Brasil vacinou 10 milhões contra poliomielite em único dia no passado. O que deu errado agora?

Em um país reconhecido por seu planejamento de saúde pública, ainda há aumento significativo no número de casos do novo coronavírus em meio à demora nas imunizações — e agora os jovens estão entre os mais atingidos.

Publicado 26 de abr de 2021 16:30 BRT
vaccine

Em Brasília, em 22 de março de 2021, idoso recebe dose da vacina contra a covid-19 desenvolvida na China. O Brasil é um dos países mais atingidos pelo novo coronavírus do mundo em termos de mortes e casos, atrás apenas dos Estados Unidos.

Foto de Lucio Tavora/Xinhua via Redux

Com mais de 391 mil mortes e casos de covid-19 ainda em ascensão em todo o Brasil, especialistas afirmam que a vacinação da população de mais de 200 milhões de pessoas deve ser a prioridade máxima.

Elogiado mundialmente por seu Programa Nacional de Imunizações, o Brasil deveria estar na vanguarda da proteção de sua população contra o novo coronavírus. Campanhas de vacinação anteriores no país — algumas vacinando milhões de pessoas em um único dia — transcorreram sem incidentes e servem como exemplos de ideal de logística de imunização rígida.

Mas o planejamento precário, o presidente negacionista e o movimento antivacina destinaram o país ao fracasso à medida que enfrenta ondas sucessivas de infecções pelo novo coronavírus.

O número de mortos no Brasil atualmente perde apenas para os Estados Unidos. Segundo a publicação digital Our World in Data, o país está classificado em primeiro lugar nas Américas, com 1.756 mortes por milhão. Em 6 de abril, seu pior dia desde o início do surto, o Brasil registrou mais de quatro mil mortes. Essa cifra voltou a se repetir dois dias depois.

Neste momento, brasileiros mais jovens são os mais atingidos, e especialistas suspeitam que a variante P.1, descoberta pela primeira vez em Manaus, seja responsável por isso, ao menos em parte. De acordo com a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), 52% dos leitos de UTI do país estavam ocupados por pacientes com 40 anos ou menos em março, um salto de 16,5% ante o percentual alcançado entre dezembro e fevereiro.

“De repente, tudo mudou, foi assustadora a elevação no número de casos e óbitos, especialmente a mudança no perfil dos pacientes graves, agora jovens”, revela Carla Berger, médica de uma unidade básica de saúde em Porto Alegre. “Tenho filhos de 22 e 23 anos e fico apavorada com a possibilidade de serem contaminados por mim ou por meu marido, que também é médico.”

Em São Paulo, cidade mais populosa do Brasil, a maioria dos casos de covid-19 em 2021 ocorreu em pessoas entre 20 e 54 anos. Na primeira onda da pandemia, a prefeitura informou que mais de 80% dos leitos de UTI estavam ocupados por idosos ou pessoas com doenças crônicas.

Agora, com a vacinação de brasileiros com 65 anos ou mais, 60% dos leitos passaram a ser ocupados por pessoas entre 30 e 50 anos, a maioria sem nenhuma doença anterior.

Programa de imunização exemplar

O Programa Nacional de Imunização (PNI) foi criado em 1973, durante a ditadura militar brasileira (1964-1985), após o sucesso da campanha de vacinação contra a varíola, com duração de anos, que erradicou a doença no país. A campanha nasceu do desejo de tornar o país autossuficiente e de uma tentativa de produzir tudo de que necessitassem seus cidadãos para reduzir todas as importações, inclusive de medicamentos.

Como resultado, o Brasil passou por um “processo de urbanização bastante violento”, conta Gonzalo Vecina Neto, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, ex-secretário de saúde de São Paulo e ex-presidente da Anvisa, órgão regulador da saúde que fiscaliza as aprovações do uso de vacinas e medicamentos no país. Segundo ele, com essa urbanização, surgiu uma busca por maneiras de “reduzir a terrível taxa de mortalidade do país, sobretudo a mortalidade infantil”.

