História

Encontrado último navio negreiro dos EUA, que naufragou mais de 50 anos após abolição do tráfico no país

A escuna Clotilda contrabandeou africanos para escravizá-los nos Estados Unidos em 1860, mesmo com a proibição do tráfico para escravidão no país.Friday, May 24, 2019

Por Joel K. Bourne, Jr.
Cento e nove africanos traficados sobreviveram à jornada brutal de seis semanas do oeste da África ao Alabama no porão apertado do Clotilda. Construída originalmente para transportar carga e não pessoas, a escuna tinha um projeto e dimensões únicas: um fato que ajudou os arqueólogos a identificar a carcaça.

A escuna Clotilda — o último barco conhecido a trazer africanos escravizados à costa dos Estados Unidos — foi descoberta em um afluente remoto do rio Mobile, no estado do Alabama, após uma intensa busca feita por arqueólogos marítimos e que durou um ano inteiro.

"Descendentes dos sobreviventes do Clotilda sonham com essa descoberta há gerações", afirma Lisa Demetropoulos Jones, diretora executiva da Comissão Histórica do Alabama (AHC) e Diretora de Preservação Histórica do Estado. "Estamos empolgados em anunciar que o sonho deles se realizou".

Os negros traficados trazidos a bordo do Clotilda foram os últimos de uma estimativa de 389 mil africanos entregues à escravidão nos Estados Unidos no período compreendido entre o início da década de 1600 a 1860. Milhares de embarcações faziam o comércio transatlântico, porém muito poucos naufrágios de navios negreiros foram encontrados.

Arqueólogos marítimos recolheram pregos, cavilhas e parafusos utilizados para prender as tábuas e os mastros do navio. Feitos de ferro forjado à mão, esses prendedores eram comuns em escunas construídas em Mobile em meados do século 19.

"A descoberta do Clotilda lança uma nova luz sobre um capítulo perdido da história dos Estados Unidos", afirma Fredrik Hiebert, arqueólogo residente da National Geographic Society, que financiou a busca. "Esse achado também é uma parte fundamental da história de Africatown, construída pelos resistentes descendentes do último navio negreiro dos Estados Unidos".

Alguns raros relatos em primeira mão feitos por proprietários de negros escravizados e suas vítimas oferecem um vislumbre único do comércio de negros escravizados no Atlântico, afirma Sylviane Diouf, respeitada historiadora da diáspora africana.

"É a história mais bem documentada de uma viagem de negros traficados para a escravidão no Hemisfério Ocidental", conta Diouf, cujo livro de 2007, intitulado Dreams of Africa in Alabama (Sonhos da África no Alabama, em tradução livre), apresenta crônicas da saga do Clotilda. "Os negros escravizados foram desenhados, entrevistados e até filmados", afirma ela, referindo-se a alguns que viveram até o século 20. "O organizador da viagem falou a respeito. Foi o capitão do navio quem escreveu a respeito. Então temos a história contada a partir de várias perspectivas. Nunca vi nada parecido em nenhuma outra circunstância”.

A história do Clotilda começou quando Timothy Meaher, um rico proprietário de terras e construtor de navios de Mobile, apostou mil dólares com vários comerciantes que ele poderia contrabandear uma carga de africanos até a Baía de Mobile embaixo do nariz de oficiais federais.

O tráfico de negros escravizados aos Estados Unidos tinha sido proibido em 1808 e os proprietários de terras do Sul viram dispararem os preços no comércio nacional de negros escravizados. Muitos, incluindo Meaher, defendiam a reabertura do comércio.

O Cemitério Old Plateau (também conhecido como Cemitério de Africatown) tornou-se o local de descanso final de muitos sobreviventes do Clotilda que se estabeleceram na comunidade, incluindo Lewis.

Meaher fretou uma escuna elegante e ligeira chamada Clotilda e encarregou seu construtor, o capitão William Foster, de levá-la até o notório porto de negros aprisionados de Ouidah, localizado na região atual de Benin, para comprar os negros para o tráfico. Foster deixou o oeste da África com 110 homens jovens, mulheres e crianças apinhados no porão da escuna. Consta que uma menina morreu durante a brutal jornada de seis semanas. Comprada por US$ 9 mil em ouro, a carga humana valia vinte vezes mais essa cifra no Alabama em 1860.

Após transferir os negros traficados para uma embarcação fluvial de propriedade do irmão de Meaher, Foster incendiou e afundou o barco negreiro para ocultar seu crime. O Clotilda guardou seus segredos por décadas, ainda que alguns tenham contestado a ocorrência do vergonhoso episódio.

Após o fim da Guerra Civil e a abolição da escravatura, os africanos ansiavam por retornar a seu lar no oeste da África, mas, por carecer de meios suficientes, acabaram comprando pequenos lotes de terra ao norte de Mobile e formaram sua própria comunidade unida que passou a ser conhecida como Africatown. Lá eles iniciaram uma nova vida, mas nunca perderam sua identidade africana. Muitos de seus descendentes ainda vivem por lá hoje e cresceram ouvindo histórias do famoso barco que trouxe seus ancestrais ao Alabama.

A cientista forense Frankie West examina amostras de madeira do porão do navio na esperança de obter DNA do sangue ou fluidos corporais dos negros escravizados.

"Seria importante encontrarem provas desse barco", previu a descendente Lorna Woods no início deste ano. "Tudo que mamãe nos contou seria reconhecido. Seria muito bom para nós."

Mary Elliott, curadora do Museu Nacional Smithsoniano de História e Cultura Afro-Americana, concorda.

