Encontrados os mais antigos vestígios das abelhas modernas na Argentina

As tocas de 100 milhões de anos confirmam que a diversificação das abelhas acompanhou as primeiras plantas floríferas.segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

A DESCOBERTA de um novo fóssil causou alvoroço entre paleontólogos: os ninhos primitivos confirmam que as abelhas estavam vivas e em boas condições de saúde na Patagônia há 100 milhões de anos, constituindo as evidências fósseis mais antigas das abelhas modernas.

Os ninhos, descritos recentemente no periódico PLOS ONE, são formados por túneis repletos de alvéolos semelhantes a um cacho de uva, onde as larvas das antigas abelhas poderiam se desenvolver sem serem perturbadas. Os únicos insetos que atualmente constroem ninhos dessa maneira pertencem à família Halictidae, um grupo global e altamente diverso de abelhas, também conhecido como halictídeos. Alguns halictídeos modernos constroem ninhos no solo quase iguais às tocas dos fósseis recém-encontrados.

Como é improvável que algum animal desconhecido tenha construído o ninho com a mesma arquitetura, os pesquisadores estão confiantes de que os halictídeos construíram os ninhos fossilizados, preservados em rochas formadas entre 100 e 105 milhões de anos atrás. Os ninhos são ao menos vários milhões de anos mais antigos do que os ninhos de abelhas mais antigos conhecidos anteriormente, formados entre 94 e 97 milhões de anos atrás, e são ainda mais antigos do que o fóssil mais antigo de um corpo definido de abelha encontrado, com provavelmente 72 milhões de anos, no máximo.

A descoberta acrescenta detalhes cruciais à história evolutiva das abelhas, um dos grupos polinizadores mais importantes, e ajuda a confirmar que as abelhas e algumas das primeiras plantas floríferas se diversificaram conjuntamente entre 110 e 120 milhões de anos atrás, durante o início do Cretáceo.

“Os fósseis fornecem ainda mais informações sobre esse período... [e] é impressionante por serem de um tipo secundário, é como ganhar na loteria”, afirma  Phil Barden, biólogo evolucionário do Instituto de Tecnologia de Nova Jersey, que não participou do estudo.

Explorando o passado

Descobertas de fósseis geralmente lembram imagens de esqueletos ou dos contornos de corpos de animais mortos há muito tempo. Mas muitos outros vestígios de vida primitiva podem persistir até os dias atuais, como pegadas, ninhos, tocas e até restos de excrementos (conhecidos como coprólitos). Essas estruturas preservadas, chamadas de vestígios fósseis, encerram em si momentos congelados no tempo e é comum revelarem aos cientistas muito sobre o comportamento de animais extintos.

“O fóssil de um corpo é como um retrato. Já um vestígio fóssil é um filme completo”, afirma Jorge Fernando Genise, autor principal do estudo, paleontólogo do Museu de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia, em Buenos Aires, por e-mail. “É possível 'enxergar' os insetos em movimento, cavando, visitando flores [e] construindo muros.”

Quando Genise era pequeno, era fascinado por vespas e, desde então, literalmente escreveu um livro sobre como estudar insetos pré-históricos a partir de vestígios fósseis remanescentes. Seu enfoque principal é o período Cretáceo, quando surgiram ou se diversificaram a maioria dos insetos que deixam vestígios preserváveis.

Em 2015, Genise e seus colegas visitaram a Formação Castillo, um conjunto de afloramentos rochosos no sul da Argentina formado entre 100 e 105 milhões de anos atrás, em busca de antigos ninhos de insetos. Chegar ao local não foi tarefa fácil. Durante o dia, o sol forte e o vento castigam a região deserta e interminável da Patagônia e, à noite, as temperaturas caem para um frio cortante. “Assim, o trabalho de campo é bastante difícil, mas, ao mesmo tempo, vale a pena, sobretudo quando se encontra um tesouro científico escondido nas rochas, disponibilizando-o para a ciência”, conta Genise.

Enquanto a equipe caminhava ao longo de um penhasco, o membro da equipe J. Marcelo Krause, paleontólogo do Museu Paleontológico Egidio Feruglio, na Argentina, avistou uma estrutura que se projetava das rochas: era o ninho fossilizado de halictídeos. Em homenagem a Krause por sua descoberta e a suas contribuições na área, Genise e sua equipe batizaram o ninho fossilizado de Cellicalichnus krausei.

A equipe de Genise voltou ao local em 2017 e coletou o máximo possível de fósseis, inclusive outras evidências de besouros e vespas. Também foram analisados dados químicos para compreender melhor os solos antigos que as abelhas escolhiam para construir seus lares subterrâneos. Tudo indica que os insetos construíam ninhos em áreas de várzea, em solos formados a partir de cinzas vulcânicas relativamente novas.

União de genes e fósseis

A equipe de Genise também desenvolveu um novo modelo de árvore genealógica para as abelhas, combinando o DNA de 64 espécies de abelhas modernas com os ninhos fossilizados recém-encontrados e descobertas fósseis anteriores. O DNA pode gerar, por si só, árvores genealógicas úteis, mas pode ser uma tarefa complexa estimar a época em que vários grupos viveram e se afastaram uns dos outros. Ao analisar conjuntamente os dados dos fósseis, Genise e seus colegas conseguiram reduzir os períodos mínimos em que viveram alguns grupos de abelhas e os novos ninhos fossilizados revelaram que a evolução dos halictídeos ocorreu há mais de 100 milhões de anos.

O modelo mostra que as atuais abelhas começaram a se diversificar em um ritmo vertiginoso há cerca de 114 milhões de anos, exatamente a época em que teve início a ramificação das eudicotiledôneas — o grupo de plantas que compreende 75% das plantas que produzem flores. Os resultados, que confirmam alguns estudos genéticos anteriores, reforçam a hipótese de que as plantas com flores e as abelhas polinizadoras evoluíram em conjunto desde o início.

Agora que a equipe de Genise revelou esses ninhos antigos, ele e seus colegas estão analisando outros vestígios fósseis notáveis, como alguns que preservaram o antigo comportamento das libélulas e um formigueiro fossilizado aparentemente revirado por um parente antigo do tamanduá. “Com essa equipe, é possível fazer qualquer tipo de pesquisa”, afirma ele. 

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