Uma das soluções encontradas foi a imunização de sua população e uma distribuição de vacinas igualitária por meio do PNI.

Três anos após sua criação, o programa foi oficialmente implementado pelo governo federal sob o decreto 78.231, com princípio norteador declarado como sendo a inclusão social e assistência a todos os membros da população em todos os cantos do país, inclusive em áreas rurais e remotas. Também foram apontados os principais elementos a serem abordados, como a melhoria da vigilância epidemiológica, o treinamento de equipes de laboratórios para ajudar no diagnóstico e o estabelecimento de ao menos um laboratório nacional para o controle de qualidade das vacinas.

Foi o primeiro passo para a universalização do acesso à saúde no Brasil e um precursor do sistema público de saúde, o SUS, criado em 1988. E foi o SUS que permitiu ao PNI atingir sua meta de acesso a todos os brasileiros, devido à sua gestão descentralizada sob a coordenação do Ministério da Saúde e à divisão de responsabilidades entre governos estaduais e municipais.

Desde então, o PNI realizou inúmeras campanhas de vacinação bem-sucedidas, aprimorando, ao longo dos anos, o planejamento, a organização e a promoção da imunização de milhões de pessoas em um curto período.

Considerada uma das mais eficazes, a campanha brasileira contra a poliomielite vacinou mais de 10 milhões de crianças em um dia no início da década de 1980.

“O sucesso decorreu da determinação do Ministério da Saúde de realizar uma vacinação em massa”, afirma Vecina Neto.

O plano nacional de imunização do país chegou a cada posto de saúde existente no país, permitindo que fosse utilizado esse conhecimento como roteiro para elaboração de seus próprios planos adaptados a sua localidade e população. O plano nacional também incluiu uma ampla campanha publicitária e incentivou as pessoas a vacinarem seus filhos, explicando a importância da ação e abrindo clínicas aos sábados, quando a maioria das pessoas não trabalha. Para receber o Salário Família, benefício governamental a famílias com filhos menores de 14 anos, era preciso comprovar que as crianças haviam sido imunizadas.

As campanhas anuais de vacinação contra a gripe, bem como as campanhas periódicas contra doenças como meningite, febre amarela e a cepa da gripe H1N1, também têm empregado com êxito estratégias semelhantes para imunizar a população de forma rápida e eficiente.

Mas agora, ao enfrentar a pandemia de covid-19, foi a falta desse tipo de planejamento do governo que deixou os brasileiros abandonados.

A National Geographic procurou o Ministério da Saúde para comentar a reportagem. Foram propostos e protelados diversos encontros, mas, no fim, disseram que não havia tempo na agenda do ministro.

Combatendo a hiperdoença – como uma aldeia do Xingu passou ilesa pela pandemia
Agora vacinados, os kuikuro não tiveram mortes por covid-19. O esforço de guerra foi registrado pelo cineasta indígena Takumã Kuikuro.

Imunizações desiguais negligenciam os mais necessitados

Até 12 de abril, 23,8 milhões de brasileiros — pouco mais de 11% da população — haviam recebido ao menos a primeira dose da vacina CoronaVac ou Oxford-AstraZeneca, segundo dados estaduais coletados por um consórcio de veículos de imprensa locais, que vêm colaborando com o acesso à informação desde que o governo federal retirou dados fundamentais da covid-19 de seus canais em junho do ano passado.

Apenas 7,39 milhões — 3,49% da população — receberam ambas as doses de uma das vacinas disponíveis contra o novo coronavírus no país. A esse ritmo, alguns especialistas afirmam que podem ser necessários até quatro anos para vacinar toda a população. No início desta semana, o Ministério da Saúde anunciou que a vacinação dos grupos prioritários não será mais concluída em maio e sim em setembro, culpando a falta de suprimentos e o atraso na entrega da vacina.

“O Brasil possuía um histórico bom de campanhas de vacinação, mas parece que os centros existentes de logística e pesquisa não foram aproveitados da melhor forma”, lamenta Natercia Santa Cruz, supervisora técnica de radiologia do Hospital Beneficência Portuguesa na cidade de São Caetano do Sul, no estado de São Paulo.

