Os gorilas que Dian Fossey salvou enfrentam novos desafios

Três décadas depois da pesquisadora revolucionária ser assassinada em Ruanda, a população dos gorilas aumenta – mas está sob pressão crescente. Thursday, December 28, 2017

Por Elizabeth Royte
Fotos de Ronan Donovan
Accepted without question by young members of Group 5, one of several families living near Karisoke Research Centre on Rwanda's lush Mount Visoke, Dian Fossey coaxes Tuck to turn around for a photograph. She informs the group of her approach with a belch vocalization, one of Gorilla gorilla beringei's signals ranging from harsh pig grunts of disapproval to sharp hoot barks of alarm. To put them at ease, she also imitates chest beating, eating, scratching, and grooming. She can then observe their natural feeding habits, track their movements, and listen in on their bickering and play.
Confira a reportagem completa: Os gorilas que Dian Fossey salvou na edição de janeiro de 2018 da revista National Geographic Brasil. Publicada por ContentStuff.

Pouco depois de amanhecer, dois gorilas-das-montanhas pulam o muro de pedra, da altura dos ombros de um homem, que marca os limites do Parque Nacional dos Vulcões, no noroeste de Ruanda. Os dois dorsos-prateados aterrissam com leveza na grama aparada e atravessam os campos cultivados que descem pela encosta – primeiro, apoiados nos nós dos dedos; depois, andando eretos só com as duas pernas. Os machos adultos aproximam-se dos eucaliptos e riscam a casca das árvores com os dentes incisivos. Fêmeas e jovens vêm se juntar a eles, e então o grupo todo, que os pesquisadores chamam de Titus, segue para um bosque de bambu.

Mais tarde nessa manhã, Veronica Vecellio, a diretora do programa para os gorilas da ONG Fundo Internacional Dian Fossey para o Estudo de Gorilas, acomoda-se em um tronco dentro do parque, no alto de uma encosta de mata cerrada, envolta em neblina, nas Montanhas Virunga, e observa um dorso-prateado apelidado de Urwibutso. Pulador de muro inveterado, Urwibutso dobra caprichosamente folhas de cardo, antes de levá-las à boca. Quando ele se vira na direção de Vecellio, uma animada estudiosa da dinâmica de grupo dos gorilas, ela tira uma foto, depois dá um zoom em uma ferida no nariz do bicho. “Ele lutou com outro dorso-prateado do Titus, hoje de manhã”, sussurra ela. (Dorso-prateado é a designação que se dá aos machos quando eles chegam à maturidade e um manto de pelo branco cobre as suas costas como uma sela.) 

Se Dian Fossey não tivesse protegido os gorilas e o seu hábitat, hoje estes primatas que descansam nas encostas altas do Monte Karisimbi talvez não existissem. Por outro lado, com os seus métodos, ela atraiu a inimizade de muitos nativos da região.

Há dez anos que o grupo Titus anda pulando o muro do parque, diz Vecellio, e a cada ano eles se aventuram mais longe. Isso não é nada bom. Os gorilas não comem a batata e o feijão que os moradores plantam – ainda não. Mas eles destroem árvores, um recurso valioso, e entram em contato próximo com seres humanos e excreções do gado, infestadas de patógenos. O potencial para que doenças se transmitam entre as espécies é grande, ao contrário da chance de os gorilas sobreviverem a um surto virulento. Por isso, quando o grupo Titus chega perto demais das casas de taipa de Bisate, onde vivem 10 mil pessoas, guardas do parque os enxotam de volta para o alto da montanha, agitando varas de bambu. Vecellio suspira: “É o preço que pagamos pelo sucesso”.  

Dian Fossey, uma americana sem experiência em pesquisa sobre animais selvagens, chegou à África em fins dos anos 1960 para estudar os gorilas-das-montanhas, incentivada pelo antropólogo Louis Leakey e financiada pela National Geographic Society. Em 1973, a população desses grandes primatas nas Montanhas Virunga caíra para 275 indivíduos. Hoje, são aproximadamente 480, graças a medidas conservacionistas extremas: monitoração constante, repressão à caça ilegal e intervenções veterinárias de emergência. 

Mais gorilas são uma dádiva para a diversidade genética. Durante anos, os pesquisadores documentaram evidências de endogamia – por exemplo, fenda palatina, pés e mãos com membranas entre os dedos. Por outro lado, o crescimento da população tem o seu lado ruim. “O tamanho dos grupos aumentou”, diz Vecellio. O grupo Pablo chegou a ter 65 membros, em 2006; diminuiu para cerca de 25, ainda assim, quase o triplo da média dos grupos nas Virunga em Uganda e na República Democrática do Congo. “A densidade em certas áreas também está em alta”, acrescenta.  

