Estas abelhas sem ferrão produzem mel medicinal e geram renda na Amazônia

As abelhas nativas sem ferrão contribuem com apicultores e suas comunidades na produção de mel e na polinização de culturas agrícolas na Amazônia peruana.

Abelhas sem ferrão, também conhecidas como meliponíneos, cercam um pote de mel no interior de suas colmeias. O mel produzido por esses insetos é utilizado na cicatrização de feridas e no tratamento de infecções – e oferece alívio econômico a apicultores na Amazônia peruana.

Foto de Ana Elisa Sotelo
Publicado 11 de abr. de 2022 12:46 BRT

As abelhas sem ferrão possuem diversas cores. Elas podem ser douradas, totalmente pretas ou com listras amarelas e cor de canela. Os olhos podem ser pretos arredondados, cinza-ardósia ou até verde-azulados; os corpos podem ser tão pequenos quanto lentilhas ou tão grandes quanto uvas. Mas o mais incrível sobre as abelhas sem ferrão é o mel que elas produzem, cada vez mais procurado para alimentação e fins medicinais.

Na Amazônia peruana, a criação de algumas das 175 espécies diferentes de abelhas sem ferrão da região está apenas começando – uma atividade promissora para apicultores e suas comunidades.

Historicamente, esse mel normalmente é extraído na natureza, o que destrói as colmeias. Contudo, nos últimos anos, cientistas como Cesar Delgado, do Instituto de Pesquisa da Amazônia Peruana (IIAP, na sigla em espanhol), passaram a ensinar sobre a criação e o manejo sustentável dos insetos.

Rosa Vásquez Espinoza, bioquímica e Exploradora da National Geographic, atua em parceria com Delgado e colegas para compreender melhor as abelhas, a flora que polinizam e as substâncias bioquímicas do mel medicinal por elas produzido.

Além do fascínio pelos próprios insetos e por seus produtos, Espinoza também busca promover os benefícios proporcionados às comunidades que criam abelhas sem ferrão – muitas duramente atingidas pela pandemia de covid-19.

“As abelhas sem ferrão estão recuperando a Amazônia”, afirma Espinoza, por prover renda, mel medicinal e polinização a uma região carente.

À esquerda: No alto:

Heriberto Vela Córdova, proprietário rural de São Francisco, no Peru, abre uma colmeia de abelhas sem ferrão em sua propriedade. Os apicultores criam esses insetos em caixas de madeira que permitem a retirada do mel com o mínimo de dano às colônias.

À direita: Acima:

A bioquímica Rosa Vásquez Espinoza segura urucum, utilizado como corante natural na culinária e no tratamento da prisão de ventre. Assim como muitas outras plantas nativas, algumas com importância comercial, o urucum é polinizado por abelhas sem ferrão.

fotografias de Ana Elisa Sotelo

Líquido milagroso

Há uma longa e rica história do uso do mel como remédio, especialmente na antiguidade. Alguns registros indicam que o mel era utilizado como bálsamo, substância psicoativa, inebriante, ou como veneno. Diversos estudos contemporâneos sugerem que o mel de abelhas comuns e de abelhas sem ferrão possuem propriedades antimicrobianas, anti-inflamatórias e cicatrizantes.

O mel produzido pelas abelhas sem ferrão apresenta compostos químicos que evitam o crescimento microbiano e fúngico, uma adaptação para evitar que a substância estrague nos trópicos. Diante da ampla biodiversidade da flora na Amazônia e a incrível variedade de compostos químicos botânicos misturados pelas abelhas no mel e na cera, também não é surpresa que tenham valor medicinal. Aliás, alguns chamam esse mel de “líquido milagroso”.

Nos trópicos, diversos tipos de méis de abelhas sem ferrão e ceras de suas colmeias são utilizados para tratar infecções no trato respiratório superior, problemas de pele, problemas gastrointestinais e até mesmo para tratar diabetes e câncer. Embora pesquisas tenham começado a fornecer evidências de confirmação de alguns desses usos, grande parte ainda é preliminar. Mais estudos sobre as propriedades medicinais do mel são urgentemente necessários, afirma David Roubik, especialista em abelhas sem ferrão do Instituto Smithsonian de Pesquisa Tropical, no Panamá.

Abelha-sem-ferrão se alimenta na planta araçá-boi. O mel de abelhas que polinizam o araçá-boi apresentaram evidências preliminares de propriedades anticancerígenas.

Foto de Ana Elisa Sotelo

“O mel é utilizado para alimentação e por suas propriedades medicinais”, afirma Heriberto Vela Córdova, apicultor de São Francisco, Peru, que integra a comunidade indígena Kukama-Kukamiria. “Na alimentação, acrescentamos o mel ao café e ao pão. Na medicina, é utilizado como remédio contra bronquite, pneumonia, queimaduras, cortes na pele, resfriados e artrite.” 

Magos da floresta

Por milhares de anos, os povos indígenas nos trópicos americanos extraíram mel de dezenas de espécies de abelhas sem ferrão, também conhecidas como meliponíneos. Esses insetos sociais formam colônias com uma rainha e muitas operárias. Como o nome sugere, elas não ferroam e, portanto, criá-las é menos perigoso do que, por exemplo, abelhas-europeias não nativas das Américas. Muitos meliponíneos podem, entretanto, infligir mordidas dolorosas com suas mandíbulas.