A falta de organização nacional obrigou estados e municípios a elaborar seus próprios planos de vacinação e acordos de compra das vacinas necessárias, o que pode deixar alguns dos segmentos mais vulneráveis da população por último.

Segundo Sofia Mendonça, médica especialista em saúde pública e coordenadora do Projeto Xingu da Universidade Federal de São Paulo, cerca de 70% dos indígenas que vivem em aldeias do país receberam a primeira dose da vacina contra a covid-19, ao passo que apenas 50% receberam a segunda, apesar de serem considerados um grupo prioritário.

Em geral, prossegue ela, o PNI atende de forma eficiente aqueles que vivem na região do Xingu, no entorno do rio Xingu, que atravessa o Pará e Mato Grosso, estados da Amazônia. Mas diversos fatores, como a falta de planejamento para que tenham acesso à vacina contra a covid-19 e a disseminação de informações falsas sobre a vacina, mudaram essa realidade.

“Se houvesse uma autoridade e coordenadores de fato comprometidos e responsáveis por levar essa vacina às aldeias e que a valorizassem, tudo seria diferente”, observa ela.

 

Fotos: Brasileiros se entregam à religião para aplacar angústia em meio à pandemia

A falta de planejamento também levou ao colapso total do sistema de saúde em Manaus. Klinger Falcão, enfermeiro domiciliar, cuidava de seis pacientes na cidade quando uma dentre eles testou positivo para a covid-19. Preocupado com a idosa de 72 anos, que já tinha a saúde debilitada, ligou para o hospital coberto pelo plano de saúde dela para saber se havia leitos disponíveis na UTI. Em breve haveria, mas surgiu outro problema: esse hospital, assim como o resto da cidade e os municípios vizinhos ficaram sem oxigênio.

A família dela decidiu que mantê-la em casa seria o mais prudente. Falcão fez tudo ao seu alcance para deixá-la confortável, até mesmo montando um aparelho respiratório improvisado com uma garrafa de plástico de dois litros e um nebulizador para tentar aliviar suas dores. “Sabia que não adiantaria, mas por falta de opções com alguém nesse estado, não havia mais nada que eu pudesse fazer”, lamenta ele. “Tentei apenas lhe proporcionar um pouco de conforto para que não sofresse tanto ao não conseguir respirar.”

Ao todo, 31 pessoas morreram em Manaus nos dias 14 e 15 de janeiro quando o suprimento de oxigênio esgotou. Neste momento, muitas cidades em todo o Brasil também sofrem com a falta de kits de intubação, e Marcelo Queiroga, ministro da saúde recém-nomeado, informou que a Organização Pan-Americana da Saúde ajudará o governo a adquirir mais. O governo espanhol também informou que doará kits no fim de abril.

Mas o presidente Jair Bolsonaro chamou a covid-19 de “gripezinha” e promoveu o uso de medicamentos como a hidroxicloroquina, descartada como tratamento contra o vírus e considerada prejudicial aos infectados. Ele continua a frequentar grandes aglomerações sem máscara. Suas palavras, inclusive a fala errônea de que a vacina contra o novo coronavírus transformaria as pessoas em jacaré, também inflamaram um movimento antivacina que não mede suas palavras, além de protestos sem máscara. Essa atitude atrapalha o empenho dos demais governos e profissionais de saúde do país e faz muitas pessoas duvidarem da existência do vírus e da importância da vacina.

“Não depende apenas da vacina. Depende também de outras medidas preventivas”, explica Mendonça, referindo-se ao uso de máscaras, lavagem das mãos e distanciamento social. “É preciso acreditar em todas essas medidas para o sucesso da campanha de vacinação.”

Por ora, o Brasil está imobilizado devido à falta de uma liderança nacional que busque mudanças ou soluções. Estados, municípios e profissionais de saúde fazem o que está ao seu alcance, mas sem um plano nacional, é cada um por si.

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