Estrada viking esquecida revelada após derretimento de gelo

Ferraduras, trenós e ferramentas com mil anos de idade estão despontando de uma camada de gelo cada vez menor na Noruega.

Thursday, April 23, 2020,
Por Erin Blakemore
A camada de gelo de Lendbreen, na Noruega, retratada nesta imagem de 2019, está derretendo, revelando ...

A camada de gelo de Lendbreen, na Noruega, retratada nesta imagem de 2019, está derretendo, revelando esterco de cavalo deixado por viajantes que cruzaram a região séculos atrás.

Foto de Espen Finstad, Secrets of the Ice

TUDO COMEÇOU COM uma camisa de 1,8 mil anos. O arqueólogo Lars Holger Pilø observou seus colegas encontrarem a túnica de lã antiga que emergiu de uma camada de gelo derretida em Lomseggen, uma montanha no sul da Noruega. Foi então que Pilø se perguntou o que mais poderia haver no local. Enquanto o restante da equipe embalava a preciosa descoberta, ele e outro arqueólogo se afastaram do grupo, seguindo a borda do gelo derretido encoberto pela névoa da montanha.

Ao contemplar a escuridão, Pilø logo percebeu que estava olhando para um campo de objetos que não via a luz do dia há centenas de anos. Trenós quebrados, ferramentas e outros traços da vida cotidiana que remontam há quase dois mil anos estavam espalhados pela superfície da camada de gelo de Lendbreen, que derretia rapidamente devido ao aquecimento global.

Uma agulha de madeira sem data foi preservada no gelo em Lendbreen.

Foto de Espen Finstad, Secrets of the Ice

“Percebemos que havíamos encontrado algo realmente especial”, conta Pilø, que lidera o Programa de Arqueologia de Geleiras em Oppland, na Noruega. “Nós encontramos uma mina de ouro.”

A pesquisa, publicada na revista científica Antiquity, documenta o que aconteceu depois disso — a descoberta de mais de mil artefatos literalmente congelados no tempo.

Datados de cerca de 300 a 1500 d.C., os artefatos contam a história de um caminho na montanha que serviu como via de acesso essencial para colonos e agricultores que se deslocavam entre assentamentos permanentes de inverno ao longo do rio Otta, no sul da Noruega, e fazendas de verão de altitude mais alta, ao sul. E durante o percurso pelo terreno acidentado, esses viajantes antigos deixavam de tudo para trás, desde ferraduras a utensílios de cozinha e itens de vestuário. Com o acúmulo de neve ao longo dos séculos, esses objetos esquecidos foram preservados no que acabou se tornando a camada de gelo de Lendbreen.

As camadas de gelo estão localizadas em altitudes elevadas, mas não são iguais aos seus parentes maiores, as geleiras. Objetos congelados nas geleiras são, em algum momento, pulverizados para dentro da massa móvel de gelo. Mas as camadas de gelo, que não se movem, preservam os artefatos no local — e em excelentes condições — até o gelo derreter.

Pilø, primeiro autor do estudo publicado na Antiquity, e seus colegas realizaram, até o momento, a datação por radiocarbono de 60 dos mil artefatos encontrados em Lendbreen, revelando que a atividade humana naquele caminho começou por volta de 300 d.C., durante um período em que boas condições climáticas propiciaram a expansão populacional da região. As viagens durante a Era Viking ficaram mais constantes por volta do ano 1000 e, devido a mudanças econômicas e climáticas, entraram em declínio antes mesmo da Peste Negra assolar a Noruega na década de 1340.

A camada de gelo de Lendbreen está derretendo rapidamente, como mostra as fotos tiradas em 2006 (acima) e 2018 (abaixo).

Foto de Espen Finstad, Secrets of the Ice

Artefatos misteriosos

Os objetos encontrados em Lendbreen incluem itens do cotidiano, como trenós, uma túnica de lã rara e completa do século três, uma luva e sapatos, e um batedor. Uma das descobertas favoritas de Pilø permaneceu um mistério até ser exibida no museu local e explicada por uma senhora: o pequeno pedaço de madeira torcida provavelmente era usado para impedir a amamentação de cabritos ou cordeiros, para que o leite fosse consumido pelas pessoas, explicou ela.

A mulher, que viveu em uma fazenda de verão na década de 1930, disse que sua família utilizava pedaços feitos de madeira de zimbro muito semelhantes ao artefato do século 11. A peça de mil anos também era feita de zimbro.

Parece também que a passagem de Lendbreen não era apenas um caminho local para os agricultores se movimentarem entre os pastos sazonais. A equipe de Pilø descobriu vários montes de pedras — pedras empilhadas para ajudar as pessoas que não conheciam o local a encontrarem e trafegarem pela via em trajetos mais longos pela Escandinávia. A presença desses montes de pedras, além da descoberta de ferraduras (e até de ferraduras próprias para a neve), é uma evidência “bastante convincente” de que a camada de gelo foi utilizada como uma artéria movimentada por quase mil anos, diz Pilø, tornando o local norueguês o primeiro caminho descoberto no norte da Europa.

Albert Hafner, arqueólogo de geleiras da Universidade de Berna, que não participou da pesquisa atual, concorda. “Os argumentos são bem convincentes”, diz ele. Em 2003, Hafner encontrou centenas de artefatos que datam de 4800 a.C. em Schnidejoch, uma camada de gelo nos Alpes suíços que também era utilizada como caminho nas montanhas. “É muito interessante que exista um local semelhante na Escandinávia”, diz Hafner.

Arqueólogos montam acampamento em frente à camada de gelo de Lendbreen em 2018.

Foto de Espen Finstad, Secrets of the Ice

O artigo atual concentra-se em objetos descobertos até 2015, sendo que centenas de artefatos aguardam para ser datados e descritos — além de perguntas sem resposta sobre o motivo do caminho ter sido abandonado pelos viajantes. “O declínio começa antes da pandemia [da Peste Negra], mas não temos uma boa explicação para isso”, diz Pilø. Contudo os anos de maior movimento nessa passagem coincidem com um período de maior comércio e urbanização da região — dias prósperos que explicam a necessidade de um caminho rápido para atravessar as montanhas.

A pesquisa em Lendbreen terminou em 2019 e Pilø agora está em busca de outros objetos que estão sendo revelados pelo intenso derretimento das camadas de gelo da Noruega. Os artefatos “estão basicamente armazenados em um congelador pré-histórico gigante”, diz Pilø. “Eles não envelheceram. Às vezes eu brinco dizendo que o gelo é uma máquina do tempo, mas não é só uma brincadeira. De fato, essa máquina transporta os artefatos até a atualidade.”

Mas, para que isso aconteça, o gelo deve derreter. E com a criosfera da Noruega já desaparecendo devido às mudanças climáticas e diversos verões extremamente quentes, toda essa descoberta aparentemente milagrosa é um tanto angustiante.

“Tentamos nos concentrar no trabalho durante a operação, mas as novidades continuam surgindo”, diz Pilø. “Não é um trabalho que se possa fazer sem a sensação constante de que algo ruim está acontecendo.”

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