Como a vacinação “virou moda” na década de 1950 graças aos adolescentes

Adolescentes norte-americanos eram um novo fenômeno social e estavam posicionados de maneira única para uma icônica campanha de vacinação contra a poliomielite.

Publicado 11 de mai de 2021 07:00 BRT
Vaccine Opposition History

Elvis Presley recebe uma vacina contra a poliomielite nos bastidores, antes da gravação de um programa de Ed Sullivan em 1956.

Foto de Photograph via Associated Press

Era uma noite de sábado em Albion, uma pequena cidade a leste de Battle Creek, Michigan, nos Estados Unidos, e adolescentes se enfileiravam para um baile no ginásio da escola.

O valor da entrada? Tomar uma vacina no braço.

O ano era 1958, e esse não era um programa comum de sábado à noite. Anunciado como um “Salk Hop” (um trocadilho com a expressão “sock hop”, que designa um tipo de baile informal popular na época), o evento era aberto apenas para jovens que estivessem dispostos a receber uma injeção da vacina contra a poliomielite desenvolvida por Jonas Salk, ou que mostrassem um comprovante da vacinação.

O baile era parte de uma batalha de cinco anos contra a hesitação a respeito da vacina contra poliomielite, uma campanha que reuniu o conhecimento científico de especialistas em saúde pública com a crescente energia, criatividade e até sexualidade de uma nova e poderosa presença na sociedade norte-americana — os adolescentes. 

Elvis Presley conhece as portadoras de poliomielite Beth Currier (14), à esquerda, e Elaine Brockway (17), na Califórnia, em maio de 1957. Currier, confinada a uma cadeira de rodas, presenteou Presley com um álbum de recortes que ela fez usando principalmente a boca.

Foto de Photograph via Associated Press

A poliomielite, uma doença infecciosa provocada por vírus que pode levar à paralisia, incapacidade e até a morte, não se tornou um problema generalizado nos Estados Unidos até o início do século 20. Antes disso, os cidadãos eram regularmente expostos ao poliovírus por meio de água potável não tratada, aumentando sua imunidade natural. As mães também transmitiam imunidade aos filhos por meio do leite materno.

No entanto, com a modernização dos sistemas de tratamento de água e esgoto, menos pessoas passaram a ser expostas e as crianças ficaram particularmente vulneráveis à infecção. E o surto de natalidade do final da década de 1940 e início da década de 1950 criou as condições ideais para a transmissão generalizada da poliomielite. De repente, a imunidade não era mais garantida e milhares de casos — principalmente em crianças — começaram a surgir a cada verão do Hemisfério Norte, possivelmente como resultado de flutuações sazonais em novos nascimentos.

A consequência foi o pânico, principalmente entre pais e mães. Piscinas e bebedouros eram fechados durante o verão para evitar a propagação do vírus. Adultos aterrorizados observavam seus filhos antes ativos usarem muletas para apoiar membros enfraquecidos, ou mesmo enfrentarem o confinamento em enormes pulmões de aço para facilitar a respiração. Os surtos de poliomielite ganharam velocidade no final da década de 1940 e início da década de 1950, chegando a quase 58 mil casos em 1952.

Um avanço veio na forma da vacina de Salk contra a poliomielite, que foi aprovada em 1955. O número de casos despencou à medida que mais e mais crianças eram vacinadas. Mas, embora as crianças fizessem fila para tomar a vacina de Salk em grandes campanhas, os adolescentes não tinham nenhuma pressa para receber a injeção.

‘Quase indestrutíveis’

Parte do problema com as campanhas de vacinação para adolescentes era relacionada à terminologia. Durante anos, as pessoas se referiram à poliomielite como “paralisia infantil”, dando a impressão de que adolescentes e adultos não corriam risco. Além disso, alguns achavam inconveniente tomar três doses de uma vacina, enquanto outros tinham medo das agulhas ou da própria vacina.

“Os adolescentes se sentiam saudáveis, quase indestrutíveis”, explica Stephen Mawdsley, historiador social e professor de história americana moderna na Universidade de Bristol, na Inglaterra. Na realidade, eles eram tudo menos isso — e para se protegerem do vírus, eles precisavam da vacina.

Mas as mesmas forças sociais que fizeram os adolescentes se sentirem (erroneamente) mais resistentes do que as crianças acabaram se tornando uma arma secreta contra a pólio.

Antes da virada do século 20, adolescentes não eram reconhecidos como um grupo social próprio. Mudanças subsequentes na sociedade norte-americana, incluindo a ascensão dos automóveis e a educação obrigatória que impedia as crianças de entrarem no mercado de trabalho precocemente, geraram o reconhecimento dos adolescentes como um grupo demográfico distinto nos Estados Unidos. “Elas vivem em seu próprio mundo de maravilhas”, comentou uma edição de 1944 da revista Life em um artigo dedicado às garotas adolescentes e seus modismos.

