História

Pé de ave pré-histórica encontrado em âmbar possui dedos estranhamento longos

O membro fossilizado descoberto em Mianmar possui pés jamais vistos antes em nenhuma outra ave, viva ou morta.domingo, 21 de julho de 2019

Por Michael Greshko
Uma nova espécie de enantiornithine, um grupo extinto de aves da era dos dinossauros, possui dedos médios estranhamente longos nos pés, como mostra esta ilustração. Acredita-se que o dedo médio era utilizado para encontrar alimentos em troncos de árvores, como o longo dedo médio do aie-aie de Madagascar.

SE FOSSE POSSÍVEL voltar no tempo e viajar para o Mianmar de 99 milhões de anos atrás, veríamos florestas repletas de enantiornithines, primos das aves modernas que possuíam dentes. Quando vista de relance, uma dessas aves antigas poderia lembrar um papagaio moderno — exceto pelos dedos estranhamento longos no pé, uma adaptação nunca antes vista em nenhuma ave, viva ou morta.

A ave recém-descoberta, Elektorornis chenguangi, foi encontrada revestida por menos de seis gramas de âmbar, relataram os cientistas no periódico Current Biology. O pedaço de resina de árvore fossilizada preserva parte do membro posterior direito da ave, com seiva claramente misturada à carcaça. Embora haja sinais claros de deterioração, — a pele, congelada no tempo, está se desprendendo do osso — o fóssil também preserva a estrutura do pé da ave, incluindo seus dedos médios extraordinariamente longos.

Se a mão humana tivesse proporções semelhantes ao pé do Elektorornis, o nosso dedo médio seria mais de 60% mais longo que o nosso dedo indicador — proporções tão bizarras, que suas funções atualmente intrigam os cientistas.

"O mais interessante é que trata-se de uma ecologia que não existe mais, apesar do fato de termos cerca de 9 mil a 18 mil espécies de aves hoje", afirma uma das principais autoras do estudo Jingmai O’Connor, paleontóloga do Instituto de Paleontologia e Paleoantropologia de Vertebrados da China (IVPP).

O pé da nova espécie de enantiornithine foi encontrado em um pedaço de âmbar birmanês.

E mais, o Elektorornis é o primeiro gênero de ave descrito a partir de um fóssil em âmbar. Ao passo que outras peças de âmbar já foram encontradas contendo restos de aves, esses fósseis anteriores não estavam completos ou nítidos o suficiente para permitir que o cientistas identificassem o gênero. Isso não aconteceu com o Elektorornis, cujo pé se destaca do resto a ponto de tornar sua classificação mais clara.

"Esse achado é muito importante para o estudo do âmbar", disse Lida Xing por e-mail, o outro principal autor do estudo, Explorador da National Geographic e paleontólogo da Universidade de Geociências da China. Ele considera o Elektorornis "um animal totalmente novo, que viveu em um meio também novo".

Angariando novos conhecimentos

Há uma pista intrigante do por quê o Elektorornis tinha dedos tão longos: o pé revestido em âmbar preserva pedaços da pele e das penas circundantes, incluindo escamas denominadas escutelos. As aves de hoje possuem estruturas semelhantes que atuam um pouco como o bigode dos gatos, ajudando-as a detectar insetos voadores ou alterações sutis no fluxo de ar durante o voo. Independentemente de como o Elektorornis usava os seus dedos, é possível que ele contava com o seu sentido de tato.

Por enquanto, o melhor palpite é que o Elektorornis usava seus extraordinários dedos para procurar insetos em troncos de árvores, como uma versão aviária do aie-aie de Madagascar, um lêmure que usa seus dedos alongados da mão para coletar alimentos e larvas de insetos.

"Sei que é uma suposição bastante simplista, mas, para ser sincera, é tudo o que temos", afirma O'Connor. "Considerando que muitas penas possuem função tátil, e que essas estranhas penas táteis que se parecem com cerdas cobrem todo o pé e o dedo alongado, faz sentido supor que os dedos eram usados como auxiliares na busca por alimentos, bem semelhante a um aie-aie".

A interpretação é plausível, afirma Santiago Claramunt, curador associado de ornitologia do Museu Real de Ontário, em Toronto. Algumas aves de hoje, como os arapaçus da América do Sul e os pássaros da família Phoeniculidae da África Subsaariana, também vasculham troncos ocos em busca de insetos, mas eles o fazem com bicos especializados.

