Dez anos após ser devastado por terremoto, Haiti ainda vive em cenário desolador

No décimo aniversário da tragédia, país parece estar na iminência de uma crise mais profunda. Conflitos políticos, economia arrasada, pobreza e desesperança compõem a realidade social haitiana.quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Por Jacqueline Charles

PORTO PRÍNCIPE, HAITI Diante da Catedral de Notre-Dame em Porto Príncipe, devastada pelo terremoto, Ketly Paul observa as ruínas onde antes ficavam os vitrais e os bancos da catedral.

terremoto devastador de 12 de janeiro de 2010 no Haiti ceifou cerca de 316 mil vidas, deixou 1,5 milhão de feridos e outros 1,5 milhão de desabrigados quando atingiu uma região a cerca de 24 quilômetros a sudoeste da capital.

Mas Paul, como tantos haitianos, acreditava que a ajuda humanitária e os US$ 13,3 bilhões da comunidade internacional reconstruiriam a catedral, garantiriam sua moradia após o desmoronamento de sua casa e tornariam a vida melhor no instável país.

Em vez disso, dez anos depois, o Haiti ainda está longe de uma recuperação e está mergulhado em conflitos políticos que levaram as empresas à falência, deterioraram a economia e desanimaram os doadores estrangeiros que antes corriam para ajudar na reconstrução.

Embora tenham desaparecido as cidades de barracos improvisados e escombros que antes cobriam Porto Príncipe, algumas se transformaram em assentamentos permanentes sem eletricidade, saneamento ou segurança para mais de 32 mil sobreviventes do terremoto.

Duas das estruturas mais emblemáticas do país — a catedral e o palácio presidencial — ainda não foram reconstruídas. E seis anos após o início da construção de um novo hospital público de US$ 100 milhões, prometido pelos Estados Unidos e pela França, o complexo continua uma carcaça vazia, suas obras foram temporariamente interrompidas devido a uma disputa por dinheiro.

Paul, mãe de cinco filhos, com 47 anos, ainda vive debaixo de uma lona, a poucos passos da Notre-Dame. Poucas casas permanentes foram construídas e ainda persiste o debate sobre quanto do auxílio chegou — e para onde foi destinado. Em vez do futuro brilhante esperado por muitos após o terremoto de magnitude 7.0, o Haiti enfrenta agora uma de suas piores crises econômicas, à medida que intensifica o descontentamento popular generalizado em toda a nação empobrecida, e os haitianos perdem cada vez mais a esperança nos líderes políticos.

Antes do terremoto, a situação estava melhorando no Haiti. A economia estava melhor, investidores estrangeiros cogitavam oportunidades de investimento e os próprios haitianos estavam esperançosos em relação ao futuro.

Mas o caos político piorou após o desastre e as duas eleições presidenciais e legislativas seguintes. Esse caos acabou prejudicando o ritmo de recuperação. Protestos públicos contra a corrupção resultaram em uma manifestação radical de descontentamento que, por três vezes em 2019, levou a uma paralisação completa do país.

Conhecidos como 'Peyi Lòk' em crioulo, foram feitos bloqueios em todo o país por meio de barricadas em ruas com pneus em chamas, pedras e tudo que estivesse ao alcance dos manifestantes contrários ao governo a fim de impedir o trânsito no interior e ao redor da capital e entre cidades. No processo, estudantes perderam mais de 50 dias de aulas, os hotéis fecharam e demitiram funcionários, resultando em uma crise humanitária.

Alimentando ainda mais o já crescente descontentamento, auditores do governo afirmaram ter sido desviada a ajuda de US$ 2 bilhões recebidos pelo Haiti de um programa de petróleo da Venezuela, destinados a um movimento de combate à corrupção, que deveriam ser investidos em projetos após o terremoto.

No décimo aniversário do terremoto, o Haiti parece estar na iminência de uma crise mais profunda. O país está sem um parlamento ou governo funcional e seu presidente governará por decreto.

Enquanto isso, haitianos como Paul lutam para sobreviver.