Confrontos entre grupos, que aumentam a chance de gorilas saírem feridos ou cometerem infanticídio para eliminar os genes de machos rivais, são hoje seis vezes mais frequentes do que dez anos atrás. “Também há um nível de estresse maior”, diz Vecellio. Esses problemas não seriam tão acentuados se os gorilas-das-montanhas tivessem um território ilimitado para se deslocar. Mas o Parque Nacional dos Vulcões possui apenas 160 quilômetros quadrados e vizinhos ávidos por mais terras de plantio e de pastagens. Os moradores têm o hábito de pular o muro do parque para pegar lenha, caçar, coletar mel e obter água. 

Por mais de uma década, Fossey viveu sozinha numa cabana úmida em um posto remoto que ela construiu entre duas montanhas, fervendo a água do banho, comendo enlatados, lendo e escrevendo à luz de lampião.

Com essa incursão matinal em busca de eucalipto e bambu, o grupo Titus mostra que está à vontade fora da floresta. No entanto, os gorilas têm baixa imunidade contra doenças humanas, e a sua atitude despreocupada na presença de pessoas torna-os vulneráveis. Os pesquisadores que estudam os gorilas de Ruanda sabem que estão documentando um momento único: não só o aumento da população de uma espécie criticamente ameaçada mas também uma possível correção das suposições sobre as regras que governam o comportamento social desses primatas.

Veja no National Geographic:
Dian Fossey: Mistérios de uma Vida conta a história do trabalho, da morte e do legado da célebre defensora dos gorilas. Estreia em 14 de janeiro, às 20h30.
Fossey usa uma máscara de crânio nesta foto de 1969, aproveitando as crenças dos pastores em feitiçaria para tentar afugentá-los da floresta. Ela também destruía armadilhas, surrava caçadores com urtigas e atacava os seus acampamentos.

Em uma manhã encoberta, de temperaturas não muito acima de 10°C, levo quase duas horas para subir a pé, com lama até as canelas e urtigas até os ombros, da orla de Bisate até a base de pesquisa que Dian Fossey estabeleceu, em 1967, numa depressão alta entre os montes Karisimbi e Visoke. Esse acampamento, que Fossey batizou de Karisoke, começou com duas barracas e foi crescendo até possuir mais de 12 cabanas e anexos em um bosque de coussos (Hagenia abyssinica), árvores de mais de 25 metros de altura revestidas de musgo. O ar é úmido e um riacho passa ao largo da clareira. Quando o corpo de um filhote de gorila desapareceu, a americana passou incontáveis horas agachada nesse riacho, examinando fezes de adultos em busca de evidências irrefutáveis de canibalismo, mas nada encontrou. 

Depois que um invasor assassinou Fossey na cama, em 1985, um crime que permanece um mistério, pesquisadores continuaram a trabalhar em Karisoke. O acampamento fechou, em 1994, durante o genocídio ruandês, e foi saqueado por rebeldes que atravessavam a floresta. Agora, o Centro de Pesquisa de Karisoke, muito maior, funciona em um moderno prédio de escritórios na vizinha Musanze, e os únicos vestígios de obra humana no local do acampamento são pedras do alicerce e algumas chaminés de fogão.

Apesar da subida, das chuvaradas e de temperaturas que podem cair abaixo de zero, cerca de 500 peregrinos por ano vêm a Karisoke prestar homenagem a Dian Fossey. Muitos a conhecem pelo livro que ela escreveu, Gorillas in the Mist, que inspirou o filme Nas Montanhas dos Gorilas. Mas, nessa minha visita, parece que tenho o lugar quase só para mim. Enquanto exploro os arredores, tentando imaginar a vida dela aqui, os zeladores, silenciosamente, limpam o líquen das placas de madeira que marcam as sepulturas de 25 gorilas. Na vizinhança desse cemitério rústico, uma placa de bronze assinala o túmulo de Fossey.

