História

Estranho fóssil pode ser raro inseto preservado em pedra preciosa

Especialistas estudam como objeto incrivelmente improvável se formou e quais segredos ele pode revelar. Terça-feira, 12 Fevereiro

Por John Pickrell

EM UMA DESCOBERTA diferente de tudo já visto antes, um pedaço de opala da ilha de Java, na Indonésia, carrega uma carga excepcional: um inseto incrivelmente preservado que pode ter de quatro a sete milhões de anos de idade.

Anteriormente, muitos insetos primitivos foram encontrados em âmbar, uma pedra preciosa feita de resina fossilizada de árvores. Quando os animais são revestidos pela resina fresca, ela os sepulta tão rápido que, com frequência, seus restos mortais ficam preservados em detalhes incríveis.

Mas, normalmente, a formação natural da opala envolve soluções de sílica concentradas em cavidades sob o solo durante milhares ou até mesmo milhões de anos, o que levanta questões sobre como um inseto poderia ter sido preservado dessa forma.

“É um objeto incrivelmente improvável — assim como muitas outras coisas raras e maravilhosas da natureza que pensávamos não existir, ou que considerávamos teoricamente impossíveis, até que se mostraram verdadeiras,” comenta Jenni Brammall, especialista em opalas e fósseis opalizados do Australian Opal Centre, em Lightning Ridge, Nova Gales do Sul.

Atualmente, a amostra está em domínio privado e ainda precisa ser minuciosamente estudada por paleontólogos ou geoquímicos. Mas, se confirmada, a descoberta pode não apenas representar uma fonte antes desconhecida de valiosos fósseis, ela pode alterar nosso conhecimento sobre uma popular pedra preciosa.

Brammall sabe da amostra desde 2017 e também viu imagens de um segundo possível inseto em opala proveniente da mesma mina, em Java. Contudo, como ela apenas viu fotos e ainda não foram publicadas pesquisas científicas, ela diz que é difícil dar uma opinião bem informada sobre a amostra.

“Não tenho motivos para duvidar de sua autenticidade, a não ser pelo fato de ser tão improvável, mas temos que esperar e ver o que a ciência nos diz", diz Brammall. “Espero que seja autêntica, porque se for, vai revelar algumas coisas realmente fascinantes sobre a formação de opalas”.

Preenchendo lacunas

Um vendedor de opalas javanês encontrou a estranha amostra em 2015, e ela passou por diversas mãos antes de ser trazida por Brian T. Berger, um gemologista e negociante da Filadélfia, Pensilvânia. No começo, o próprio Berger tinha dúvidas quanto à autenticidade da amostra, então ele a enviou ao Instituto Gemológico da América (GIA) para análise. Os especialistas do instituto confirmaram para a National Geographic que acreditavam que a amostra era uma opala natural genuína que não havia sido adulterada.

"Eu achava que isso só podia ter sido falsificado", conta Berger. "Esse é algum tipo de novo tratamento ou algo do tipo, mas eu analisei a pedra, e tudo parecia estar de acordo… e o GIA confirmou os achados". Desde então, Berger escreve sobre a amostra em publicações em forma de blog para o projeto Entomology Today.

Diversos fósseis em opala foram encontrados em Lighting Ridge, na Austrália, apesar do processo lá ser diferente. Esses fósseis de "reposição" se formaram quando espaços no solo, uma vez ocupados por ossos e dentes, foram preenchidos por soluções de sílica que se tornaram opala, como geleia em um molde. Phil Bell, paleontólogo da Universidade de Nova Inglaterra em Armidale, Austrália, recentemente descreveu uma nova espécie de dinossauro a partir de fragmentos fósseis opalizados dessa maneira.

“Fósseis opalizados, sem dúvida, passaram por milhões de anos de história no subterrâneo, sendo amassados, aquecidos, entre outras coisas,” diz. Embora não seja impossível, ele demonstra não acreditar que um inseto possa ter sido preservado da mesma maneira.

Em vez disso, Berger e vários especialistas acreditam ser possível que a amostra seja feita de âmbar e que, de alguma forma, tenha sido opalizada.

“Meu instinto diz que parece um pedaço de âmbar embutido em opala,” comenta Ryan McKeller, que realiza pesquisas em fósseis em âmbar no Royal Saskatchewan Museum em Regina, Canadá. Madeira fossilizada em opala é comum em Java, o que sugere uma possível rota para a resina da árvore ter sido incrustada em opala.

“A opala normalmente preenche espaços”, diz McKeller. “Nesse tipo de cenário, uma tora pode ter sido opalizada, deixando seu conteúdo em âmbar revestido”. Uma amostra conhecida de âmbar canadense preencheu uma fenda em um pedaço de madeira e, subsequentemente, foi transformada em sílica do lado de fora, conta.

“A nova amostra pode ter passado por um processo semelhante, mas são apenas especulações até que as análises químicas sejam realizadas e os pesquisadores analisem bem a preservação do inseto”.

Aguardando a análise

Até que a amostra seja submetida a uma análise científica completa, muitos especialistas também estão relutantes em dar um palpite quanto ao tipo de inseto preso dentro dela.

Considerando a aparência enrugada das asas, pode representar uma forma adulta de um inseto com asas que havia saído recentemente de seu estágio de pupa, diz Ricardo Pérez-de la Fuente, paleoentomologista do Museu de História Natural da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Mas ele enfatiza que é essencial que o inseto seja estudado formalmente antes que alguém possa oferecer “argumentos suficientemente críveis” sobre sua biologia.

Thomas van de Kamp, entomologista do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, na Alemanha, é um dos especialistas que esperam estudar a amostra. Ele quer utilizar um síncrotron para tirar um raio-x detalhado e criar uma reconstrução em 3-D que proporcionará uma descrição abrangente do animal.

Muitos dos insetos fósseis conhecidos foram encontrados em âmbar e, por isso, provavelmente eram espécies que viviam em árvores. Se a amostra recém-descoberta tiver se formado apenas em opala, pode representar um raro vislumbre de uma criatura de um tipo diferente de ambiente.

“Portanto, outros tipos de insetos preservados em 3-D são extremamente valiosos para ampliar nossa visão”, afirma van de Kamp.

Berger diz que atualmente está em discussão com especialistas do museu e outros pesquisadores ao redor do mundo sobre uma colaboração para realizar um estudo científico na amostra. Após isso, diz, ele gostaria que a amostra fosse exibida em um museu.

“Posso vendê-la para um museu, posso doá-la ou posso ficar com ela e apenas emprestar para fins de exibição," diz. "Ainda não decidi”.

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