Uma crise econômica — causada pela desvalorização da moeda nacional, pela escassez de dólares norte-americanos em razão da redução de ajuda externa e da saída das tropas de paz da ONU após 15 anos, bem como pela má administração do governo — provocaram a falta de combustível, a disparada da inflação e a intensificação da pobreza. Manifestantes contrários à corrupção fecharam escolas e empresas em 2019 e bloquearam as principais vias por meses.

Com o desmoronamento de mais de 100 mil construções em 35 segundos em decorrência do terremoto e restando apenas um ministério do governo, o Haiti teve um difícil caminho à frente. As inúmeras crises, além da chamada fadiga de doadores do Haiti, tornaram o progresso ainda mais difícil.

Iris Daniel, Lovely Jean-Pierre e Evanston Daniel, de cinco anos, do lado de fora do abrigo improvisado onde ficava sua casa. A casa deles foi destruída em um incêndio durante uma guerra de facções na favela de La Saline, em Porto Príncipe, em 2018. “Quando o tiroteio começou, meu marido ficou para trás”, afirmou Jean-Pierre, de 32 anos. “Aqui temos apenas paredes de chapa metálica. A bala atravessou com facilidade e o matou.” O combate durou 14 horas e terminou com dezenas de mortos e o bairro incendiado.
Foto de Chandan Khanna, Getty IMages

“Como nação, como estado, fracassamos”, afirmou Leslie Voltaire, urbanista e arquiteta que esteve entre os envolvidos nos primeiros dias da recuperação.

Os fracassos são notados em toda capital de Porto Príncipe, onde até mesmo os sucessos apresentam entraves.

Após o terremoto, foram construídos vários novos hotéis à prova de terremoto, mesmo sem a aprovação de um código de construção nacional pelo parlamento do país. Contudo, com a paralisação do país pela terceira vez em meses devido à crise política do ano passado, ao menos um desses hotéis, o Best Western, anunciou o seu fechamento ao passo que outros demitiram funcionários sem alarde.

“Não há presidente, não há país, não há estado”, afirmou Ketly Paul.

O terremoto matou os principais intelectuais, artistas, feministas e outros renomados incentivadores de mudanças da sociedade haitiana, e a partida deles é lamentada até hoje em vista das dificuldades atuais e futuras enfrentadas pelo país.

O presidente Jovenel Moïse, um líder já impopular, já começou a enfrentar o fantasma da intensificação dos protestos no início de seu governo de um homem só na segunda-feira, 13 de janeiro.

O governo não realizou eleições em outubro para parte do Senado, toda a câmara dos deputados do Parlamento e todos os vereadores e, com isso, o presidente Moïse governará por decreto. Em meio às novas tensões, os haitianos questionam se ele utilizará seu governo de um homem só para usurpar o poder em proveito próprio. A falta de um governo desde março de 2019 já despertou preocupações e algumas das principais organizações empresariais do país acusam o presidente de demonstrar tendências ditatoriais.

A falta de governo também interrompeu a ajuda da comunidade internacional, que poderia evitar uma crise humanitária com o potencial de afetar quatro milhões de haitianos neste ano, segundo a ONU.

No meio do furor político estão milhões de haitianos pobres, como Paul, que vivem abaixo da linha da pobreza com menos de US$ 2,41 por dia, segundo o Banco Mundial.

Enraivecida pela crise, ela está ainda mais zangada com o presidente, acusado de corrupção, violações de direitos humanos e ingerência da economia.

“O presidente não se importa com a população, não se importa com nada”, afirmou ela. “Faz 10 anos que moro nas ruas.”

Sua casa temporária é um barraco improvisado, a porta é um pedaço de madeira solta, o chão é uma laje de concreto e a lona cinza que recobre possui a inscrição “USAID” — a sigla em inglês da Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos.

Paul conta que o crime desenfreado e os violentos protestos na região nunca a deixam dormir à noite e que sempre fica de olho nos filhos. “Agora estão ateando fogo, então fico acordada, caso precise correr com as crianças”, disse ela.

Desde o início das paralisações em todo o país, o negócio de Paul como ambulante degringolou. Os ganhos com a venda de aguardente haitiano, cigarros e tudo o que ela podia vender não eram suficientes para lhe dar um teto decente, mas era um meio de vida, afirmou ela, permitindo-lhe dar o que comer aos filhos e pagar as taxas escolares anuais de US$ 51,46 do filho mais novo, Ritchielson.