Alta e muito franca, Fossey não era benquista por todos. Muitas pessoas na região a consideravam intrometida ou uma bruxa que, além de não compreender as normas culturais, também  representava uma ameaça existencial para quem tirava o seu sustento da floresta. Desde o princípio, ela deixou claras as suas prioridades. Enxotou do parque os pastores e os seus animais, que pisoteavam as plantas preferidas pelos gorilas e forçavam os primatas a procurar as áreas mais altas, de temperaturas inóspitas. Ela destruía milhares de armadilhas e laços destinados a capturar antílopes e búfalos. As armadilhas não matavam os gorilas, mas prendiam membros e provocavam gangrenas ou infecções fatais. Ela capturava caçadores ilegais e os surrava com urtigas, queimava as suas cabanas, confiscava as suas armas – certa vez, fez de refém uma criança, filha de um caçador ilegal. Porém, a sua tática mais eficaz consistia em pagar a moradores para patrulhar o parque e insistir para que as autoridades ruandesas fizessem cumprir as leis contra a caça ilegal. Fossey era uma figura polarizadora, mas, como disse a primatóloga Jane Goodall, “se ela não tivesse estado lá, provavelmente hoje não existiriam gorilas-das-montanhas em Ruanda”.

Contemplo a placa simples na lápide de Fossey e me assombro com tantas coisas extraordinárias na vida dela: os seus 18 anos na floresta, as suas batalhas épicas por verba e pela legitimidade acadêmica, saúde física e laços emocionais. Ironia é pouco para o fato de que ela, enquanto mostrava ao mundo um reino pacífico de afetuosas famílias de gorilas, tinha uma vida pessoal marcada pela amargura e pela desconfiança. “Ela vivia sozinha, odiada por muitos”, diz Vecellio.

O túmulo fica a poucos passos do de Digit, o dorso-prateado que ela, a contragosto, transformou em uma fonte de recursos quando criou o Fundo Digit, depois que ele foi morto a facadas e decapitado por caçadores ilegais. Fossey precisava desesperadamente de dinheiro para pagar as suas equipes de rastreadores e vigilantes contra caça. Mas detestava a ideia de obter renda com o ecoturismo, e considerava os turistas que vinham ver os gorilas um fator para a extinção desses primatas – eles começaram a chegar a Karisoke em 1979, para contrariedade dela. Porém, foi a habilidade de Fossey para divulgar os seus estudos por meio de palestras e artigos que celebrizou a causa dos gorilas. Também foi ela quem inventou um jeito de habituar os gorilas aos seres humanos, sem o que o turismo para vê-los não existiria.

Agricultores do vilarejo de Bisate, nas imediações do Parque Nacional dos Vulcões, acostumaram-se a ver gorilas saírem da floresta para vir comer bambu, cultivado para uso como material de construção. Às vezes, gorilas do grupo Titus até dormem fora do parque, o que aumenta o risco de contraírem doenças.

Ruanda mal tolerou Fossey quando ela era viva – as autoridades negaram-lhe repetidamente os pedidos de visto e obstruíram os seus esforços para deter a caça ilegal. Mas o país percebeu depressa que a morte e o sepultamento daquela zoóloga em um parque nacional tinham, segundo Vecellio, “um enorme valor simbólico. Isso criou o sentimento de urgência e trouxe apoio internacional para a conservação”. No ano passado, mais de 30 mil pessoas vieram fazer trilha no parque, e cada uma pagou ao Departamento de Desenvolvimento de Ruanda, que supervisiona o turismo do país, 750 dólares por um encontro de uma hora com um grupo de gorilas. Agora, essa excursão custa 1 500 dólares, e a arrecadação paga pela segurança e monitoria assegura que o governo se empenhe em proteger a espécie. Mais turista significa mais dinheiro canalizado para as comunidades locais, através de um plano de compartilhamento de receitas, e isso repercute na forma de oportunidades de negócios.

As vantagens turísticas podem se expandir. O governo ruandês estuda a construção de uma estação de pesquisas climáticas no pico do Monte Karisimbi, a 4 507 metros de altitude. Um teleférico poderia levar os cientistas e os turistas até o topo. Mas grupos conservacionistas receiam que o projeto destrua o hábitat dos gorilas, e exigem um estudo dos impactos ambientais.

Após uma noite fria de chuva, uma mãe abraça seu bebê de três meses de idade, em uma floresta plantas cardo e lobélia. Gorilas-das-montanhas cuidam de seus filhotes por cerca de três anos, e depois se acasalam e procriam novamente.

A manhã vai alta quando meu guia localiza o grupo Sabyinyo não muito longe do limite do parque, entranhado numa densa floresta de bambu. Quando o aguaceiro amaina, antes de ver os animais já podemos ouvi-los arrancando e mastigando o cenário. Uma montanha de músculos, o dorso-prateado Gihishamwotsi está sentado em uma clareira de samambaias esmagadas e lobélias gigantes, controlando um harém de fêmeas e os seus bebês. De vez em quando, ele grunhe e recebe respostas guturais de gorilas que não estão à vista. Quando ele se levanta de repente e bate no peito, provoca uma reação mais forte em mim – que susto! –, mas não nos outros.

