Fóssil recheado: encontrado predador marinho dentro do estômago de outro predador

Acreditava-se que os ictiossauros escolhiam presas pequenas e macias, mas novo fóssil sugere que esses répteis semelhantes a golfinhos podem ter sido megapredadores.

Publicado 26 de ago. de 2020 11:30 BRT, Atualizado 5 de nov. de 2020 01:56 BRT
A ilustração mostra um grupo de Besanosaurus, um gênero de ictiossauros, antigos répteis marinhos com certa semelhança ...

A ilustração mostra um grupo de Besanosaurus, um gênero de ictiossauros, antigos répteis marinhos com certa semelhança com golfinhos ou baleias. Um novo estudo revela que o fóssil de um parente próximo do Besanosaurus, o Guizhouichthyosaurus, preserva a última refeição feita pelo animal.

Foto de Illustration by Fabio Manucci

HÁ CERCA DE 240 MILHÕES de anos, um réptil marinho imenso engoliu outro réptil um pouco menor e morreu logo em seguida. A criatura maior — um réptil semelhante a um golfinho conhecido como ictiossauro — foi posteriormente fossilizada com o animal menor no interior de seu estômago.

Os dois répteis permaneceram presos na pedra até 2010, quando cientistas começaram a escavar o fóssil no sudoeste da China. Agora, os cientistas afirmam que esse monstro marinho ‘recheado’ pode ter jogado por terra nossas teorias sobre a vida e a morte no oceano pré-histórico.

Nesse fóssil inigualável, a criatura menor dentro do estômago do ictiossauro era um talatossauro, antigo réptil marinho com corpo magro e alongado mais semelhante a um lagarto do que a um peixe. Quando Ryosuke Motani, paleontólogo da Universidade da Califórnia em Davis, percebeu que havia um tronco quase completo de um talatossauro de quatro metros de comprimento saliente no estômago do ictiossauro de cerca de cinco metros de comprimento, percebeu que sua equipe havia encontrado algo extraordinário. Um estudo com a descrição do fóssil foi publicado na revista científica iScience.

Um espécime de talatossauro foi encontrado dentro do estômago de um ictiossauro.

Foto de of Jiang et al

Os ictiossauros respiravam ar e geravam filhotes ativos. Embora algumas espécies atingissem tamanhos quase tão grandes quanto uma baleia azul, os primeiros ictiossauros, como o Guizhouichthyosaurus examinado por Motani, eram menores, com comprimento estimado entre quatro e seis metros. Acredita-se que esses antigos nadadores tenham se alimentado de cefalópodes escorregadios semelhantes a lulas, usando a boca cheia de dentes vorazes e não afiados para agarrar suas refeições na água. Aliás, não se sabia que os animais aquáticos que viveram nesse período atacavam presas grandes; acreditava-se que a evolução desse tipo de monstro marinho no topo da cadeia alimentar tivesse ocorrido apenas mais tarde.

Contudo, segundo Motani, o fóssil recém-descrito sugere que os primeiros ictiossauros estavam entre os primeiros “megapredadores” (grandes animais que atacam outros grandes animais) da era Mesozoica. “Eles se alimentavam de animais maiores do que os humanos”, afirma ele.

Um arquivo morto pré-histórico

Encaixar as peças de um evento ocorrido há centenas de milhões de anos apresenta vários desafios. Para começar, Motani e sua equipe precisavam provar que o ictiossauro havia de fato ingerido o talatossauro e que o réptil marinho menor não se fossilizou simplesmente em cima do ictiossauro por mero acaso.

“Felizmente, neste caso, há uma maneira de saber”, conta ele. A caixa torácica do ictiossauro envolve a parte superior da presa, indicando que o talatossauro foi de fato a refeição. Mas outra questão importante é definir o tipo de refeição. O ictiossauro pode ter se alimentado da carcaça de um talatossauro morto por outros meios.

Dentro do ictiossauro, entretanto, Motani e seus colegas encontraram o que acreditam ser dois segmentos longos e intactos de vértebras do talatossauro. Esses ossos fossilizados sugerem que a coluna vertebral ainda estava unida por tecido conjuntivo e que não foi ingerida aos poucos como uma massa apodrecida e pastosa.

O crânio e a cauda do talatossauro não estão presentes no conteúdo estomacal. A equipe encontrou um pedaço de cauda de talatossauro a cerca de 20 metros de distância do ictiossauro — e embora não seja possível provar que um pertence ao outro, “o tamanho dessa cauda condiz com o restante do corpo”, afirma Motani.

