Há 400 anos, esta caverna com pinturas recebia visitantes que consumiam alucinógenos

Pessoas que estiveram na caverna Pinwheel, na Califórnia, EUA, deixaram evidências de seu estado alterado dentro das paredes — primeira evidência física de consumo de alucinógenos em local com arte rupestre.

Publicado 28 de nov. de 2020 08:30 BRT
Jon Picciuolo, membro da equipe de pesquisa, documenta que foram encontrados maços de plantas mastigadas inseridos ...

Jon Picciuolo, membro da equipe de pesquisa, documenta que foram encontrados maços de plantas mastigadas inseridos séculos atrás em fendas das paredes da caverna Pinwheel, no sul da Califórnia. O cata-vento desenhado que dá nome à caverna pode ser visto à esquerda na imagem.

Foto de Devlin Gandy

PESQUISADORES Discutem há décadas a relação entre alucinógenos e arte rupestre. Culturas antigas ao redor do mundo deixaram um legado intrigante de imagens abstratas e até mesmo psicodélicas em rochas e paredes de cavernas, mas pesquisadores modernos discutem a motivação por trás da criação dessas obras de arte.

Até o momento, não havia nenhuma evidência física do uso de alucinógenos em locais com arte rupestre. Mas agora uma descoberta surpreendente em um local no sul da Califórnia fornece evidências de que pelo menos algumas pessoas que estiveram no local séculos atrás apresentavam um estado de consciência alterado.

Em estudo publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences, uma equipe de pesquisa internacional relata que maços de datura mastigados há 400 anos, uma planta com poderosas propriedades psicoativas, foram encontrados inseridos nas rachaduras do teto de uma caverna sagrada. Localizada próximo ao limite do território tradicional do povo chumash, a caverna foi apelidada de caverna do cata-vento por conta da pintura vermelha em formato de redemoinho em seu teto curvado. Os pesquisadores acreditam que essa pintura possa representar uma flor de datura, que desabrocha em forma de cata-vento ao anoitecer, e que a caverna pode ter sido um local para cerimônias em grupo em que a datura era consumida.

A arte distintiva da caverna Pinwheel, que alguns alegam representar uma flor de datura, foi criada com pigmento ocre vermelho que desbotou com o tempo. O desenho foi visualmente aprimorado na imagem à direita por meio da ferramenta DStretch.

Foto de Devlin Gandy

“Essa é a primeira evidência da ingestão de um alucinógeno em um local com arte rupestre — a evidência está literalmente na parede”, diz Carolyn Boyd, arqueóloga da Universidade Estadual do Texas e especialista em arte rupestre nativa americana, que não participou da nova pesquisa.

Sagrado e perigoso

A caverna Pinwheel é um dos diversos locais com arte rupestre na reserva de Wind Wolves Preserve, que abrange aproximadamente 37,6 mil hectares ao sul de Bakersfield e pertence à The Wildlands Conservancy, organização sem fins lucrativos fundada em 1995. Dentro da caverna existem algumas pinturas abstratas em vermelho e desenhos. A pintura do cata-vento, registrada pela primeira vez por arqueólogos em 2002, é a obra de arte mais distinta. A imagem está localizada em uma parte inclinada do teto baixo, a cerca de um metro do chão. Durante o solstício de verão, um raio de sol entra pela caverna.

O arqueólogo David Robinson, responsável pelo novo estudo, já pesquisava e documentava arte rupestre na Califórnia há duas décadas. Ele e seus colegas começaram a trabalhar na caverna Pinwheel em 2007. Por meio de pequenas escavações e datação por radiocarbono, descobriram que o local havia sido ocupado por volta de 1530 a 1890 d.C. Os arqueólogos também encontraram mais de 50 pequenas fendas no teto repletas de maços de fibras de plantas mastigadas. Mastigados para extração dos nutrientes, geralmente de plantas como yucca e agave, os maços são comuns em sítios arqueológicos no sudoeste dos Estados Unidos.

Os pesquisadores inicialmente coletaram uma amostra dos maços, na esperança de encontrar vestígios de DNA humano antigo. Embora as análises não tenham encontrado evidências genéticas interessantes, os testes subsequentes em 15 maços detectaram escopolamina e atropina, alcaloides alucinógenos encontrados na datura. Imagens capturadas com um microscópio eletrônico de varredura confirmaram que a maioria dos maços continha matéria vegetal da espécie Datura wrightii. Análises 3D subsequentes dos maços mostraram que essas fibras foram partidas e quebradas em padrões consistentes com a mastigação.

A datura é muito perigosa, letal em altas doses e com uma potência geralmente difícil de prever. Mas a planta também pode ser classificada como um enteógeno, ou uma substância psicoativa utilizada para fins espirituais, na mesma categoria que a ayahuasca e o peiote. Na cosmologia do povo chumash, que historicamente consumia a planta durante cerimônias de iniciação e buscas por visão xamânica, a datura estava em uma categoria especial de plantas vistas como pertencentes à família, sendo personificada como uma idosa chamada Momoy, conta Robinson.

A flor da Datura wrightii desabrocha em um padrão espiral à noite. Muitos pesquisadores suspeitam que o cata-vento retratado na caverna Pinwheel possa representar uma flor de datura que desabrochou.

