O homem que ensinou os humanos a respirar como peixes

A invenção do aqualung por Jacques Cousteau abriu o reino submarino aos cientistas e ao público.

Publicado 30 de nov. de 2021 07:00 BRT, Atualizado 1 de dez. de 2021 15:57 BRT
Cousteau divers

Jacques Cousteau foi um dos inventores do equipamento de mergulho aqualung, que ele ansiava por utilizar em pesquisas científicas. Em 1963, mergulhadores da equipe de Cousteau praticaram técnicas de sobrevivência subaquática em preparação para um experimento sobre a vida em ambiente subaquático durante um mês.

Foto de Robert B. Goodman

O documentário Becoming Cousteau está disponível para os assinantes do Disney+.

“Olha”, disse meu filho.

Estávamos boiando na sombra de um píer em Isla Vieques, em Porto Rico. Ripas de madeira alguns metros acima de nossas cabeças nos protegiam do sol forte. Colunas desgastadas pelo tempo pareciam desaparecer sob a superfície da água. Estava fresco ali, mas não havia vida, era um ponto artificial adequado apenas para um descanso rápido durante nossa primeira experiência de mergulho com snorkel.

Will apontou para baixo. Seus olhos estavam arregalados por trás da máscara. Ele mergulhou a cabeça na água e eu fiz o mesmo.

Entramos em outro mundo. Acima da superfície da água, o cais era uma estrutura banal de madeira empenada e tinta lascada. Abaixo da superfície, havia vida abundante: corais de cores amarelo e laranja envolvendo as colunas, algas marinhas exuberantes ondulando na correnteza, cardumes de peixes prateados disparando entre as colunas. Esse local estreito sob um cais construído há décadas para navios de guerra dos Estados Unidos era tão fértil quanto qualquer selva — mas, ao contrário de uma selva, podíamos flutuar no meio dela e observá-la de todos os ângulos.

Nunca imaginamos estar cercados por tanta vida selvagem — e ainda assim não foi o suficiente para Will. “Foi tão bacana”, disse ele ao voltarmos para o hotel na caminhonete barulhenta de nossos guias. “Quero fazer mergulho com cilindro.” Ele não queria ficar preso à superfície com nossos snorkels alugados. Sonhava em mergulhar mais fundo, em explorar mais o oceano, em admirar suas maravilhas por si mesmo.

Mergulhadores coletam peixes perto de uma das estruturas que formavam uma vila subaquática, na qual cinco mergulhadores viveram durante um mês como parte de um experimento conduzido por Cousteau em 1963 sobre a vida em ambiente subaquático.

Foto de ROBERT B. GOODMAN

Embora Cousteau tenha aprendido a nadar aos quatro anos, suas primeiras ambições estavam direcionadas para o céu e não para o mar. Em 1930, ele entrou na academia naval francesa para ser piloto, um sonho abandonado devido a um acidente de carro quase fatal que deixou seus dois braços fraturados. Como parte de sua recuperação, o oficial da marinha Philippe Tailliez sugeriu que ele experimentasse nadar no oceano. Tailliez emprestou-lhe um óculos de natação e o levou para praticar pesca com arpão no Mediterrâneo, perto de Toulon, na França.

Nadar com os óculos de natação foi uma revelação. “Assim que mergulhei minha cabeça embaixo d’água, fiquei chocado”, contou ele mais tarde. Ele descobriu “um reino enorme e completamente intocado para explorar”.

“Daquele dia em diante, soube que todo o meu tempo livre seria dedicado à exploração subaquática.”

Com a prática, ele conseguiu mergulhar a uma profundidade de até 18 metros e permanecer lá entre 70 e 80 segundos. Mas não eram tempo nem profundidade suficientes para Cousteau. “Nunca aceitei as limitações impostas pelo tempo em que conseguimos prender o ar”, escreveu ele em um artigo em 1952 à National Geographic, seu primeiro artigo na revista.

Cousteau precisava encontrar sua própria solução. “Eu me tornei inventor por necessidade”, contou ele.

Para mergulhar mais fundo, ele precisava de um dispositivo que fornecesse ar respirável que também possuísse a mesma pressão da água: conforme o mergulhador desce na água, a pressão aumenta, reduzindo o volume de ar no corpo a ponto de causar o colapso dos pulmões. O sogro de Cousteau o apresentou ao engenheiro Émile Gagnan, especialista em projetos pneumáticos de alta pressão.

A Segunda Guerra Mundial estava na metade e a Alemanha controlava a maior parte da França. Gagnan trabalhava para a maior empresa de gás comercial do país em Paris, onde projetou uma válvula que regulava o fluxo de combustível, permitindo que carros fossem movidos a óleo de cozinha, uma adaptação essencial em tempos de guerra, quando os nazistas haviam confiscado toda a gasolina para seus veículos.

Quando Cousteau viajou a Paris em 1942 para explicar o problema da pressão do ar a Gagnan, o engenheiro pensou que seu regulador de gás poderia ser a solução. Juntos, fizeram ajustes até encontrar algo que pudesse ser testado: um regulador conectado por tubos a duas latas de ar comprimido. Cousteau levou o protótipo para um mergulho no rio Marne, a leste de Paris.

“Respirei normalmente em um ritmo lento”, disse ele, “baixei a cabeça e mergulhei suavemente até nove metros”.

O dispositivo funcionou — enquanto ele permaneceu na horizontal. Quando ficou na vertical, o ar vazou. Cousteau e Gagnan reorganizaram os tubos de entrada e saída para que ficassem no mesmo nível. Acabaram desenvolvendo uma versão que Cousteau se sentiu seguro para experimentar no mar.