Como há muitas espécies de abelhas sem ferrão em todos os trópicos e subtrópicos do mundo, a criação desses animais, também conhecida como meliponicultura, pode ser complexa. Além dos maias, que desenvolveram métodos sofisticados para criação de abelhas sem ferrão na Península de Yucatán (práticas que resistem até hoje), muitos povos indígenas coletam mel diretamente de colmeias por métodos tradicionais.

No Brasil, a meliponicultura possui ampla distribuição geográfica, está mais sofisticada e se populariza cada vez mais, porém, no Peru, a prática apenas começa a ser desenvolvida e expandida, segundo Breno Freitas, pesquisador da Universidade Federal do Ceará.

Ao menos uma centena de famílias em metade dos estados da Amazônia peruana criam e mantêm criações de abelhas sem ferrão hoje, muitas das quais Delgado auxiliou com treinamento. Ele ensina a criar abelhas sem ferrão em caixas retangulares que permitem fácil acesso ao mel, que, ao contrário das demais abelhas, não são mantidas em favos comuns, mas em compartimentos esféricos, os potes de mel. A apicultura permite que criadores dividam os ninhos e obtenham uma fonte de renda estável, em vez de depender da extração de mel (e de abelhas) da floresta, o que é prejudicial a esses polinizadores vitais, observa Roubik.

As abelhas sem ferrão costumam ser mais seletivas do que as abelhas comuns em relação à vegetação que polinizam. Em suas regiões de origem – onde as abelhas devem ser criadas, segundo Freitas – são mais especializadas na polinização de plantas nativas, o que faz delas peças importantes do ecossistema. Elas também ajudam na agricultura. Um estudo conduzido em 2020, de coautoria de Delgado, concluiu que, quando mantidas próximas a plantações, as abelhas sem ferrão podem contribuir com um aumento de quase 50% na produção do camu-camu, fruta nativa da Amazônia. 

Na mata 

Delgado, Espinoza e a fotógrafa Ana Elisa Sotelo visitaram Córdova e sua família em dezembro de 2021 para saber mais sobre a criação de 40 colônias de abelhas na propriedade, que incluem seis diferentes espécies nativas produtoras de mel. Uma das espécies é a Melipona eburnea, também conhecida como uruçu-beiço.

Enquanto observava as colmeias, Sotelo se lembra das abelhas voando em torno de suas cabeças, “com batidas rápidas de asas, zumbindo e pousando inofensivamente em nossos corpos”. Os filhos de Córdova coletam plantas medicinais, como ramos de sangue-de-dragão, cujos extratos são utilizados para tratar diarreia, diabetes e infecções; as abelhas usam essa resina para construir suas colmeias. Eles também examinaram o urucum vermelho, utilizado como corante e para tratar prisão de ventre, e o camu-camu, fruta de sabor delicioso, conta Espinoza, atualmente bolsista de pós-doutorado na Universidade de Michigan, Estados Unidos. As abelhas polinizam todas essas plantas.

À esquerda: No alto:

Larva de abelha sem ferrão dentro de ninho. Estas larvas não se desenvolveram bem e em breve serão removidas por operárias incansáveis.

À direita: Acima:

Uma abelha operária se prepara para sair do ninho e buscar alimento. As abelhas sem ferrão normalmente são retiradas da floresta para serem criadas, mas pesquisadores estão incentivando a meliponicultura sustentável, que minimiza (ou elimina) a exploração de abelhas na natureza.

fotografias de Ana Elisa Sotelo

Córdova prefere abelhas sem ferrão às demais abelhas por diversos motivos. “É mais fácil criar abelhas nativas – são mais dóceis, pois não ferroam”, conta ele. “O mel é de maior qualidade devido às suas propriedades curativas e, ao contrário das demais abelhas, as abelhas nativas constroem seus potes com a cera produzida por elas e com resina extraída das árvores, algumas das quais são conhecidas por serem medicinais, como a resina das árvores sangue de dragão”, que é aplicada em feridas.

Durante a visita a Córdova, Espinoza coletou algumas amostras de mel e pretende voltar ao Peru para coletar mais. Futuramente, ela planeja estudar a composição química e microbiana de diversos tipos de mel e “está interessada em analisar o microbioma das próprias abelhas”, afirma ela. Ela também quer identificar todas as plantas das quais as abelhas se alimentam.

“Explorar 600 espécies de abelhas sem ferrão oferece infinitas oportunidades novas de descobertas sobre seu comportamento, a identificação de materiais medicinais na natureza; o processamento no ninho, a escolha de associações com micróbios; e o fornecimento de mel, pólen e própolis farmacêuticos”, uma substância semelhante à resina produzida pelas abelhas, afirma Patricia Vit, pesquisadora de abelhas sem ferrão da Universidade dos Andes, na Venezuela.

A família Córdova é uma das muitas famílias que consomem um pouco de mel e vendem o restante: normalmente consomem 20 garrafas de mel e vendem 30 por ano nos mercados da região.

Essa renda tão necessária – bem como os benefícios no uso medicinal – ajudou as famílias a enfrentar a pandemia. É apenas uma das maneiras pelas quais as abelhas ajudam a “preservar a vida e a saúde da floresta e de seu povo”, afirma Sotelo.

A humanidade conhece pouco sobre o potencial das abelhas sem ferrão podem oferecer, observa Vit. Pesquisas futuras sobre o valor bioquímico e medicinal desse mel são de extrema importância, comenta Roubik. “Ainda se desconhece muito sobre as propriedades medicinais do mel de abelhas sem ferrão.”

A National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho da exploradora Rosa Vásquez Espinoza.

Saiba mais sobre o apoio da Sociedade aos Exploradores, destacando e protegendo espécies críticas.

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