Afuá, a cidade das bicicletas na Amazônia

Nas vias e passarelas desta cidade paraense, construída sobre palafitas em uma ilha da foz do rio Amazonas, não entram motos, carros ou qualquer outro veículo motorizado – um exemplo de mobilidade urbana sustentável.

Com 40 mil habitantes, a cidade de Afuá proibiu o trânsito de qualquer veículo motorizado a partir de 2002.

Foto de Gabi Di Bella
Publicado 20 de set. de 2021 18:09 BRT, Atualizado 22 de set. de 2021 19:25 BRT

Afuá, Pará | Chegar em Afuá depois de quase dois anos enfrentando uma pandemia em São Paulo foi como inaugurar a era de turismo espacial sem sair da estratosfera. Esta pequena cidade de 40 mil habitantes, localizada no Arquipélago de Marajó, estado do Pará, no norte do Brasil, pode ser considerada por muitos como parada no tempo, mas, após uma visita, fica claro que ela é um vislumbre de um futuro possível. Construída em cima de palafitas de madeira devido às cheias do rio Amazonas, o código de posturas do município proibiu, em 2002, o uso de qualquer veículo motor, incluindo elétricos, em suas ruas. Lá, todos, sem exceção, têm a bicicleta como meio de transporte.  

Se em Afuá não há carros, ou motos, também não há leis de trânsito. Nenhuma mísera placa de pare. Congestionamentos? Multas? Nem pensar. Dar voltas e voltas para estacionar, medo de ser atropelado? Jamais. Outra ausência: mortes em acidentes de trânsito. Quando estes acontecem, são leves, geram poucos ferimentos e costumam ser causados por forasteiros tal como esta jornalista que pedalou para fazer esta reportagem. A atenção e o respeito pelo espaço do outro são o código não escrito da mobilidade.

Para quem, como eu, cresceu em meio ao asfalto e a fumaça dos carros, isso pode mesmo parecer coisa de outro mundo. Ainda mais estranho é perceber que o movimento nas ruas é tão intenso quanto silencioso. Um silêncio quebrado somente pelo barulho do motor dos barcos que passam pelo rio e pela eclética música das caixas de som do animado povo paraense – um movimento que obedece aos horários de calor e às marés. Os afuaenses se movem conforme chegam e partem as barcas para Macapá ou Belém – as capitais mais próximas –, pulsando entre a lógica de conviver de maneira harmônica com a natureza, obedecendo sua geografia e clima, e a eterna pressão para adotar um modo de vida urbano mais 'moderno', movido a motor.

O trânsito de bicicletas em Afuá é intenso, mas acidentes são raros. Quando ocorrem, geram apenas pequenas escoriações.

Esta relação de harmonia com a natureza é muito clara para a turismóloga da secretaria de Esporte e Lazer da cidade, Andra Lúcia Chaves Ataíde, 39 anos. Nascida e criada em Afuá, Ataíde enfatiza o quanto a bicicleta é o eixo central do cotidiano na cidade. “A cidade inteira anda de bicicleta, a nossa vida é a bicicleta, nosso meio de transporte é a bicicleta e vai ser pelo resto das nossas vidas”, diz ela. “Nossa cidade é específica para este modelo de transporte sustentável.”

Por ser uma cidade 100% sem carros, Afuá se tornou conhecida em diversos lugares do mundo e ganhou alguns apelidos – como Veneza Marajoara e Copenhagen da Amazônia, locais cuja mobilidade também prioriza vias aquáticas ou ciclovias – e virou referência para arquitetos, historiadores, fotógrafos e ciclistas. A fama rendeu a Ataíde alguns convites para falar em palestras e conferências. “Uma vez, antes de uma palestra em Belém, me perguntaram quantos quilômetros de ciclovia tinha a minha cidade. Eu falei que cerca de 24 mil metros. Não acreditaram, até que comecei a mostrar as fotos”, lembra.  