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"Essas aves primitivas tinham dentes e seus bicos eram diferentes e mais parecidos com o formato de um lagarto", afirma Claramunt. "Provavelmente, a opção de desenvolver um bico bastante longo, fino e curvado não era possível para essas aves pré-históricas, então esse pode ser um equivalente ecológico".

Novos fósseis ajudariam a esclarecer como o Elektorornis vivia. Claramunt adoraria ver o crânio, a base da coluna e o esterno da ave, que ajudariam a mostrar como ela se alimentava e se realmente conseguia escalar o tronco de árvores, em vez de apenas buscar comida entre gravetos e galhos. Mas por enquanto, o pé já é suficiente para impressioná-lo. E O'Connor sugere que existam fósseis em âmbar ainda mais peculiares.

"Essa ecologia em especial não é utilizada pela diversidade atual [de aves], e isso também será bastante interessante com todos os demais espécimes em âmbar sobre os quais publicaremos em breve", explica ela. "Pelo menos os próximos dois, acredito serem claramente nichos ecológicos extintos".

Campo minado da ciência

O pedaço polido de âmbar que contém o Elektorornis faz parte do acervo do Hupoge Amber Museum, em Tengchong, China, que também abriga um filhote de enantiornithine em resina fossilizada. O nome da espécie, chenguangi, homenageia Guang Chen, um dos curadores do museu.

De acordo com Xing, Chen ficou sabendo do fóssil em 2014, quando um minerador lhe mostrou um estranho pé de animal. Em um primeiro momento, o minerador pensou que o membro com dedos longos pertencia a um lagarto pré-histórico, pois era semelhante ao pé dos lagartos da região. Mas quando Chen viu que o pé possuía apenas quatro dedos, ele entrou em contato com Xing.

"Fui realmente surpreendido [pelo fóssil] na época, que é, sem dúvidas, a garra de uma ave", diz Xing por e-mail.

A descoberta representa o mais recente fóssil a emergir do Vale Hukawng, uma região no estado de Kachin, ao norte de Mianmar, que possui reservas de âmbar há pelo menos 2 mil anos. Há cerca de 99 milhões de anos, a região abrigava florestas costeiras repletas de árvores das quais escorria resina. Toda essa resina endureceu em algum momento, preservando traços dos diversos pequenos residentes do ecossistema. Até o momento, paleontólogos relataram a descoberta de restos mortais de dinossauros emplumados, aves pré-históricas, cobras e invertebrados de todos os tipos — até mesmo de uma concha em espiral de um extinto molusco marinho.

Na última década, o número de descobertas de fósseis em âmbar birmanês aumentou consideravelmente, em boa parte devido ao trabalho de Xing. Sua pesquisa — incluindo seu trabalho sobre o Elektorornis — é em parte financiada pela National Geographic Society.

Mas, conforme se intensificam os estudos sobre o âmbar birmanês, também aumentam as questões éticas em campo. Há décadas, a minoria étnica de Kachin luta contra o exército de Mianmar por independência, e os recursos minerais da região — incluindo o âmbar — ajudam a financiar os conflitos.

Tecnicamente, a exportação de fósseis de Mianmar é ilegal sem permissão, mas âmbar bruto é classificado como pedra preciosa, então, ele é facilmente encontrado nos mercados do oeste da China, onde é cortado, polido e comercializado. Pesquisadores, comerciantes e colecionadores vasculham os mercados em busca de itens cientificamente valiosos, sendo que alguns investem centenas de milhares de dólares por ano. Alguns fósseis acabam finalmente chegando a instituições científicas, mas outros têm como destino acervos particulares e os proprietários podem ou não apoiar a realização de pesquisas envolvendo seus pertences.

O Hupoge Amber Museum ocupa uma posição intermediária nessa história. Ele é mantido pela Associação de Âmbar da Cidade de Tengchong, um grupo que também possui duas grandes lojas de âmbar, uma em Myitkyina, capital do estado de Kachin, no Mianmar, e outra na cidade de Tengchong, no oeste da China. Xing informa ainda que o curador, Chen, é proprietário de algumas reservas de âmbar e de um museu particular de espécimes em âmbar especialmente raras.

Xing espera que museus como os de Chen ajudem a disponibilizar mais acervos particulares. Outros museus privados, como o Lingpoge Amber Museum em Xangai, não recebem muitas visitas do público e recebem cientistas estrangeiros apenas mediante convite.

"Essa é uma longa história, mas resumidamente, estou comprometido em formalizar esses grandes acervos particulares", diz Xing por e-mail. "Trata-se de uma boa oportunidade".

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