outros peixes nativos.

Contudo, nos rios recém-povoados, esses invasores aquáticos têm como alvo peixes migratórios ameaçados de extinção e comercialmente importantes, como o sável e o salmão-do-atlântico, cujas populações europeias já estão em acentuado declínio, segundo Santoul.

Ele teme que o predador possa exterminar muitas espécies de peixes nativos no oeste da Europa, alterando fundamentalmente os ecossistemas fluviais que já sofrem os impactos de barragens, da poluição hídrica e da pesca predatória.

“Os efeitos cumulativos desses fatores podem levar ao colapso das populações de peixes daqui a 10 anos”, alerta Santoul.

Banquete dos gigantes

Em 1974, um pescador alemão lançou vários milhares de alevinos de siluros no rio Ebro, na Espanha. Outros pescadores, em busca de uma oportunidade de pescar um peixe tão grande, fizeram o mesmo em rios de outros países, e a espécie se multiplicou.

Como muitas espécies invasoras, os siluros se desenvolvem bem em rios alterados por humanos, onde as altas temperaturas da água e os baixos níveis de oxigênio podem ter eliminado as espécies nativas. O siluro também apresenta rápido crescimento, uma longa expectativa de vida (podendo viver até 80 anos) e se reproduz facilmente, já que as fêmeas produzem centenas de milhares de ovos de uma só vez.

Siluros circundam uma pequena ilha no rio Tarn, preparando-se para agarrar pombos desprevenidos.

Foto de Remi Masson / NPL / Minden Pictures

Suas habilidades de caça podem lhes proporcionar uma vantagem formidável. Assim como todos os bagres, os siluros possuem sentidos bastante apurados, sobretudo na detecção de vibrações de presas. Eles também contam com “uma capacidade incrível de adaptação a novas fontes de alimentos”, explica Santoul, que documentou como bagres se alimentam de vôngoles-asiáticos, outra espécie invasora.

O siluro tem como alvo principal os peixes migratórios que se deslocam do mar para os rios para desovar, como o salmão-do-atlântico, que sempre teve poucos predadores; as lampreias-marinhas, peixes primitivos e sem mandíbula ameaçados de extinção na Europa; e o sável, peixe com valor comercial.

Também adotaram novas estratégias de caça nunca observadas em sua área de distribuição nativa, como agarrar pombos em terra firme.

No rio Garonne, na França, o siluro às vezes fica à espreita dentro de um túnel de peixes para capturar e matar o salmão que migra através de uma usina hidrelétrica.

No mesmo rio, os siluros também aprenderam a direcionar a desova do sável na superfície do rio à noite,  quando os peixes estão preocupados em fazer a corte, de acordo com um estudo publicado em novembro de 2020. Uma análise do conteúdo estomacal de mais de 250 siluros revelou que o sável constituía mais de 80% de sua dieta — “um banquete de gigantes”, segundo o estudo.

“Todos esses estudos chegam à mesma conclusão: os siluros se tornaram uma séria ameaça a peixes migratórios importantes”, ressalta Santoul.

Mas, acrescenta ele, há uma espécie que não é prejudicada pelo siluro: a nossa. Apesar da reputação de ser uma fera espantosa de cabeça larga que ataca e até mata humanos, “eles são inofensivos para nós e as pessoas despertam sua curiosidade, por isso podemos até nadar ao seu encontro no rio”, esclarece Santoul.

Uma exceção entre os megapeixes

Existem outros exemplos de peixes grandes e invasores que afetam os ecossistemas de água doce: a perca-do-nilo, cuja introdução como peixe de pesca esportiva no Lago Vitória e em outros lagos da África Oriental na década de 1960 resultou no colapso de ao menos 200 espécies nativas de peixes ciclídeos na década de 1980.

Na maioria das vezes, entretanto, os grandes peixes de água doce estão em declínio, ameaçados por espécies invasoras, pela perda de habitat e pela pesca predatória. Essas espécies, comumente denominadas megapeixes, sofreram um impressionante declínio global de 94% desde 1970, segundo um estudo de 2019.

Por sua capacidade de adaptação e multiplicação, “o siluro é uma exceção entre os megapeixes”, afirma Zeb Hogan, explorador da National Geographic e biólogo especializado em peixes da Universidade de Nevada em Reno, fundador do Projeto Megapeixes e que estuda vários dos grandes peixes de água doce mais ameaçados na região do Mekong no sudeste da Ásia.

Os ecossistemas de água doce como um todo são os mais ameaçados do mundo, e uma das principais razões amplamente reconhecidas para tanto são a introdução de espécies não nativas, afirma Hogan.

 

101 | Espécies invasoras
Saiba como esses organismos são introduzidos em um ecossistema, como afetam as comunidades locais e quais providências podem ser tomadas.

Rio acima

As modificações ecológicas causadas pelas mudanças climáticas, como o aumento das temperaturas e alterações nos padrões de precipitação, podem criar condições ainda mais favoráveis à proliferação dos siluros, segundo os cientistas.

“As mudanças climáticas afetam as espécies de diferentes formas: algumas espécies exóticas podem expandir sua distribuição muito mais do que as nativas”, conta Rob Britton, ecologista de peixes especializado em espécies invasoras da Universidade de Bournemouth, no Reino Unido.

Há evidências de que os siluros, que requerem temperaturas hídricas mínimas de 20 graus Celsius para sua desova anual, estão colonizando rios anteriormente desabitados na Bélgica e nos Países Baixos à medida que esses corpos d’água aquecem, observa Santoul.

Também há sinais de que a desova dos siluros esteja ocorrendo várias vezes por ano na França, já que os rios do país têm ficado mais quentes por períodos maiores do ano, afirma ele.

Na Península Ibérica, onde vivem mais de 40 peixes de água doce inexistentes em qualquer outro lugar, o invasor aquático provavelmente já dizimou uma espécie, afirma Emili García-Berthou, ecologista aquático da Universidade de Girona, na Espanha.

“Acreditamos que o siluro, abundante no tronco principal do Ebro”, o rio onde foi introduzido pela primeira vez, “se disseminará consideravelmente rio acima”.

Poucas soluções

E as soluções permanecem escassas, segundo os conservacionistas. Com um negócio vibrante de pesca esportiva formado em torno do siluro, sobretudo na Espanha e na Itália, parece haver pouca disposição entre os governos e os pesqueiros para eliminar o peixe. Apesar de bastante consumidos no Leste Europeu, nunca foram considerados alimento em outras regiões do continente.

Santoul enfatiza que é preciso maior cooperação entre os países europeus para conservar os ecossistemas de água doce e eliminar as ameaças enfrentadas pelos peixes migratórios, como as barragens. Também não existe nenhuma iniciativa em andamento para erradicar o siluro, diz Santoul.

“Minha preocupação é com as espécies migratórias que já estavam em declínio antes da chegada dos siluros. Se a Europa não coordenar planos de conservação, poderá ser tarde demais para salvá-los”, afirma Santoul.

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