Ataíde conta que a família se mudou para Macapá quando ela tinha 12 anos. Depois de se formar na faculdade, no entanto, decidiu voltar para Afuá. “Eu me sinto presa quando preciso me deslocar de carro; aqui nós exercitamos o direito de ir e vir plenamente, não esperamos uber nem táxi, a gente só pega a bicicleta e vai a qualquer lugar”, conta ela. “Até bêbado anda de bicicleta.” Hoje ela cria o seu filho, Daniel, quatro anos, pedalando por Afuá.

Afuá vista do rio Amazonas. Pela geografia, em meios aos canais e igarapés da floresta, a cidade recebeu o apelido de Veneza Marajoara, e, pelo uso das bikes, Copenhagen da Amazônia, em referência à capital dinamarquesa onde mais de 60% pedalam até a escola ou trabalho.

Foto de Gabi Di Bella
À esquerda: No alto:

O horário do rush em Afuá varia: depende da chegada das balsas que transportam passageiros e mercadorias de Macapá, capital mais próxima, e Belém. Por sua vez, as embarcações respeitam o tempo da maré e do sol na Linha do Equador, inclemente ao meio-dia.

À direita: Acima:

No calor da Linha do Equador, banhos no rio Amazonas são um refresco.

Foto de Gabi Di Bella

A revolução do bicitáxi

Claramente, não obedecer ao calor da latitude 00’09” – cerca de 15 km ao sul da Linha do Equador – é péssima ideia. O sol se torna extremamente forte logo no meio da manhã, e o jeito é se esconder à sombra ou pedalar com uma mão no guidão e outra segurando um guarda-chuva. Por isso, o dia começa cedo, ao som da rádio Afuá ecoando pelos postes da cidade. A partir das 5h da manhã, Raimundo do Socorro Souza, 53 anos, mais conhecido como Sarito, apresenta o programa Acorda Afuá. “Para você que está fazendo seu café, bom dia dona Maria, bom dia seu Benedito!”, narra em uma das transmissões. “Venha para Afuá, cidade de mulher bonita e homem trabalhador, e não esqueça de dar uma voltinha no bicitáxi.”

Apaixonado pela cidade, Sarito conta que até os anos 1980 a bicicleta era objeto de luxo entre os afuaenses. A popularização das magrelas começou nos anos 1990, acompanhadas de algumas motos. “Com o passar do tempo, a população cresceu e as motos foram aumentando, então as autoridades proibiram, porque as ruas de madeira não estavam aguentando”, conta o radialista. “Depois surgiram as passarelas de concreto armado, mas ainda assim é proibido qualquer veículo motorizado.”

Homem de múltiplos talentos, Sarito é marceneiro, pintor, dj, radialista, músico e inventor. Em 1995, decidiu juntar duas bicicletas para dar um jeito de levar as crianças para passear: surgia o bicitáxi. “Eu comecei a levar toda a família comigo, era uma festa, e comecei a ganhar um dinheirinho levando outras pessoas.” Mas não sem levar algum susto. Um dia, na época em que as luzes da cidade se apagavam à meia noite, Sarito voltava para casa após deixar passageiros e, enquanto passava na frente do cemitério, sentiu que algo lhe puxava para trás. “A luz apagou, e eu querendo correr para casa. Eu pedalava e algo me puxava, pedalava e me puxava. Por sorte, passou um amigo e viu que era o cinto de amarrar as cargas que estava preso na madeira da passarela”, conta Sarito, rindo.

O radialista, dj, inventor, pintor, marceneiro e músico Raimundo do Socorro Souza, o Sarito, conta que inventou o bicitáxi em 1995, ao juntar duas bicicletas para levar os filhos para passear.  

Foto de Gabi Di Bella
À esquerda: No alto:

A bicilância do Corpo de Bombeiros carrega uma maca e dois socorristas. 

À direita: Acima:

Bicitaxistas aguardam por clientes na orla da cidade. Segundo Sarito, um bicitáxi com luzes de led e som automotivo alimentados por baterias pode custar até R$ 15 mil.