Foto de Elliot Schultz, Alamy Stock Photo

“A datura é muito mais do que um alucinógeno”, acrescenta Devlin Gandy, coautor do estudo que recebeu uma bolsa de pesquisa da National Geographic para Jovens Exploradores em 2014 para estudar arte rupestre chumash. “É um ser sagrado que faz parte das orações, utilizado tanto para limpeza quanto para cura.”

As cerimônias com datura, como muitas das tradições religiosas nativas americanas, foram proibidas por décadas de políticas de assimilação forçada e deslocamento de terras ancestrais nos Estados Unidos. Muitos rituais indígenas foram explicitamente proibidos até o século 20.

“Historicamente, nós perdemos muito”, diz Sandra Hernandez, porta-voz da Tribo Tejon, que tem ligações com o povo chumash e foi consultada durante a pesquisa na caverna. A tribo passou a ser reconhecida novamente pelo país apenas em 2012 e, embora a datura ainda seja considerada uma planta culturalmente importante, os membros vivos da tribo não deram continuidade ao seu uso ritualístico.

Hernandez observa que os arquivos da tribo contêm registros que descrevem uma cerimônia em que a datura era consumida três vezes em poucos dias. Ela diz que, ao refletir sobre o caso, sempre fica impressionada com o conhecimento e a experiência necessários para ser capaz de ingerir tanto da planta com segurança em um curto período.

“Às vezes fico sem palavras para explicar como é bom saber como nossos ancestrais eram inteligentes”, diz Hernandez. “Eu não posso negar isso. Sabíamos das coisas porque nos comunicávamos com os criadores e com a natureza.”

Arco-íris surgem após uma tempestade no final da primavera nas Montanhas San Emigdio, na Califórnia, região de ecologia e geologia diversas onde a caverna Pinwheel está localizada.

Foto de Devlin Gandy

O que a pintura significa?

Pode ser impossível saber por que e em que condições a pintura do cata-vento foi feita. Mas os autores do novo estudo acreditam que as evidências arqueológicas dentro da caverna podem oferecer pistas sobre o contexto em que a arte foi realizada.

“Existe a teoria de que a arte rupestre na Califórnia é frequentemente feita por xamãs em retiros privados”, diz Robinson. As pinturas, portanto, representavam as visões psicodélicas que esses xamãs, que normalmente eram homens, recebiam durante seu transe alucinógeno e, como resultado, esses locais com arte rupestre tornavam-se locais sobrenaturalmente poderosos que deveriam ser evitados pelo resto da tribo.

Essa teoria foi apoiada muitas vezes pelo fato de que a arte “parece tão surrealista que com certeza foi feita por alguém que estava alucinando”, diz Gandy. “Como nativo e arqueólogo, acredito ser possível que algumas artes rupestres tenham sido feitas por pessoas sob a influência de alucinógenos, mas considero a ideia exagerada.”

Os pesquisadores não acreditam que as evidências do local indicam que a datura foi consumida com o objetivo de criar as pinturas. Em vez disso, interpretaram a pintura do cata-vento como a representação de uma planta de datura, servindo como um sinal que diz: “este é o lugar para consumir datura”. Os pesquisadores interpretaram um desenho vermelho que estava próximo ao cata-vento como um inseto — possivelmente uma mariposa-falcão, conhecida por se intoxicar com o néctar da datura, retirado através de sua longa tromba — uma possível representação simbólica de quem consumia a datura.

Robinson acredita que a densidade dos maços de datura mastigada, bem como a quantidade de outras ferramentas e artefatos encontrados no chão da caverna logo abaixo da pintura, sugere ainda que o local era usado coletivamente, e não apenas por um único xamã. Fontes etnográficas indicam o consumo de toloache, chá feito com raiz de datura amassada, durante rituais de iniciação de adolescentes por grupos indígenas da região. Deste modo, os maços de datura poderiam representar uma maneira não registrada de consumir a substância durante uma iniciação ou em uma cerimônia coletiva separada, em preparação a uma atividade, como uma expedição de caça.

Boyd, a pesquisadora de arte rupestre que não participou do estudo, diz que concorda que a pintura do cata-vento realmente represente uma flor de datura. “Dito isso, suspeito que a pintura também corresponda a fenômenos visuais experimentados durante um estado alterado de consciência, o que reforçou ainda mais a importância do desenho para quem visitou o local e ingeriu a poderosa planta”, acrescenta.

Para Hernandez, visitar a caverna e olhar as pinturas hoje é “uma experiência completamente individual”. Ela diz que vê a flor de datura ao olhar para a pintura de cata-vento, mas acrescenta que seus familiares nem sempre concordam. Ela estava aberta a múltiplas interpretações do local, que também poderia ser um lugar para pessoas que buscam orientação espiritual ou grupos que participam de uma cerimônia comunal. Independentemente disso, a caverna serve como um meio para sua tribo aprender sobre o passado.

“Índios da Califórnia, de todo o estado, possuem locais que têm muito a oferecer em termos de conhecimento ecológico”, afirma Hernandez. “Tudo ainda está aqui, aguardando que nós, como tribos, aprendamos essas coisas sobre nossos ancestrais.”

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