Altíssima transmissão da variante Delta nos EUA alerta para volta do uso obrigatório de máscaras

Poucos locais cogitam alterações nas políticas, mas especialistas sugerem que é aconselhável que todos — incluindo as pessoas já vacinadas — usem máscaras em espaços públicos fechados.

Publicado 27 de jul. de 2021 16:30 BRT
LA Mask Mandate

Visitantes usando máscaras de proteção assistem a filme dentro de cinema em Long Beach, Califórnia, na sexta-feira, 16 de julho de 2021. O condado de Los Angeles impôs o uso de máscaras em ambientes fechados a seus residentes, incluindo as pessoas já vacinadas, após um surto de casos de covid-19 e a disseminação da variante Delta, altamente contagiosa.

Foto de Bing Guan, Bloomberg, Getty Images

Apesar das previsões de que ocorreria um surto do novo coronavírus apenas em setembro, infecções com a variante Delta dispararam por todo o país e se espalharam mais rápido do que previsto por especialistas em saúde. Nas últimas semanas, todos os estados dos Estados Unidos, exceto o estado de Vermont, apresentaram uma escalada repentina no número de casos.

Em resposta ao surto, o condado de Los Angeles foi o primeiro a restabelecer a exigência de uso de máscaras em espaços fechados, até mesmo para pessoas vacinadas, e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (“CDC”, na sigla em inglês) recomendaram que estudantes não vacinados — o que inclui todos aqueles com menos de 12 anos de idade — usem máscaras na escola.

Na esfera estadual, o Departamento de Saúde Pública da Califórnia não alterou sua diretriz atual, que não exige máscaras para pessoas vacinadas, e um representante não indicou se está prevista alguma atualização. Portanto, por ora, não se sabe ao certo quantas comunidades podem seguir o exemplo de Los Angeles, a despeito dos surtos localizados em todo o país.

“Há surtos em diversas localidades ao mesmo tempo, o que foi um pouco inesperado”, afirma Tara Smith, professora de epidemiologia da Universidade Estadual de Kent, em Ohio. A expectativa dela era que surgissem casos no Sul, onde se passa mais tempo com o ar-condicionado ligado durante os meses de calor, antes de avançarem para o norte.

“Esse é o problema do crescimento exponencial”, afirma Dominique Heinke, epidemiologista de pós-doutorado da Carolina do Norte. “Tudo parece tranquilo quando, de repente, dispara sem sinais de aviso e, então, o controle se torna muito mais complexo.”

Esse cenário prevalece quando os estados se dedicam exclusivamente à vacinação, sem impor decretos de uso obrigatório de máscaras. Muitos especialistas em saúde pública acreditam que o CDC se precipitou ao flexibilizar as recomendações de uso de máscaras. O maior sindicato de enfermeiros do país enviou uma carta em 12 de julho a Rochelle Walensky, diretora do CDC, pedindo à agência que restabelecesse a todos a recomendação de uso de máscaras em público ou quando em proximidade física com pessoas de fora da residência. Durante um seminário on-line recente voltado a jornalistas de saúdeEric Topol, professor de medicina molecular e diretor do Instituto Scripps de Pesquisa, e Vaughn Cooper, biólogo evolutivo da Universidade de Pittsburgh, disseram considerar prematura a orientação de flexibilização das medidas de proteção.

Smith concorda. “Acredito que o CDC encerrou a recomendação de uso de máscaras cedo demais”, lamenta ela. Um conjunto de evidências demonstra conclusivamente que o uso de máscaras reduz substancialmente o risco de transmissão do Sars-CoV-2 a outras pessoas e reduz o risco de contágio pelo vírus.

Fadiga de máscaras

“A fadiga da covid-19 atualmente dificulta convencer as pessoas a usarem máscaras muito mais do que há um ano”, afirma George Turabelidze, epidemiologista estadual do Missouri, que, em junho, foi o primeiro estado a apresentar um surto. Ele afirma que o Missouri, que nunca exigiu o uso de máscaras em todo o estado durante a pandemia, provavelmente não implantará essa exigência porque o governador apoia a tomada de decisões localizadas. Os casos de Missouri continuam em ascensão, sobretudo em áreas rurais, apresentando um aumento de 20% entre a semana de 11 de julho e a semana passada.

“Não há previsão de melhoria tão cedo”, observa Turabelidze, acrescentando que é difícil justificar a imposição de uso de máscaras para todos.