Eu pensava que uma vida inteira assistindo a documentários sobre vida selvagem e o fato de eu saber que gorilas e seres humanos têm, em comum, 98% do DNA iriam diminuir a empolgação de ver esses animais em carne e osso. Contudo, a 2 metros de distância, fico pasma: os pés dos bebês, lisinhos e polpudos como batatas-doces, os dedos das mães, parecendo linguiças, o antebraço do dorso-prateado, um regalo peludo tamanho gigante. E também me fascina a familiaridade dos seus gestos: eles se coçam como nós! Mexem no dedão do pé! Encostam o bebê no rosto! Na esteira dessa epifania, logo vem a culpa: isso é invasão da privacidade deles.

Terminada a minha hora, desço a montanha e vou me encontrar com Winnie Eckardt no Centro de Pesquisas de Karisoke. “Bem-vinda ao laboratório de cocô”, diz ela com um sorrisão. Eckardt estuda os gorilas-das-montanhas desde 2004, e supervisiona a coleta e o processamento mensal de amostras de fezes de 130 animais. As fezes contêm hormônios, enzimas e DNA, além de vírus e parasitas. (Saquinhos descartáveis são parte do equipamento de todos os guardas do parque.)

“A endocrinologia de animais selvagens é uma ferramenta poderosa”, diz ela. Os pesquisadores de Karisoke extraem das fezes de gorila o cortisol, hormônio do estresse, e estudam a correlação dos níveis desse hormônio com as interações que eles observam. “Podemos saber se determinado tipo de interação está causando estresse”, explica.

Em 2014, os pesquisadores compararam observações sobre a demografia e o comportamento de grupos de gorilas com análises genéticas do DNA extraído de amostras fecais. Os resultados esclareceram diferenças importantes no grau em que machos e fêmeas se distanciam do seu grupo natal – um dos principais fatores que determinam a estrutura genética de uma população.

O sequenciamento de DNA também informa sobre a paternidade dos gorilas. “Aprendemos com esses estudos que o dorso-prateado dominante é o pai da maioria dos bebês do grupo, mas não de todos”, diz Eckardt. Os números 2 e 3 também estão transmitindo os seus genes. Isso traz outras questões interessantes: como os gorilas não dominantes decidem entre permanecer em um grupo e tentar seduzir fêmeas para estabelecer um grupo novo? Que fatores estão associados ao êxito reprodutivo? Como um macho se mantém dominante? “A competição é braba”, frisa ela.

A análise de DNA, ao fornecer dados sobre endogamia e o êxito de várias linhagens familiares, também auxilia nas decisões conservacionistas. “Se os diretores só puderem salvar alguns grupos de gorilas, será melhor escolherem os que têm parentesco distante. Se houver intercruzamento, os animais não se comportarão normalmente ou poderão ter problemas de saúde, e aí teremos de monitorar de outras formas”, explica Eckardt. Menor diversidade genética também significa que os gorilas são mais vulneráveis a doenças e a transtornos causados por mudanças no clima.

Já foram publicados quase 300 artigos baseados em dados coletados em Karisoke. Porém, ainda há muito que aprender. “Alguém que tivesse feito um estudo de 1997 a 2007, um período longo, pensaria que aqui o infanticídio não acontece. Graças a dados anteriores e posteriores a esse período, sabemos agora que esse não é um comportamento incomum”, diz Tara Stoinski, presidente e diretora científica do Fundo Dian Fossey.

Nos anos 1970, os gorilas viveram em baixas densidades populacionais e sofreram muitas interferências humanas, como caça e pastoreio. Isso dividiu grupos e impeliu machos solitários a atrair fêmeas do seu grupo e matar os bebês delas para desencadear o cio. Conforme a caça diminuiu, o infanticídio também caiu. “Agora que temos alta densidade de grupos e pouca interferência humana, o infanticídio está aumentando devido às crescentes interações entre grupos. É fascinante ver como os gorilas reagem”, diz Stoinski.

Talvez uma das maiores surpresas para os funcionários do parque e para Stoinski, que publicou quase 100 artigos sobre comportamento e conservação de primatas, tenha sido a volta, em janeiro de 2017, de um dorso-prateado que eles supunham estar morto. Cantsbee, um dos dois últimos gorilas batizados por Fossey, era o macho mais longevo registrado. Reinava no grupo Pablo, o maior de Karisoke, e foi pai de, no mínimo, 28 bebês – um recorde. Depois que essa lenda de testa ruiva desapareceu, em outubro de 2016, aos 37 anos de idade, rastreadores passaram um mês vasculhando a mata à procura do corpo. O Fundo Dian Fossey chegou a publicar um obituário.  