"Há muitos exemplos hoje — a rebelião racial de Tulsa de 1921, esta história, até o Holocausto — que muitos alegam que nunca tenham ocorrido. Agora, por causa da arqueologia, da pesquisa de arquivos, da ciência aliada às memórias coletivas da comunidade, isso não pode ser refutado. Agora os descendentes estão ligados a seus ancestrais de uma maneira palpável, pois sabem que a história é verídica".

A busca pela história perdida

Foram feitas várias tentativas de localizar os destroços do Clotilda ao longo dos anos, mas o Delta de Mobile-Tensaw tem um predomínio de lamaçais, brejos e afluentes, além de abrigar diversos destroços de mais de três séculos de atividade marítima. Então, em janeiro de 2018, um jornalista local informou ter encontrado os destroços de um grande navio de madeira durante uma maré anormalmente baixa. A AHC, proprietária de todos os navios abandonados nas águas do estado do Alabama, chamou a firma de arqueologia Search, Inc., para investigar o casco.

A embarcação em questão acabou sendo outro navio, mas o alarme falso despertou a atenção nacional para o navio negreiro perdido há muito tempo. O incidente levou a AHC a financiar outras pesquisas em parceria com a National Geographic Society e a Search, Inc.

Os pesquisadores se debruçaram sobre centenas de fontes originais do período e analisaram registros de mais de 2 mil navios que operaram no Golfo do México no final da década de 1850. Eles descobriram que o Clotilda era uma das únicas cinco escunas construídas no Golfo com seguro na época. Os documentos de registro continham descrições detalhadas da escuna, inclusive de sua construção e dimensões.

"O Clotilda era uma embarcação atípica, construída de forma personalizada", afirma James Delgado, arqueólogo marítimo da Search, Inc. "Havia apenas uma escuna construída no Golfo com cerca de 26 metros de comprimento, um mastro de 7 metros e um porão de 1,8 metros por 30 centímetros aproximadamente e essa escuna era o Clotilda".

Os registros ainda mostram que a escuna foi construída com tábuas do pinheiro amarelo do sul sobre uma estrutura de carvalho branco e estava equipada com uma placa central de quase 4 metros que podia ser levantada ou abaixada conforme necessário para acessar portos rasos.

O arqueólogo marinho James Delgado faz uma varredura em uma seção do rio Mobile durante a busca pelo lugar de descanso final de Clotilda.

Com base em sua pesquisa sobre as possíveis localizações, Delgado e o arqueólogo do estado do Alabama, Stacye Hathorn, concentraram-se em um trecho do rio Mobile que nunca tinha sido dragado. Com auxílio de mergulhadores e uma série de aparelhos — um magnetômetro para detectar objetos metálicos, um sonar de varredura lateral para localizar estruturas no fundo do rio e acima e uma sonda de perfis de subsuperfície para detectar objetos enterrados abaixo do lodoso leito do rio — eles descobriram um verdadeiro cemitério de navios naufragados.

A maioria foi facilmente eliminada: tamanho errado, casco metálico, tipo incorreto de madeira. Mas uma embarcação, identificada como Target 5 (Alvo 5, em tradução livre) sobressaiu do resto. Ela "era compatível com tudo o que foi registrado sobre o Clotilda", afirma Delgado, como o projeto, as dimensões, o tipo de madeira e metal utilizado em sua construção e as evidências de que tinha sido incendiada.

Amostras colhidas da Target 5 são de carvalho branco e pinheiro amarelo do sul da costa do golfo. Os arqueólogos também descobriram os destroços de uma placa central do tamanho correto.

Os prendedores metálicos do casco são feitos de ferro gusa forjado a mão, que se sabe que é do mesmo tipo utilizado no Clotilda. E há evidências de que o casco foi originalmente revestido de cobre, prática comum na época para navios mercantes que cruzavam o oceano.

Nenhuma placa de identificação ou outros artefatos inscritos identificaram a carcaça de forma conclusiva, mas analisando as diversas evidências, é possível chegar a uma conclusão lógica", afirma Delgado.

Um memorial nacional ao navio negreiro?

Os destroços do Clotilda agora transportam os sonhos de Africatown, que sofreu com declínio da população, pobreza e uma série de problemas ambientais causados por indústrias pesadas ao redor da comunidade. Os residentes esperam que os destroços atraiam turismo e empresas, e que o emprego retorne a essa comunidade. Alguns sugeriram que o barco fosse retirado e colocado em exposição.

A comunidade recebeu recentemente quase US$ 3,6 milhões em razão do acordo judicial referente à plataforma Deepwater Horizon da BP para reconstruir o centro de visitantes destruído em 2005 pelo furacão Katrina. Contudo o que restou dos destroços incendiados está em condições muito precárias, afirma Delgado. Restaurá-lo custaria muitos milhões de dólares.

No entanto um memorial nacional ao navio negreiro — semelhante à sepultura aquática do U.S.S. Arizona em Pearl Harbor — pode ser uma opção. Lá, os visitantes poderiam refletir sobre os horrores do comércio de negros escravizados e se lembrar da enorme contribuição da África na formação dos Estados Unidos.

"Ainda vivemos as consequências da escravidão", afirma Paul Gardullo, diretor do Centro de Estudos da Escravidão Global do Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana e membro do Projeto Slave Wrecks (Naufrágios de Navios Negreiros, em tradução livre) que participou das buscas do Clotilda. “Continuamos a luta contra a escravidão. A escravidão continua vindo à tona porque não resolvemos nosso passado. Se fizermos nosso trabalho direito, teremos a oportunidade não apenas de nos reconciliarmos, mas também de alguma mudança concreta”.

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