O que Freud diz sobre o amor na psicanálise

O psiquiatra austríaco, criador desta prática terapêutica e técnica de investigação, conceitua o sentimento a partir de outros objetos de estudo.

Por Redação National Geographic Brasil
Publicado 20 de jan. de 2023 16:34 BRT
Em uma demonstração de amor, um filhote de urso polar brinca com sua mãe.

Em uma demonstração de amor, um filhote de urso polar brinca com sua mãe.

Foto de SHUTTERSTOCK

O psiquiatra austríaco Sigmund Freud, que viveu entre 1856 e 1939, é considerado um dos pais da psicanálise, área do conhecimento que investiga a mente humana. E um dos conceitos mais comuns quando os indivíduos refletem sobre a vida é debater o que é o amor

Esta definição, até mesmo para Freud, não é tão fácil de ser delimitada. Em entrevista à National Geographic, Lucas Hangai Signorini, psicanalista da escola The School of Life (instituição brasileira dedicada ao desenvolvimento da inteligência emocional) e especialista em Teoria Psicanalítica pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, explica que o lendário criador da psicanálise se interessou por um amor dito “injustificável”. 

Segundo Signorini, esse conceito foi desenvolvido por Freud a partir do caso de uma paciente sua: Bertha Pappenheim, popularmente conhecida como Anna O., uma mulher que sofreu com uma enfermidade terminal de seu pai e se tornou o primeiro caso de tratamento por psicanálise.

Durante seu estudo, Freud apresentou Anna a seu colega Josef Breuer. Após um tempo, eles acabaram se apaixonando e foram, de algum modo, objetos de estudo para o “pai da psicanálise”. “Não à toa, esse apaixonamento contribuiu para Freud postular o conceito de transferência, ou seja, Anna estava apaixonada por quem Breuer representava e não exatamente por quem ele era”, aponta Signorini. 

(Relacionado: O que acontece com o cérebro quando nos apaixonamos)

Relação entre o objeto e o amor

Uma das obras nas quais Freud mais discorre sobre o amor e sua relação com o que chama de objetos (neste conceito, qualquer coisa que não seja o Eu, a pessoa em si), é “Narcisismo: Uma Introdução” (de 1914, e à venda no Brasil). Segundo Signorini comenta, neste livro Freud indica que o amor é o estado que o sujeito atinge quando se sente igual à outra pessoa por quem se apaixona. 

“Ou seja, ao amar o sujeito passa a escolher um ideal que ele nunca conseguirá ter”, explica Signorini. “O que o sujeito faz, então, é substituir o objeto idealizado da infância pelo objeto novo: por isso quando amamos, a pessoa, inicialmente, parece não ter defeitos, é perfeita; na verdade ela nunca foi assim, apenas está super investida pela libido do sujeito”.

O psicanalista, no entanto, alerta para o principal problema dessa idealização do objeto: como toda a energia está no objeto, o sujeito pouco investe em si mesmo. 

(Veja também: Livros de filosofia que você deve ler pelo menos uma vez na vida)

Algumas pessoas têm o costume de pendurar "cadeados do amor" em pontes para simbolizar uma relação amorosa. Na foto, estes cadeados estão pendurados em uma instalação de arte em metal com vista para a Rainbow Bridge, em Taipei, Taiwan.

Foto de Dina Litovsky

Relação entre amor e a infância 

Outro aspecto da doutrina do amor de Freud é sobre a escolha do parceiro. De acordo com o artigo “Três contribuições freudianas à doutrina do amor”, publicado por Tomás Otero, psicanalista e doutor em Psicanálise pela Universidade de Buenos Aires (Argentina), o sujeito escolhe seu parceiro quando é inconscientemente sobredeterminado por certas experiências que repousam na infância.

Segundo Otero, essa tese encontra-se no livro "Três ensaios sobre a teoria sexual" (1905), de Freud. “Todo ser humano, pelo efeito combinado de suas disposições inatas e das influências que recebe na infância, adquire certa especificidade para o exercício de sua vida amorosa, isto é, para as condições de amor que estabelecerá e os impulsos que irá satisfazer, bem como pelos objetivos a serem traçados”, reconhece Freud na página 97, o conceito reproduzido no artigo de Otero.

Relação entre amor e libido

Freud sempre relaciona a definição de amor com outros objetos, comenta o especialista entrevistado por National Geographic. Em suas obras, o austríaco também aponta que o amor é uma das expressões da libido – cujo conceito, reitera Signorini, é diferente na psicanálise em relação ao entendimento moderno, conectado ao tesão

“A libido, psicanaliticamente, é entendida como a manifestação da pulsão sexual. Para Freud, todo ser humano tem uma carga de energia que dá origem a todos os movimentos do organismo e dos processos psíquicos. Em resumo, todos os seres humanos são constituídos por essa energia (pulsão), que só pode ser ‘sentida’ por meio de libido e uma dessas expressões da libido é o amor”, reforça o psicólogo brasileiro.

Sendo assim, Freud indica que o foco da libido muda conforme o crescimento de um ser humano. Aos poucos, há mais energia para o objeto, e menos para o Eu, reforça Signorini. 

Para Freud, o fundador da psicanálise, os indivíduos transferem nas relações amorosas seus investimentos objetais infantis, que estão no cerne nos modos de nos relacionarmos.

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