Ave selvagem mais velha do mundo completa 70 anos – por que ela é tão especial?

Wisdom, uma albatroz que sobreviveu a tsunamis, viveu mais que a maioria de seus companheiros e gerou mais de 40 filhotes, está ultrapassando os limites de idade que acreditávamos serem possíveis às aves.

Por KIM STEUTERMANN ROGERS
Publicado 2 de mar de 2021 07:00 BRT
Wisdom, que completou 70 anos neste ano, choca ovo no Refúgio Nacional de Vida Selvagem de ...

Wisdom, que completou 70 anos neste ano, choca ovo no Refúgio Nacional de Vida Selvagem de Atol Midway, em novembro de 2020.

Foto de Jon Brack / Friends of Midway Atoll NWR / USFWS

KAPA’A, HAVAÍ | Ela poderia ser qualquer uma dos um milhão de albatrozes-de-laysan que retornam a cada outono ao Refúgio Nacional de Vida Selvagem de Atol Midway, um arquipélago de três pequenas ilhas formadas por recifes de corais no norte do Pacífico. Nesse refúgio, mais de 1,6 mil quilômetros ao norte de Honolulu, no Havaí, dezenas de aves marinhas de cor branca brilhante pontilham os campos expostos das ilhas, cada uma sobre um único ovo do tamanho de uma lata de refrigerante. Tanto os machos quanto as fêmeas apresentam as mesmas manchas pretas nos olhos e asas de cor marrom-chocolate, com envergadura de até dois metros.

Mas uma ave se destaca: Wisdom. Portando a anilha vermelha Z333 no tornozelo, ela completa no mínimo 70 anos neste ano, a ave silvestre mais velha conhecida da história.

“Sempre dou um suspiro de alívio quando Wisdom aparece”, afirma Jon Plissner, biólogo do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos que estuda a longevidade dos albatrozes em Midway.

Os cientistas já conhecem Wisdom muito bem. Sabem que ela foi anilhada em 1956, como parte de um projeto de pesquisa em longo prazo que identificou mais de 260 mil albatrozes individualmente desde o fim da década de 1930. Eles conhecem seu local de nidificação favorito. E sabem que ela botou um ovo no fim de novembro do ano passado, assim como fez ao menos em oito dos 11 últimos anos, e que esse ovo eclodiu em um filhote fofo em 1º de fevereiro.

Mas ainda há muito sobre Wisdom e sua espécie que os cientistas desconhecem, a começar por uma pergunta óbvia: por quanto tempo ela pode viver?

“Não fazemos a mínima ideia”, afirma Plissner. “Também não sabemos se ela é uma exceção. Ela é provavelmente a ave mais velha da qual temos conhecimento.”

Sylvia Earle, Exploradora Residente da National Geographic, senta-se ao lado de Wisdom na Ilha Sand, parte do Atol Midway, em janeiro de 2012. Earle é uma pesquisadora pioneira de ecossistemas marinhos.

Foto de Susan Middleton

Nos últimos 15 anos, Plissner e sua equipe colocaram anilhas em filhotes de albatroz-de-laysan e registraram os números das anilhas de albatrozes em nidificação em uma área de 2,5 mil metros quadrados, dados que um dia fornecerão mais informações sobre expectativa de vida. O desafio, segundo ele, é que os albatrozes têm uma vida tão longa que podem facilmente viver mais que os pesquisadores.

Foi o que ocorreu com Wisdom. Chandler Robbins, biólogo do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos que a anilhou, morreu em 2017 aos 98 anos.

Uma ave sábia

Também é provável que Wisdom tenha mais de 70 anos; em 1956, uma estimativa conservadora atribuía a ela 5 anos, a idade mais precoce em que um albatroz-de-laysan pode atingir a maturidade sexual.

Em 2002, Robbins retornou a Midway e notou um albatroz com uma anilha desgastada que precisava ser substituída. Logo teve duas surpresas: ele havia feito a anilhagem da ave em 1956 e, aos 51 anos, ela era uma recordista. Os biólogos da época estimavam que o tempo de vida de um albatroz-de-laysan seria de 40 anos.

Por enfrentar durante tantos anos os perigos letais de ser um albatroz – tubarões e tsunamis perigosos, para citar apenas alguns exemplos – além das ameaças mais recentes representadas pela humanidade, como o aquecimento dos mares devido às mudanças climáticas, a poluição por plásticos e as linhas de pesca, ela recebeu o nome de Wisdom, que significa sabedoria em inglês.

Desde então, Wisdom se tornou a queridinha da internet, tanto em sua ilha natal quanto fora. No Havaí, o albatroz-de-laysan, conhecido como mōlī, ocupa um lugar de destaque na cultura indígena como um símbolo do deus Lono, que representa a chuva e a agricultura.

Sua fama chamou a atenção para os perigos enfrentados por aves marinhas e pelos albatrozes-de-laysan em especial, afirma Beth Flint, bióloga do Serviço de Pesca e Vida Selvagem em Honolulu.

“Ela é uma ave com uma longevidade comparável à humana”, destaca Flint. “Acredito que sua maior contribuição seja o interesse que despertou nas pessoas, atraindo-as para a ciência.”

Mãe discreta

Todo outono no Hemisfério Norte, quando o albatroz-de-laysan retorna a Midway após meses no mar para começar sua próxima temporada de reprodução, o céu acima das ilhas, antes relativamente vazio, fica repleto de aves sobrevoando as lagoas azul-turquesa, com as asas longas e delgadas estendidas.

Aproximadamente 70% da população global de albatrozes-de-laysan, estimada em 1,6 milhão de indivíduos, fazem seus ninhos em Midway, uma base militar da Segunda Guerra Mundial com pouco mais de cinco quilômetros quadrados, transformada em refúgio nacional da fauna silvestre. Os biólogos contaram cerca de 492 mil ninhos em 2020, um aumento discreto em relação ao ano anterior.

