As aranhas sonham? Novo estudo sugere que sim

Aranhas-saltadoras movem os olhos com rapidez e se contorcem durante o repouso, características que sugerem que estão tendo sonhos visuais, algo nunca antes observado em aracnídeos.

Aranha-saltadora (Evarcha arcuata) em meio a flores. Aparentemente, esses aracnídeos podem ter sonhos visuais – e talvez até pesadelos.

Foto de Stephen Dalton Minden Pictures
Por Elizabeth Anne Brown
Publicado 10 de ago. de 2022 18:25 BRT

Aranhas-saltadoras movem os olhos com rapidez e se contorcem durante o repouso, características que sugerem que estão tendo sonhos visuais, algo nunca antes observado em aracnídeos.

Para Daniela Rößler, ecologista da Universidade de Konstanz, na Alemanha, pesquisa “em campo” normalmente significa uma viagem à remota Amazônia brasileira. Mas durante o período de isolamento provocado pela pandemia do coronavírus, em 2020, o único trabalho em campo possível foi em um pedaço de grama perto de sua casa, na cidade alemã de Trier.

Rößler (pronuncia-se RUES-slur) logo ficou encantada com as pequenas aranhas-saltadoras que encontrou. Após o anoitecer, alguns desses aracnídeos, do tamanho da unha de um dedo mindinho, recolhiam-se para pequenos casulos de seda chamados “retiros”. Ela também encontrou outras aranhas imóveis, penduradas de cabeça para baixo em um único fio de seda, com as pernas bem enroladas – mas que ocasionalmente se moviam. 

“A maneira como elas se contorcem me fez pensar em cães e gatos sonhando”, comparou Rößler. 

Em pouco tempo, Rößler montou um berçário para aranhas bebês em seu laboratório, a fim de observar seus comportamentos durante o sono. Sua nova pesquisa, publicada em 8 de agosto no periódico Proceedings of the National Academy of Science, revela que as aranhas-saltadoras assumem um estado semelhante ao sono, com movimentos oculares rápidos, assim como o observado em humanos enquanto sonham.

As pernas de uma aranha-saltadora se contorcem e se enrolam durante o repouso, como visto na imagem, durante um estado semelhante ao sono REM.

Foto de of Daniela C. Rößler

O chamado sono REM, sigla em inglês para “movimento rápido dos olhos”, também caracterizado por relaxamento muscular e mudanças na atividade elétrica no cérebro, é considerado fundamental para a consolidação da memória e é possível que contribua para o desenvolvimento de importantes habilidades de sobrevivência. Confirmar o sono REM em aranhas-saltadoras pode mudar o que sabemos sobre a evolução dessa espécie – até hoje, o sono REM foi identificado apenas em animais com espinha dorsal (répteis, aves, peixes e na maioria dos mamíferos). 

“A inteligência das aranhas” – e os sonhos desses aracnídeos – “provavelmente são, em muitos aspectos, completamente diferentes dos nossos”, salienta Nate Morehouse, professor associado da Universidade de Cincinnati, nos Estados Unidos. Ele estuda a visão e o processo de tomada de decisão em aranhas-saltadoras e não participou do estudo. “Mal posso esperar para descobrir o que este novo estudo possibilitará compreender sobre esses animais, em seus próprios termos.” 

Os olhos das aranhas  

Não é possível realizar uma tomografia cerebral em uma aranha da mesma forma que em humanos ou outros animais maiores. Também não é possível perguntar a ela como foi seu sono. Contudo, no caso de aranhas bebês, é possível observar dentro de suas cabeças. 

Nos primeiros dez dias de vida das aranhas-saltadoras, também chamadas de papa-moscas, elas ainda não desenvolveram pigmento no exoesqueleto que cobre suas minúsculas cabeças, um espaço quase inteiramente dedicado aos globos oculares.  São basicamente “retinas ambulantes”, brinca Morehouse.   

Seis olhos menores, muito sensíveis ao movimento, fornecem uma visão monocromática do mundo em 360 graus, ao passo que os olhos principais – “grandes, redondos e fofos” – fornecem visão de alta resolução com acuidade semelhante à de um gato doméstico, explica Morehouse. Embora os globos oculares da aranha sejam fixos e não girem como os nossos, as retinas em formato de bumerangue se movem na parte de trás dos olhos principais, alternando seu campo de visão. 

Em seu laboratório, com uma lupa e uma câmera de visão noturna, Rößler começou a gravar os filhotes cochilando para aprender sobre seus hábitos de sono. Ela se concentrou nos movimentos dos olhos e do corpo das aranhas, que fornecem sinais sobre o que acontece enquanto elas repousam. 

Rößler logo descobriu que os indivíduos apresentavam períodos de movimento rápido da retina, que aumentavam em duração e frequência ao longo da noite, durando cerca de 77 segundos e ocorrendo aproximadamente a cada 20 minutos. Foi durante esses períodos semelhantes ao REM que Rößler observou movimentos corporais descoordenados – o abdômen tremia e os animais enrolavam e desenrolavam as patas.

As fiandeiras dos filhotes, órgãos na extremidade do abdômen responsáveis pela produção da seda, “enlouqueciam” de tempos em tempos, conta Rößler. De acordo com as contrações rítmicas das patas de um filhote adormecido, as aranhas pareciam estar “praticando” um de seus comportamentos de vigília. 