“Peyi Lòk destruiu meu negócio”, lamentou Paul. “Não tenho mais um ganha-pão.”

No dia do terremoto, Paul estava sentada na calçada em frente à catedral, cuidando de sua barraca na feira, conta ela. Quando o chão começou a tremer violentamente, ela agarrou três de seus filhos e correu para as ruas. Ritchielson, com 7 anos, ainda não era nascido.

Hoje, com a proximidade do décimo aniversário do terremoto, Paul acredita que há pouco a comemorar.

“Depois de 12 de janeiro, ainda era possível encontrar algo para comer, agora não há nada”, disse ela. “A situação piorou.”

Os haitianos estão acostumados a crises. Em 1986, após o fim da ditadura da família Duvalier, que durou quase 30 anos, o país passou por vários golpes militares, inclusive um que exilou seu primeiro presidente democraticamente eleito, o país ainda enfrentou bloqueios econômicos dos EUA e foi devastado por furacões, incluindo quatro tempestades no intervalo de 30 dias em 2008. O país foi arrasado pelo terremoto de 2010.

No entanto muitos afirmam que a crise atual, devido ao grande número de vítimas e perda econômica, é muito pior do que tudo que já passou — uma conjunção de fatores ruins: facções armadas, colapso econômico, corrupção desenfreada e descontentamento popular.

“Tudo está destruído”, afirma Robert Fatton, especialista no Haiti e professor de ciências políticas na Universidade da Virgínia. “Existe um vácuo completo de autoridade. Existe um descontentamento popular imenso contra Jovenel e seu governo, mas a oposição parece não ter forças para forçá-lo a sair e a comunidade internacional pode até não gostar de Jovenel, mas não enxerga outra alternativa.”

Destacando-se como um reformista econômico pronto para enfrentar o sistema econômico e político do Haiti, que possui séculos de desigualdades e instabilidade, Moïse rejeitou pedidos de renúncia e culpa os adversários e membros da elite econômica do país por seus problemas políticos.

Ele também negou as acusações de corrupção, depois que ele e membros de seu grupo político foram citados no relatório de um auditor do governo que acusou os oficiais do governo anteriores e atuais de desviar recursos de um programa de petróleo destinado a programas sociais para a população carente após o terremoto.

“Estou extremamente pessimista com o futuro do país”, afirmou Fatton, descendente de haitianos. “A única esperança é que a história está repleta de surpresas e acontecimentos inesperados”.

“Ninguém na época poderia prever a Revolução Haitiana, ninguém previu a queda do muro de Berlim”, acrescentou. “Além disso, vários países devastados, considerados casos perdidos de corrupção, conseguiram desenvolvimentos econômicos e políticos fenomenais em médio e longo prazo; veja os exemplos da Coreia do Sul ou, mais recentemente, de Ruanda.”

Mas o Haiti não é a Coreia do Sul nem Ruanda. E, embora muitos haitianos continuem à espera de um Moisés dos dias atuais para atravessá-los por seu mar de desespero, não parece haver ninguém que possa surgir tão cedo. A oposição permanece dividida, desorganizada e incapaz de derrubar o polêmico presidente.

Liderada pelos EUA, a comunidade internacional vem pedindo diálogo dentro do Haiti e a formação de um governo legal para combater as causas subjacentes da instabilidade e pobreza no país.

“A situação não é nada animadora”, afirmou Fatton. “A pobreza só aumenta, as desigualdades são absurdas, a economia está arrasada, o gurde (a moeda haitiana) perdeu quase todo seu valor e a classe política possui pouca legitimidade. Assim, tudo está desmoronando sem uma estratégia definida para um futuro melhor.”

Antes do terremoto, Paul disse que costumava ir à missa na catedral. Possuía uma bela arquitetura e, embora uma igreja temporária de US$ 3 milhões tenha sido construída nos fundos, não é a mesma que a icônica que ficava perto de seu barraco improvisado.

“Eu tinha esperança”, afirmou ela, contemplando a catedral em ruínas. “Pensei que iam reconstrui-la.”

Quando pode, Paul conta que assiste à missa na estrutura temporária. Suas orações são sempre as mesmas: “peço a Deus que essa situação mude completamente”, disse ela.

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