“Não há evidências científicas que comprovem que uma pessoa vacinada e contaminada possa transmitir a infecção a outras pessoas”, afirma. Ele explica que há indícios que sugerem ser possível o contágio de pessoas vacinadas a outras pessoas, mas nenhum estudo até o momento obteve uma prova concreta dessa transmissão. Sem evidências nítidas da transmissão do vírus por pessoas vacinadas que ainda assim estejam contaminadas, ele acredita que os dados científicos até o momento não justificam uma imposição do uso de máscaras aos vacinados. “Contudo, como não se pode descartar essa hipótese, a transmissão do vírus por pessoas vacinadas talvez ainda seja possível, embora provavelmente em um grau mínimo.”

Ele suspeita que essa possibilidade seja o fundamento lógico adotado pelo Condado de Los Angeles, mas pode não ser suficiente para outras cidades ou regiões. Ainda assim, ele afirma que é sensato que as pessoas vacinadas usem máscaras quando estiverem próximas de pessoas de alto risco, como aquelas que estão com imunidade comprometida ou possuam doenças pré-existentes.

Turabelidze e seus colegas estão dedicados no combate à desinformação sobre vacinas contra a covid-19 para ampliar as taxas de imunização. O Missouri era um dos estados com as menores taxas de vacinação do país, mas recentemente ultrapassou 40% de imunização de todos com direito à vacina.

Nos EUA, especialistas incentivam o uso de máscaras

Em alguns estados, os condados não podem exigir o uso de máscaras, ainda que desejassem. Por exemplo, até o momento, oito estados proibiram a exigência de máscaras na escola, até mesmo nas séries iniciais onde os alunos são jovens demais para serem vacinados — e isso está ocorrendo mesmo com a recomendação do CDC para que todos os alunos não vacinados usem máscaras. Entre esses estados está o Arkansas, atualmente com o segundo maior número de casos por 100 mil pessoas nos Estados Unidos.

Embora a legislação recém-promulgada do Arkansas proíba a exigência de máscaras em qualquer espaço do governo, “ainda recomendamos e incentivamos veementemente seu uso para pessoas que não foram vacinadas, e muitos daqueles que já tomaram as duas doses da vacina ainda optam por usar máscaras”, afirma Jennifer Dillaha, epidemiologista do estado do Arkansas e diretora médica de imunizações e resposta a surtos do Departamento de Saúde do Arkansas.

O Arkansas está promovendo uma grande campanha de vacinação, mas é difícil em um estado predominantemente rural. As farmácias são os únicos locais de vacinação disponíveis na maioria das comunidades, mas o estado em breve oferecerá vacinas nas lojas Dollar General. Um obstáculo ainda é o desconhecimento dos postos de vacinação por muitas pessoas, outro é a falta de acesso à Internet por muitas outras, por isso, o estado disponibilizou o número 1-800-985-6030 para identificar os pontos de vacinação.

“Recomendamos que todos se vacinem agora, pois as vacinas da Pfizer e Moderna requerem um intervalo entre cinco e seis semanas para a aplicação da segunda dose, somente após a qual as pessoas estarão mais protegidas contra a variante Delta”, ela explica.

Na Flórida, outro estado com aumento acelerado de casos, o governador Ron DeSantis não cogita impor uma obrigatoriedade do uso de máscaras nem medidas de bloqueio, segundo Christina Pushaw, secretária de imprensa do governador. Ela afirma que DeSantis previu um aumento nos casos há meses, mas que “enfatizou que a situação é muito melhor do que na metade do ano passado, em razão da elevada taxa de imunização entre a população mais vulnerável — idosos — o que se reflete em menores taxas de internação hospitalar em comparação com um ano atrás”, prosseguiu Pushaw.

Em vez de impor o uso de máscaras, o estado procura expandir a cobertura vacinal por meio do localizador estadual de vacinas on-line, e várias campanhas de mensagens simultâneas disponibilizadas em vários idiomas em outdoors em todo o estado, no rádio, em mídias digitais, redes sociais e por streaming, de acordo com Weesam Khoury, diretor de comunicações da Departamento de Saúde da Flórida.

Variante Delta

A maior transmissibilidade da variante Delta e sua capacidade de evadir algumas proteções de anticorpos implicam mais oportunidades de infecções entre pessoas vacinadas, afirma Heinke. “Se essa variante emite muito mais partículas virais, o uso adequado de máscaras se torna fundamental”, conta ela.

Embora os casos de pessoas vacinadas contaminadas sejam raros, eles ainda existem, segundo Smith, o que é bastante preocupante àqueles que receiam transmitir a doença a parentes não vacinados.