Foto de Gabi Di Bella

Hoje, a hora do rush de Afuá é formada por uma aglomeração de bicitáxis a espera dos passageiros da barca, que chega conforme o horário da maré alta. Muitos bicitaxistas investem em luzes de led e caixas de som alimentadas por baterias. O som preferido é funk e eletrônico paraense. A estilização dos ‘carros’, como são chamados, não tem limites. “Um bicitáxi hoje pode custar de R$ 4 a 8 mil, mas, com led e som automotivo, chega até a R$ 15 mil, o valor de um carro mesmo”, diz Sarito. Além dos veículos particulares, também tem a bicilância, usada pelos bombeiros, e os ‘carros’ de propaganda.

As criações ganham cores com grafites e luzes – todas elas exibidas em um desfile do Festival do Camarão, realizado no mês de julho. A criatividade é infinita e muitos tem nomes, como o Viúva Negra, um ‘carro’ com muita teia de aranha, cores e luzes coloridas. Outros, como Adriano dos Santos, 36 anos, metalúrgico, vivem de montar os bicitáxis por encomenda. “Eu sou autodidata, aprendi tudo vendo. Hoje crio qualquer coisa com solda e faço o ‘carro’ conforme a vontade do cliente”, conta. Ele mesmo tem suas criações estilizadas. “Eu gosto de dar nomes dos Vingadores ou dos Transfomers. O [‘carro’] amarelo que tenho hoje é Bumblebee, e a bicicleta, Venon”, explica. 

“Eu sei que tudo isso é minha culpa”, brinca Sarito. Após sair da rádio, passa na feira do peixe e toma um café na praça, cumprimentando quase todo mundo. Os amigos escutam termos que só muita intimidade permite. “Bom dia! Chuva de corno!”, diz, com um sorriso no rosto. O movimento na cidade desaparece perto do meio-dia e só volta após às 16h. Os mais ativos deixam as bicicletas de lado para jogar futebol, volêi, nadar no rio, fazer crossfit – há muitas academias em Afuá – ou até mesmo realizar uma caminhada na pista do aeroporto, que, sem uso, vira pista de corrida. Antes de descer, os aviões dão duas voltas em cima da cidade para permitir que as pessoas saiam da área.

Pandemia e os desafios futuros

Entretanto, os encontros de final de tarde ainda não são os mesmos de antes da pandemia. A covid-19 obrigou o isolamento da ilha em março de 2020. Somente depois de quatro meses as barcas de passageiros voltaram a circular. Hoje, com boa parte da população vacinada com primeira dose, aos poucos a antiga rotina é retomada. As aulas do ensino médio e as quadras de esportes já foram liberadas, enquanto festas e outras aglomerações seguem proibidas. Cerca de 20 pessoas perderam a vida na cidade para o novo vírus.

Trânsito de bicicletas em frente à praça do Leão do Norte e a Câmara Municipal de Afuá. A cidade fica a cerca de 15 km ao sul da Linha do Equador, e é comum ver ciclistas segurando o guidão com uma mão e, com a outra, uma sombrinha para se proteger do sol.

Foto de Gabi Di Bella
À esquerda: No alto:

O agente administrativo Irlan Ferreira Bezerra em sua bicicleta adaptada para pedalar com o braço. 

À direita: Acima:

Baxote, soldador que monta bicitáxis, mostra a bicicleta Venom, uma de suas criações 'bombadas'. 

Foto de Gabi Di Bella

Uma das vítimas foi o pai da advogada Thaiane Kelle Almeida, 35 anos, que vive em Belém, mas sempre volta para visitar a família. Kelle se mudou porque queria estudar direito. “Hoje é possível fazer à distância, mas antes não tinha. Meu desejo é passar num concurso público e tentar voltar para cá”, diz ela. “Minha mãe e minha irmã moram aqui, é o meu lugar.” Kelle acredita que a vida em Afuá seria melhor para o filho Saulo, de cinco anos.