Embora as aranhas-saltadoras não façam teias, “elas deixam pequenas âncoras de seda por onde passam”, explica a pesquisadora. “Elas nunca andam por aí sem deixar um rastro de seda para o caso de precisarem de uma linha de apoio ao saltarem, um tipo de corda de segurança.” Morehouse aponta que uma das principais teorias sobre o sono REM é que ele permite que os animais aprimorem habilidades essenciais de sobrevivência.

“Ocasionalmente, realizam movimentos que somente podem ser explicados com base na teoria de que tiveram um pesadelo”, relata Rößler. Elas estão penduradas e imóveis, as patas enroladas de forma ordenada quando, de repente, “todas as pernas se estendem ao mesmo tempo, como se estivessem levando um susto!”. 

Também eram observados períodos de movimento coordenado, quando as aranhas paravam para se espreguiçar, ajustar a linha de seda em que estavam penduradas ou se limpar. A julgar pela falta de movimento da retina, parece que as aranhas despertavam brevemente apenas para se ajeitarem de maneira confortável antes de voltarem a dormir. 

Dormir e talvez sonhar?  

Rößler ressalta que ainda é preciso provar que esse período de inatividade em aranhas pode ser tecnicamente considerado sono. Para isso, diversos requisitos precisam ser atendidos – incluindo demonstrar que as aranhas têm dificuldade para despertar, ou que são mais lentas para responder a estímulos, e precisam de “sono de recuperação” quando não dormiram o suficiente. 

A partir das observações que Rößler fez ao ar livre, “as aranhas parecem realmente ser capazes de distinguir o que é uma interferência real” e o que não é, conta. Se, por exemplo, houver uma “vibração na vegetação ou na seda – elas reagem imediatamente”, observa. Mas quando está ventando, elas continuam penduradas balançando com a brisa “e simplesmente não se importam”.

Os cientistas estão confiantes de que todos os animais dormem, embora a maneira como fazem isso possa variar muito. Em algumas aves e mamíferos marinhos, apenas metade do cérebro adormece por vez, enquanto os animais que hibernam podem dormir quase continuamente por semanas ou meses. Definir “sonhar” é ainda mais desafiador – mas os períodos de descanso do tipo REM implicam que os animais têm sonhos visuais. 

Saltando para aprender   

Outros pesquisadores de aranhas-saltadoras descreveram o estudo de Rößler como empolgante. “Foi uma ideia inteligente, com métodos relativamente simples e um resultado significativo”, opinou Alex Winsor, doutorando na Universidade de Massachusetts Amherst, nos EUA, que pesquisa a visão das aranhas-saltadoras. Ele e sua orientadora, Beth Jakob, que estuda aranhas-saltadoras há décadas, dizem que estão ansiosos para entrar em contato com Rößler e trocar ideias sobre estudos de acompanhamento.  

“Estamos interessados em saber se elas respondem a estímulos visuais” durante esse estado de sono, disse Jakob – afinal, elas não têm pálpebras. Winsor já está desenvolvendo um sistema para monitorar a atividade cerebral em aranhas-saltadoras, o que pode fornecer ainda mais evidências de que elas são capazes de sonhar. 

“Utilizo um único eletrodo de tungstênio – um fio muito fino” colocado em suas cabeças para detectar atividade elétrica, conta Winsor. A equipe também planeja combinar isso a um procedimento realizado anteriormente para monitorar os movimentos da retina em aranhas que assistiam a pequenas TVs. 

Aranhas-saltadoras como a Evarcha arcuata, a espécie apresentada no estudo, são encontradas em toda a Eurásia e são as mais excêntricas da classe dos aracnídeos por serem tão visuais. Embora se recolham ao anoitecer por não conseguirem enxergar bem o suficiente à noite para caçar, aranhas de outras famílias são mais propensas a “cochilar”, com breves períodos de inatividade ao longo do dia e da noite. 

Aranhas de outras espécies geralmente têm uma visão muito mais restrita e dependem da detecção de movimento em sua teia para perceber o mundo ao seu redor. Desta forma, são necessários mais estudos para obter informações sobre o sono delas.  “Talvez elas estejam sonhando [em] vibrações”, observa Rößler. 

Embaixadores de aracnídeos

Com quase seis mil espécies na família Salticidae espalhadas por todos os continentes, exceto a Antártida, é provável que exista uma aranha-saltadora no seu quintal ou no seu quarteirão. 

Aranhas da família Salticidae representam uma “boa forma de conhecer” os aracnídeos, diz Rößler. Elas têm olhos expressivos e enormes, como um personagem de desenho animado, diferentes cores e elaboradas danças de acasalamento. Há uma próspera comunidade de criadores de aranhas-saltadoras no TikTok e no YouTube – alguns dos quais já foram aracnofóbicos. 

Aranhas da família Salticidae podem tomar decisões estratégicas, pensar no futuro, contar, e – possivelmente – sonhar. Morehouse diz que as pessoas muitas vezes ficam tanto intrigadas quanto mais tranquilas ao aprender sobre as habilidades cognitivas das aranhas-saltadoras – isso torna esses animais menos estranhos, mas também mais dignos de respeito ou empatia. 

“Se elas sonham, o que podemos fazer? Não podemos esmagar uma aranha que sonha”, conclui Rößler.

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