Em resposta ao atraso da vacina em adolescentes, o Instituto Nacional de Paralisia Infantil, uma organização sem fins lucrativos que distribuía fundos arrecadados pela March of Dimes (outra organização sem fins lucrativos, que luta por melhorias na saúde de mães e bebês), recrutou pessoas diretamente desse relutante grupo demográfico. Em 1954, a organização começou a convidar grupos selecionados de adolescentes para visitarem seus escritórios em Nova York, entrevistando-os sobre suas percepções e reservas sobre as vacinas e equipando-os com pontos de discussão para promover as injeções de Salk em suas casas.

Mawdsley explica que os adolescentes foram motivados por experiências pessoais com sobreviventes e vítimas da pólio, um desejo de apoiar causas com as quais se importavam e uma busca por empoderamento social.

“Eles estavam em uma fase da vida em que queriam que os adultos os respeitassem”, declara.

Venda de amendoim em campanha contra a pólio

A guerra adolescente contra a poliomielite assumiu diversas formas. Enquanto as autoridades recrutavam ídolos adolescentes como Elvis Presley e Debbie Reynolds para espalhar a palavra por meio de campanhas públicas de vacinação, os próprios adolescentes escolhidos como embaixadores da vacina se tornaram celebridades ao participarem de iniciativas de vacinação populares que muitas vezes resultavam em seus nomes e fotos divulgados na imprensa. Eles vendiam pirulitos “Lick Polio” e amendoins “Shell Out for Polio” para arrecadar dinheiro para a March of Dimes e escreveram cartas emocionantes para as editoras dos jornais locais pedindo a vacinação dos adolescentes.

Membros do grupo Teens Against Polio vendem amendoins a fim de arrecadar doações para uma campanha de vacinação em Tallahassee, Flórida, em 1956.

Foto de Photograph via State Archives of Florida

Até mesmo a libido dos adolescentes foi utilizada no esforço da vacina contra a poliomielite. “Algumas de nós, meninas, decidimos não sair com rapazes para certas atividades, se eles não tiverem tomado as vacinas contra a pólio”, declarou Patty Hicks, presidente nacional do grupo Teens Against Polio (Adolescentes Contra a Pólio, em tradução livre), em 1958. A “morena vivaz e de olhos escuros”, como Hicks foi descrita pelo jornal Spokane Chronicle, encorajou outras garotas a fazerem o mesmo.

Houve um lado negativo no esforço nacional para vacinar os adolescentes norte-americanos: o capacitismo. O marketing da vacina contra a poliomielite essencialmente como uma forma de permanecer fisicamente capaz fez com que os sobreviventes da doença fossem estigmatizados. No fim, no entanto, o ativismo desses sobreviventes ajudou a fomentar o movimento pelos direitos dos portadores de deficiência, que levou à Lei dos Americanos Portadores de Deficiências, em 1990.

Embora seja difícil quantificar o efeito que o ativismo adolescente teve na aceitação da vacina contra a poliomielite, segundo Mawdsley, as ações deles ajudaram a transformar as atitudes em relação ao vírus. “De repente, as vacinas não eram apenas para adultos responsáveis ou crianças pequenas. Eram para adolescentes descolados.” Como resultado, o número de adolescentes vacinados aumentou no final da década de 1950.

Os avanços nas vacinas contra a poliomielite também ajudaram, e uma vacina de dose única e mais barata substituiu as três doses da vacina de Salk na década de 1960. Desde 1979, nenhum caso de poliomielite se originou nos Estados Unidos e, em 2016, havia apenas 42 casos da doença em todo o mundo. Embora a pandemia do novo coronavírus, bem como o conflito em lugares como Afeganistão e Paquistão, provavelmente tenham aumentado os números da poliomielite em 2020, a vacinação contra a pólio agora é vista como obrigatória.

Mais de 60 anos se passaram desde que os “Salk hops” dominaram o país, e agora os Estados Unidos estão em outra campanha de vacinação nacional na corrida para conter os casos de covid-19. Mas a hesitação quanto à vacina permanece em algumas populações e — em um ato que ecoa as campanhas de vacinação contra a poliomielite de meados do século 20 — o governo Biden anunciou recentemente que planeja contar com o apoio de celebridades, atletas e mídias sociais para atingir adolescentes elegíveis para vacinas contra o coronavírus.

Antigas ideias políticas, sociais e geracionais alimentam a hesitação quanto à vacina. A “moda” da vacinação para adolescentes das décadas de 1950 e 1960 oferece lições sobre como utilizar essa mentalidade em nome da saúde pública.

“Precisamos identificar os grupos que estão hesitantes e recrutar pessoas de dentro deles, educá-las para passar mensagens e informar os outros”, explica Mawdsley. “Do contrário, não vamos conseguir ter acesso a esses grupos.”

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