Fotos revelam o que armas nucleares deixam para trás

Uma remota área no Cazaquistão recebeu quase um quarto de todos os testes nucleares do mundo durante a Guerra Fria. O impacto em seus habitantes é devastador.

Por Alexandra Genova
fotografias de Phil Hatcher-Moore
Publicado 8 de nov. de 2017 20:36 BRST, Atualizado 5 de nov. de 2020 03:22 BRT
fantasmas-nucleares
Estruturas de concreto a cerca de 200 metros do local do primeiro teste nuclear soviético em Semipalatinsk, ao sul de Kurchatov, no Cazaquistão.
Foto de Phil Hatcher-Moore

Decadência e desolação marcam a paisagem de uma remota área nas estepes do Cazaquistão. Os lagos artificiais formados por explosões de bombas nucleares pontuam o terreno outrora plano, cenário quebrado apenas por ruínas vazias de edifícios. O local parece inabitável. No entanto, fantasmas – vivos e mortos – assombram a terra, ainda sobrecarregados pelos efeitos de um programa de testes nucleares encerrado há quase 30 anos.

O local, conhecido como o Polígono, sediou cerca de um quarto dos testes nucleares do mundo durante a Guerra Fria. A zona foi escolhida por estar desocupada, mas vários pequenos vilarejos agrícolas ocupavam seu perímetro. Embora alguns residentes tenham deixado o local durante o período de testes, a maioria permaneceu. Os danos, até hoje visível, são viscerais.

O fotógrafo Phil Hatcher-Moore passou dois meses documentando a região e ficou impressionado com o "a loucura desprezível feita pelo homem."

Seu projeto “Fantasmas Nucleares” encaixa a paisagem destroçada com imagens íntimas de aldeões que ainda sofrem.

Os números são surpreendentes – cerca de 100 mil pessoas ainda são afetadas pela radiação na área, transmitida por até cinco gerações. Mas com suas imagens sombrias, Moore procurou transformar os números abstratos em algo tangível.

Rustam Janabaev, 6, descansa em seu leito no Centro de Serviços Sociais Especiais para Crianças em Ayagoz, no leste do Cazaquistão. Rustam nasceu com hidrocefalia.

(Veja imagens históricas da devastação deixada pelas bombas de Hiroshima e Nagasaki)

"Contaminação radioativa não é algo necessariamente visível", diz ele. "Podemos falar sobre números, mas acho mais interessante focar em indivíduos que viveram a história".

Moore entrevistou todos os seus personagens antes de pegar a câmera, e percebeu que o segredo e a desinformação marcavam grande parte das experiências.

"[Durante os anos 1950], pediram que um homem pegasse sua barraca e fosse viver nas colinas com seu rebanho por 5 dias. Ele foi usado como objeto de estudo para ver o que aconteceria", diz Moore. "Eles nunca foram informados sobre o que estava acontecendo e certamente não sabiam dos riscos a que estavam sendo expostos".

Embora as histórias humanas fossem fundamentais, Moore também revelou os laboratórios de testes científicos que ainda estudam os danos. A justaposição desses laboratórios ao lado de retratos de pessoas desfiguradas pela radiação passa uma imagem desconfortável. No entanto, a proximidade é proposital.

"Era uma história onde humanos estavam sendo usados ​​como objetos de estudo vivos", diz Moore. "Eu queria colocar essas ideias juntas; a maneira como as pessoas eram usadas por pesquisadores na época e como isso afetou a vida dessas pessoas – os rostos e os significados".

Pássaros sobrevoam o cemitério de Semey durante tempestade de inverno.

Embora algumas das pessoas entrevistada por Moore possuam deformidades severas, muitos sofrem de problemas de saúde menos visíveis, como câncer, doenças do sangue ou transtorno de stress pós-traumático. E a natureza oculta e insidiosa de tudo isso é o que talvez seja mais preocupante. "Durante muito tempo, não houve muito desenvolvimento nuclear. Agora, é uma questão real", diz Moore. "Mas não falamos sobre o que é feito para renovar essas armas. Essas pessoas são o legado e as testemunhas do que foi feito para alcançar esses fins".

Veja mais do trabalho de Phil Hatcher-Moore em seu site e no Instagram.

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