Cada casal de albatrozes-de-laysan faz um ninho profundo na terra raspando galhos, folhas e areia em um círculo de aproximadamente um metro de diâmetro. Depois que a fêmea bota um único ovo, o casal divide as tarefas como pais, revezando-se durante dias e semanas para alimentar o filhote com uma pasta regurgitada de peixes e lulas.

O filhote mais novo de Wisdom, que eclodiu em 1º de fevereiro, acaricia seu pai e atual companheiro de Wisdom, Akeakamai.

Foto de Jon Brack / Friends of Midway Atoll NWR / USFWS

Os filhotes voam pela primeira vez para o mar no auge do verão e só retornam à terra em três a cinco anos. Depois, partem e voltam repetidamente por mais alguns anos, realizando elaboradas danças do acasalamento em busca de um companheiro, com quem constituirão um relacionamento de longo prazo.

Wisdom também viveu mais que seus diversos companheiros. Sua personalidade, segundo Plissner, é bastante discreta, exatamente o que seria esperado de uma mãe experiente que botou mais de 40 ovos durante sua vida.

“Ela passa muito tempo dormindo no ninho”, conta Plissner. “Tivemos que colocar uma marca distintiva nela, pois ela não se sobressai na multidão de aves e, do contrário, passaria despercebida na comunidade de albatrozes.”

Preocupações com albatrozes

Uma preocupação recente para o albatroz-de-laysan em Midway são os camundongos invasores, que atacam e ferem adultos que estão incubando seus ovos. Os biólogos do Serviço de Pesca e Vida Selvagem esperam erradicar esses camundongos, como fizeram com os ratos, mas é uma tarefa complexa.

A poluição também é um problema; pedaços pontiagudos de plástico, dos quais toneladas acabam no Pacífico todos os anos, podem perfurar as vísceras de uma ave e matá-la.

Mas o albatroz tem uma possível vantagem biológica sobre as demais aves marinhas: sua dieta é rica em lulas, que possuem um bico feito de quitina, uma substância considerada por Flint como um “plástico da natureza”. O albatroz pode vomitar os bicos das lulas – e fragmentos plásticos – expelindo algo denominado pelota ou bolo alimentar.

Mesmo assim, ainda não são conhecidos os demais efeitos do plástico sobre o albatroz-de-laysan, listado pela União Internacional para a Conservação da Natureza como quase ameaçado de extinção, segundo especialistas.

E, à medida que o norte do Pacífico aquece e acidifica, essas mudanças também podem afetar as populações de lulas e demais presas de albatrozes. É possível que as populações de lulas entrem em declínio ou mudem de região, o que poderia afetar o suprimento de alimento das aves, afirma Flint.

Mais conhecimento

Para enfrentar melhor as ameaças e conservar a espécie em longo prazo, os cientistas precisam de mais dados sobre o albatroz-de-laysan e seus comportamentos.

É fácil estudar aves marinhas quando estão em terra firme: são grandes, fazem ninhos no solo e não se escondem. Mas elas passam mais tempo no mar, longe dos olhos curiosos dos pesquisadores.

É aí que entram em cena as novas tecnologias. Atualmente, biólogos utilizam uma variedade de etiquetas equipadas com transmissores via satélite presas à parte de trás das penas das aves ou às anilhas em volta de seus tornozelos que fornecem dados específicos sobre o destino das aves.

Essas etiquetas revelaram que albatrozes-de-laysan, na época de reprodução, se alimentam bem longe das ilhas havaianas, às vezes tão ao norte quanto as ilhas Aleutas, no Alasca, afirma Rob Suryan, ecologista marinho que estuda aves marinhas no Centro de Ciências da Pesca no Alasca, da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos, em Juneau, Alasca.

“O que faria de Wisdom um modelo notável a ser utilizado em prol da preservação das aves marinhas seria determinar a que distância ela voa em busca de alimento para seu filhote”, conta Suryan.

Algumas etiquetas possuem até acelerômetros, que podem registrar a mecânica do voo — as batidas de asa, a velocidade e duração do voo, observa ele. Esses dados revelaram, entre outros aspectos, como as aves conseguem sobrevoar o oceano com eficiência por períodos tão longos.

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Wisdom, o mais velho albatroz que se tem conhecimento, vai ser mãe mais uma vez.

Outro grande mistério é o que acontece com um filhote de albatroz depois de deixar o ninho, afirma Suryan. Será que ele volta à mesma colônia de seus pais, por exemplo?

Esses dados podem proporcionar “um olhar interessante sobre a vida dessas aves que sempre me intrigaram”, conta ele.

O Show de Wisdom

Suryan não é o único fascinado por albatrozes – pessoas de mais de 190 países assistiam ao AlbatrossCam, programa de transmissão on-line ao vivo do Laboratório Cornell de Ornitologia em Kauai, transmitido entre 2014 e 2018.

“Wisdom expande os horizontes da nossa imaginação sobre as possibilidades do mundo natural, e há tanto mais para descobrir”, afirma Charles Eldermire, líder do projeto de câmeras de observação de aves do Laboratório Cornell. “E isso nos enche de esperança.”

Como uma celebridade internacional, Wisdom também é a candidata perfeita para ter sua própria webcam. Plissner explica que, infelizmente, a internet na ilha Midway é extremamente lenta. A melhor alternativa seria instalar uma câmera ativada por movimento que poderia ser programada para tirar uma foto ou fazer um vídeo curto aproximadamente a cada 15 minutos.

“A possibilidade está em discussão”, conta Plissner. “Acredito que será tomada uma decisão no próximo ano.” Mais um motivo para torcer pela longevidade de Wisdom.

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