A hipótese mais plausível da equipe é que o ictiossauro tenha atacado e matado o talatossauro, provavelmente na superfície da água. Após o ataque, o predador teria se aproximado da carcaça, tentado engoli-la inteira ou em pedaços muito grandes, como um jacaré ao ingerir sua presa. Com mordidas e mastigadas ruidosas, a cauda e o pescoço magro do talatossauro podem ter sido arrancados e se afastado enquanto o ictiossauro se concentrava nos pedaços maiores e mais suculentos da presa.

Esta imagem mostra o espécime de ictiossauro com seu conteúdo estomacal visível como um bloco que se projeta do corpo.

Foto de Ryosuke Motani

Como não é possível voltar ao passado e observar refeições pré-históricas, os cientistas muitas vezes analisam dentes de fósseis para determinar o que um animal antigo poderia estar mastigando. No caso dos primeiros ictiossauros, seus dentes cegos e cônicos sugerem uma predileção por refeições mais delicadas, ao contrário dos dentes afiados e serrilhados tradicionalmente associados a predadores no topo da cadeia alimentar.

Mas o fóssil recém-descoberto sugere que os cientistas nem sempre podem confiar apenas no formato dos dentes para identificar a alimentação de uma determinada espécie, afirma Stephen Brusatte, paleontólogo da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, que não participou do estudo. Em vez de apenas caçar cefalópodes macios, alguns ictiossauros primitivos podem ter sido ousados o suficiente para procurar refeições mais substanciais.

“Às vezes, os detalhes de uma cena do crime pré-histórica nos revelam que o potencial de uma arma era muito maior do que tínhamos conhecimento”, afirma Brusatte.

A última ceia de um ictiossauro

Encontrar conteúdo estomacal fossilizado é extremamente raro, afirma Jessica Lawrence Wujek, geóloga e paleontóloga da Faculdade Howard em Maryland, que não participou do estudo. Lawrence Wujek analisou centenas de espécimes de ictiossauros e conta que talvez um ou dois continham conteúdo estomacal fossilizado, denominados bromálitos.

“Não é muito comum encontrar conteúdo estomacal preservado, sobretudo algo grande no estômago como neste caso”, afirma Lawrence Wujek. “É um fóssil incrível.”

Como os ossos do talatossauro não apresentam sinais visíveis de terem sido digeridos, o ictiossauro provavelmente morreu quase imediatamente após terminar sua refeição. O fragmento da cauda depositado e fossilizado nas proximidades possui quase a mesma idade do ictiossauro, outro indício de que o animal morreu logo após sua grande refeição.

Embora o talatossauro possuísse quase o mesmo comprimento do ictiossauro, Motani estima que possuía apenas um oitavo de seu peso. Ainda assim, era um animal capaz de se defender.

“É pura especulação, mas talvez, durante essa luta, uma parte do pescoço (do ictiossauro) tenha sido ferida”, presume ele. Embora nunca será possível saber ao certo, esse ferimento pode ter piorado ainda mais quando o predador sacudiu e torceu o pescoço em uma tentativa de engolir sua relutante refeição.

A vida sempre encontra um caminho

Além do fascínio pelas antigas feras marinhas envoltas em uma batalha mortal, o fóssil também retrata como os ecossistemas podem se recuperar rapidamente, afirma Aubrey Jane Roberts, paleontóloga especializada em antigos répteis marinhos da Universidade de Oslo, na Noruega, que não participou do novo estudo.

“Houve uma enorme extinção em massa, sobretudo no mundo marinho, há cerca de 252 milhões de anos”, explica Roberts. “Morreram 90% de todas as espécies marinhas.” Considerando a magnitude dessa perda, é incrível que a vida tenha sido capaz de se recuperar e se diversificar tanto quanto se recuperou e se diversificou em apenas alguns milhões de anos, afirma Roberts. Mas é especialmente impressionante um comportamento megapredador como o exibido pelo ictiossauro ter surgido tão cedo após a extinção, pois os cientistas acreditam que os predadores no topo da cadeia alimentar estão entre os últimos animais a ressurgir durante a regeneração de uma cadeia alimentar.

“É por isso que esse estudo é tão importante”, afirma Roberts. “Conta uma história sobre a recuperação dos mares a partir da destruição quase total e a recriação completa do ecossistema.”

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