Ao longo de muitos meses em 1943, Cousteau, Tailliez e seu amigo Frédéric Dumas testaram cautelosamente o dispositivo chamado por eles de aqualung. Fizeram mais de 500 mergulhos no Mediterrâneo, cada um deles um pouco mais profundo. Em setembro daquele ano, alcançaram 40 metros. Em outubro, Dumas mergulhou mais cerca de 30 metros.

Cousteau mergulha enquanto filma um episódio de seu programa de televisão “The Undersea World of Jacques Cousteau” (“O Mundo Submarino de Jacques Cousteau”, em tradução livre), no qual convida os espectadores a explorar o oceano com ele.

Foto de The Cousteau Society

“A melhor maneira de observar um peixe é se tornando um peixe”, escreveu Cousteau em seu primeiro artigo para a National Geographic. “E a melhor maneira de se tornar um peixe — ou algo razoavelmente semelhante a um — é usar um dispositivo de respiração subaquático chamado aqualung. O aqualung permite mergulhar, sem pressa e ileso, até as profundezas do mar.”

Quase 80 anos após sua invenção, o mesmo projeto básico ainda está em uso. “É inquestionavelmente simples e sofisticado”, afirma David Doubilet, fotógrafo subaquático experiente da National Geographic. “Nunca falha. Em 65 anos de mergulho, nunca tive uma falha.”

Mas a capacidade de explorar as profundezas expôs os mergulhadores a outros perigos. Embora o aqualung facilite a respiração ao equilibrar a pressão ambiente e interna, não impede o que os primeiros mergulhadores chamam de “embriaguez das profundezas” — narcose pelo nitrogênio, quando se formam bolhas de nitrogênio na corrente sanguínea durante a descida do mergulhador. Para Cousteau, era “uma impressão de euforia, uma perda gradual do controle reflexo, uma perda do instinto de autopreservação”. Para Albert Falco, que navegou com Cousteau por quase 40 anos, “o ar adquire uma característica diferente e se sente embriagado com a própria respiração”.

A narcose pelo nitrogênio pode ser fatal. Após a guerra em 1947, Cousteau, que ainda estava na Marinha francesa como parte de seu Grupo de Pesquisa Subaquática, organizou testes de mergulho autônomo em Toulon. Ele queria demonstrar que o aqualung permitiria aos mergulhadores descer mais de 100 metros de profundidade. Mas o primeiro a tentar tal feito, o imediato Maurice Fargues, morreu. Ele perdeu a consciência a 120 metros e foi puxado freneticamente para a superfície, mas não pôde ser ressuscitado.

Cousteau ficou arrasado: “começo a me perguntar se o que estou desenvolvendo faz sentido”.

Para a Marinha francesa, fazia. Ela implantou o Grupo de Pesquisa Subaquática para limpar as consequências mortais deixadas no Mediterrâneo pela Segunda Guerra Mundial. Os mergulhadores da Marinha retiraram minas habilmente escondidas perto de portos movimentados. Resgataram pilotos mortos de aviões abatidos. Testemunharam a destruição subaquática de uma guerra que ocupou toda a orla marítima.

Cousteau e seu famoso gorro vermelho a bordo de seu barco Calypso, um antigo caça-minas transformado por ele em navio de pesquisa.

Foto de The Cousteau Society

“Punha o equipamento e mergulhava direto para o fundo”, relembra Doubilet, que fotografou o Mar dos Sargaços, a Grande Barreira de Corais e grande parte do oceano em mais de 70 matérias de destaque da National Geographic. “Eu me sentia embriagado no fundo, mas conseguia respirar e era simplesmente magnífico.”

“O regulador do aqualung foi como um passaporte para 70% do nosso planeta”, comenta Doubilet. “Cousteau foi alguém cuja importância para o planeta nunca poderá ser esquecida ou subestimada.”

O fotógrafo Laurent Ballesta, que cresceu nadando, praticando snorkel e mergulho com cilindro na costa mediterrânea da França, também foi influenciado por Cousteau. Um dia, aos 16 anos, Ballesta estava em um barco com amigos quando de repente foram cercados por tubarões. Aficionado pelos documentários de Cousteau, reconheceu que eram inofensivos tubarões-peregrinos e pulou na água para nadar com eles.

Quando Ballesta voltou para casa, contou aos pais o que havia ocorrido, mas não acreditaram nele. “Foi quando resolvi estudar fotografia.”

Com a ajuda de equipamento de mergulho, um sino de mergulho e uma câmara hiperbárica, o fotógrafo Laurent Ballesta e sua equipe puderam passar 28 dias mergulhando no Mar Mediterrâneo.

Foto de Laurent Ballesta

Desde então, Ballesta identificou um novo peixe da espécie Didogobius schlieweni e foi o primeiro a fotografar o pré-histórico celacanto no oceano. Mais recentemente, ele publicou uma reportagem na National Geographic sobre uma expedição em que ele e sua tripulação permaneceram durante 28 dias em uma cápsula pressurizada que lhes permitiu mergulhar por horas nas profundezas do Mediterrâneo.

Jacques Cousteau se manteve ativo na exploração submarina até sua morte aos 87 anos, em 1997. “Meu papel era mostrar o que havia nos oceanos — suas belezas — para que as pessoas pudessem conhecê-los e amá-los”, escreveu Cousteau.

É um mundo que, apesar de suas contribuições pioneiras e influência internacional, ainda continua amplamente desconhecido. Segundo a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos, mais de 80% dos oceanos do nosso planeta permanecem inexplorados.

Nos 78 anos desde que Cousteau e Gagnan inventaram o aqualung, mais de 28 milhões de pessoas seguiram seu exemplo pelos oceanos e aprenderam a mergulhar.

No ano que vem, eu e meu filho nos juntaremos a elas. É o presente de aniversário de 17 anos de Will: um passaporte para outro mundo.

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