“Acredito que seja prudente para muitos prosseguirem com o uso de máscaras nesses cenários, sobretudo por se desconhecer a eficácia da vacina com a variante Delta e outras que venham a surgir, ao menos até que todos da população tenham oportunidade de se vacinar, incluindo crianças que ainda não podem tomar as vacinas”, explica ela.

Embora ela não espere que muitos locais imponham o uso de máscaras, ela afirma que é importante cobrá-los, ainda que apenas para registros históricos.

“É preciso identificar em que pontos foram cometidos erros e acredito que esse seja um deles”, observa Smith. “As máscaras são uma intervenção tão simples que não as utilizar de forma mais definitiva para proteger as pessoas vem sendo um equívoco.”

Mensagens dúbias sobre máscaras

Como epidemiologista, Heinke gostaria que mais locais exigissem máscaras em ambientes fechados.

“Acredito que baixamos a guarda cedo demais”, lamenta ela. A recomendação do CDC era que pessoas vacinadas poderiam dispensar o uso de máscaras em ambientes fechados. “Mas sem nenhuma maneira de verificar quem está imunizado, foi praticamente uma permissão para que todos tirassem as máscaras em ambientes fechados, o que significa que há um grande número de pessoas não vacinadas sem máscaras nesses espaços onde o Sars-CoV-2 é transmitido de forma extraordinariamente eficiente.”

Mas o CDC não forneceu nenhum indicativo de que mudará sua orientação. Em comunicado emitido em 22 de julho, Rachelle Walensky, diretora do CDC, alertou a nação de que a variante Delta é “um dos vírus respiratórios mais contagiosos já conhecido e presenciado em meus 20 anos de carreira”, mas declarou que ainda não há necessidade de recomendar que pessoas totalmente vacinadas usem máscaras. Ela acrescentou que pessoas vacinadas “podem optar por aumentar adicionalmente sua proteção, utilizando máscaras, mas essa é uma escolha individual”.

Em entrevista ao telejornal PBS Newshour em 22 de julho, Vivek Murthy, chefe de Saúde Pública dos Estados Unidos, declarou que alguns condados podem voltar a impor o uso de máscaras diante de uma grande circulação de vírus. Ele também observou que pessoas vacinadas podem optar por usar máscaras perto de pessoas com imunidade comprometida ou crianças novas demais para serem vacinadas. “Acredito que, em um momento como o atual, em que há um contágio tão amplo de covid-19 devido à variante Delta, é prudente pecar pelo excesso de cautela”, reiterou ele.

Topol foi mais firme. “Acredito que todos deveriam usar máscaras, de preferência ajustadas ao rosto e de melhor qualidade, para afastar a variante Delta”, disse ele, observando que seu uso é ainda mais importante em ambientes fechados por períodos prolongados ou em locais com pouca ventilação. “Ao ar livre, não há dados que indiquem que a Delta seja diferente”, acrescenta ele, porém se houver contato frente a frente com alguém que não se sabe se está vacinado, é “melhor ser prudente e usar máscara até que essa onda da variante Delta se dissipe.”

Os especialistas enfatizam, entretanto, que as vacinas de RNAm permanecem altamente eficazes contra a Delta, reduzindo o risco de doença sintomática em 88% e o risco de internação hospitalar em 96%.

“As vacinas continuam a ter um êxito incrível na prevenção de doenças graves”, afirma William Schaffner, professor de doenças infecciosas da Faculdade de Medicina da Universidade Vanderbilt, em Nashville. Ele revela que entre 95% e 98% de todos os pacientes internados com covid-19 em sua instituição não haviam sido vacinados ou haviam sido vacinados apenas com uma dose, o que significa, prossegue ele, que “as vacinas são eficazes e todas essas internações basicamente poderiam ser evitadas”. Ele também destacou que estudos anteriores demonstram que as vacinas de RNAm reduzem — mas não eliminam — o risco de contaminação, infecção e transmissão da doença a outras pessoas.

Como o Arkansas apresenta uma das taxas de vacinação mais baixas dos Estados Unidos, Dillaha afirma que seu departamento incentiva veementemente o uso de máscaras além da campanha de vacinação. “Há um pico neste momento, e não é possível eliminá-lo apenas com a vacinação”, conta ela. “São necessários anticorpos monoclonais, o uso de máscaras e distanciamento social para limitar o aumento até que mais pessoas possam ser imunizadas.”

O que está em curso nos estados do Arkansas e do Missouri provavelmente ocorrerá também em outras regiões com baixas taxas de vacinação, “portanto, que sirva de aviso a essas regiões”, afirma ela. “Espero que agora as pessoas se vacinem, caso ainda não o tenham feito”.

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