O dorso-prateado Dushishoeze pisou em uma armadilha há uma década, quando tinha 4 anos, e foi resgatado por veterinários que trabalhavam no Fundo Dian Fossey. Equipes anticaça patrulham o Parque Nacional Vulcões diariamente. Ano passado removeram 566 armadilhas destinadas a gazelas e pequenos antílopes.

O retorno de Cantsbee subverteu muitas suposições sobre o comportamento dos machos dominantes. “Para um líder com a idade e o status dele, partir e depois voltar é coisa nunca vista. E ele parecia estar em ótima forma”, diz Stoinski.

Na ausência de Cantsbee, o seu filho Gicurasi tornara-se o líder do Pablo; quando Cantsbee voltou, liderou algumas vezes, mas nunca mais dominou. Em fevereiro de 2017, ele parecia fraco, e sumiu de novo. O seu corpo foi achado em maio.

Para os pesquisadores, tudo o que está acontecendo em Karisoke, hoje, demonstra o quanto os gorilas-das-montanhas, como a maioria dos primatas de cérebro grande, podem ser flexíveis. No tempo de Fossey, os grupos continham apenas dois ou três machos. Nos anos 1990 e começo da década seguinte, quando a interferência humana diminuiu, tornaram-se bem mais numerosos, com até oito dorsos-prateados. Mais recentemente, muitos grupos dividiram-se, em geral após a morte do macho dominante, e o resultado foi novamente a formação de grupos mais parecidos com os da época de Fossey. “Isso mostra que o comportamento não existe no vácuo. Depende de um contexto maior. Quando o ambiente e as circunstâncias mudam, muda também a organização social dos gorilas”, argumenta Stoinski. 

Embora as atividades humanas estejam impelindo cerca de 60% das espécies de primatas selvagens para a extinção, uma população de grandes primatas está crescendo. Todavia, ainda assim, os gorilas-das-montanhas de Virunga continuam vulneráveis. “A população é incrivelmente pequena e frágil”, alerta Stoinski.

Por isso, o Fundo Dian Fossey continua a monitorar os animais e a ajudar na remoção de armadilhas, enquanto investe em programas sociais. A organização montou uma biblioteca escolar e um centro de informática em Bisate, onde também construiu uma maternidade, fornece programas de educação conservacionista que ensinam cerca de 13 mil ruandeses por ano e planeja ajudar os moradores a encontrar meios de sustento que não incluam pular o muro do parque.

Fossey caminha com Coco e Pucker. As duas foram capturadas ainda bebês, em 1969, para um zoológico alemão e sofreram maus-tratos. Ela cuidou das órfãs até que se curassem, mas acabou perdendo a batalha legal para livrá-las do cativeiro.

Os gorilas já estão se deslocando para áreas do parque que contêm menos grupos. Mas os seres humanos também precisam ceder terras aos gorilas. O governo propôs uma zona de amortecimento que force as pessoas, o gado e as plantações a se instalarem mais abaixo, nas encostas. Isso causa tremenda polêmica, pois, no distrito de Musanze, habitam 700 pessoas por quilômetro quadrado. “Precisamos garantir que as comunidades entendam o valor do parque”, avalia Stoinski. Afinal de contas, as excursões para ver gorilas são o alicerce do turismo no país, e geraram 367 milhões de dólares em 2015 – o parque divide 10% dessa receita com as comunidades.

Vendo uma mãe gorila embalar o seu bebezinho enquanto dois adolescentes brincam de lutar sobre um tatami de trepadeiras, é fácil esquecer os malabarismos que os seres humanos têm de fazer para possibilitar esse esplêndido quadro vivo. Os críticos questionam se esses esforços não estariam consumindo dinheiro que poderia ser revertido em melhores resultados a outras espécies, e alguns sugerem até que a seleção natural está sendo subvertida por essa ajuda à sobrevivência dos menos aptos. Mas Vecellio defende o trabalho com toda convicção. “Estamos mantendo esses gorilas vivos, revertendo os impactos humanos”, diz ela, “porque foram os homens que fizeram deles uma espécie ameaçada.”

Veja no National Geographic:
Dian Fossey: Mistérios de uma Vida conta a história do trabalho, da morte e do legado da célebre defensora dos gorilas. Estreia em 14 de janeiro, às 20h30.

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