A vizinha de frente, que ela considera irmã, fez esse caminho. Pedagoda, Ruticleide Amorim Vaz, 46 anos, só conheceu carros aos 18 anos. “Eu me informava pelos jornais que chegavam de táxi aéreo. Jovem, fui trabalhar num colégio em São Paulo e parecia que eu tinha chegado em outro mundo”, conta Vaz. “Foi estranho, senti o impacto da poluição, via o céu preto e me escondia, achava que vinha temporal. Meu amigos riam de mim. Eu pude crescer profissionalmente, foi muito bom, mas hoje não me mudo de Afuá.” Ela considera que a tecnologia mudou a juventude da cidade, que hoje é conectada com o mundo inteiro.

E é na internet que a nova geração encontra oportunidades além do comércio, serviços, turismo e fábricas de produção de palmito, madeira e açaí – os motores da economia local. Jaiane Alex, por exemplo, é influenciadora digital – tem um milhão de seguidores no TikTok e 20 mil no Instagram. Os vídeos de comédia retratam o cotidiano e a relação com a família, sempre com a participação dos amigos. Alex conta que pretende usar o sucesso nas redes para desenvolver um projeto social, fazendo vaquinhas para doar cestas básicas a quem precisa. 

Já o missionário César Manoel da Silva, 28 anos, trocou a vida no interior paulista pela vida mais tranquila de Afuá. Há cinco anos, decidiu se mudar e desenvolver um projeto na ilha para combater o analfabetismo. “Há muitos problemas sociais aqui, pois é tudo muito simples, é zona de fronteira e rota de cruzeiros internacionais, então temos casos de prostituição infantil”, conta Silva. Atualmente, ele mora com a esposa, Deise Barros de Oliveira da Silva, e os dois filhos, Estevam e Efraim, em uma casa no centro da cidade. “Acho que nem todos conseguem perceber a riqueza que há na Amazônia; respiro ar puro e sei que é o melhor lugar para a próxima geração.”

À esquerda: No alto:

Eletricista Hugo Batista da Silva na bicicleta que usa para trabalhar. 

À direita: Acima:

O professor de inglês e geografia também se locomove de bike. As bicicletas da cidade costumam ter a barra alta do quadro inclinada, bagageiro e rodas de 24 polegadas.

Foto de Gabi Di Bella
À esquerda: No alto:

A criatividade na hora de enfeitar os bicitáxis não tem limite. 

À direita: Acima:

Apesar de chamativos e volumosos, os bicitáxis representam apenas 1% dos deslocamentos em Afuá.

Foto de Gabi Di Bella

Afuá surgiu a partir da doação de terras de uma antiga proprietária da região, Micaela Archanja Ferreira, e se emancipou como município em 1890. De lá para cá, viveu a lógica de desenvolvimento e colonização por ribeirinhos do norte brasileiro. Das etnias indígenas da região, atualmente há poucos sinais além de sítios arqueológicos. O Indíce de Desenvolvimento Humano da cidade é baixo (0,489 segundo o PNUD) e, como a maioria das cidades no país, o tratamento de esgoto é inexistente. Há pressão para construção de uma ferrovia ligando as ilhas vizinhas e um projeto para desenhar ciclovias nas vias.

Em termos de mobilidade, se considerarmos que o Brasil perde cerca de 40 mil pessoas por ano em acidentes de trânsito – o equivalente à população de Afuá, onde o número é zero –, talvez tenhamos muito o que aprender com esta cidade. Em termos de mudanças climáticas, uma cidade construída sobre as águas e cuja mobilidade não emite gases estufa pode ser uma pequena mostra de como vai ser o futuro. “Aqui, na época das lançantes [cheia do rio Amazonas em março], é uma festa”, explica a turismóloga Andra. “Aproveitamos para limpar a cidade, e todos saem para nadar, brincar e andar de bicicleta dentro d’água.”

Voltar de Afuá para uma metrópole pensada para os carros como São Paulo, atravessando um Brasil com centenas focos de queimadas visíveis da janela do avião, deveria exigir um período de despressurização. É mais ou menos como voltar de outro planeta. Enquanto a névoa de poluição tapa o sol da metrópole, sei que lá naquele pequeno planeta amazônico das bicicletas, o céu é azul e o tempo é outro.

Criança viaja em pé na garupa, segurando os ombros de quem pedala – uma cena recorrente em Afuá. 

Foto de Gabi Di Bella
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