Comunidades quilombolas: identidade forjada através da resistência

Conheça a história dos afro-brasileiros que encontram força nas quase 6 mil comunidades estabelecidas por antepassados que escaparam da escravidão.

Um grupo de mulheres veste roupas ligadas à ascendência africana e se prepara para participar de uma procissão em uma igreja em Paraty, no Rio de Janeiro. A procissão faz parte das várias práticas religiosas e culturais realizadas em comunidades quilombolas, que foram estabelecidas por pessoas anteriormente escravizadas. As fotos foram tiradas em 2017.

Foto de Maria Daniel Balcazar
Publicado 21 de mar. de 2022 16:38 BRT

A partir de 1530 e pelos seguintes 350 anos, navios trouxeram mais africanos escravizados para o Brasil (cerca de 4,8 milhões) do que para qualquer outra nação das Américas.

Em 1888, quando a escravidão foi formalmente abolida no país, muitos cativos haviam fugido para áreas remotas e fundado suas próprias comunidades. Estes passaram a ser conhecidos como quilombos. Mas, no Brasil de hoje, a palavra passou a significar muito mais.

As comunidades quilombolas, também conhecidos como kilombos, tornaram-se símbolos da longa luta contra a escravidão e a opressão em um país onde o racismo e a estigmatização continuam a ser motivos de discussão.

Símbolos históricos da resistência negra

Segundo Givania Silva, diretora executiva da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas Negras Rurais (Conaq), as comunidades quilombolas representam “a luta para reconhecer os direitos dos negros e o papel que os negros desempenharam em todo o processo de violência que começou com o sequestro no território africano”.

Silva nasceu em uma comunidade em Pernambuco, onde milhares de pessoas escravizadas desembarcaram de navios durante o comércio de escravos no Atlântico.

É também perto de onde o maior e mais famoso quilombo foi estabelecido, o Quilombo dos Palmares, que, no auge, teve mais de 20 mil moradores. O assentamento foi destruído pelas forças portuguesas em 1695, mas continua sendo um símbolo histórico de resistência.

Pertencer a um quilombo

Pertencer a um quilombo não é principalmente sobre a cor da pele, diz Silva. Em vez disso, o vínculo comum é “a relação que esse grupo estabeleceu no processo de resistência à escravidão. A palavra foi tomada para significar um grupo de pessoas que lutam, que resistem, que se reorganizam”.

Fiéis rezam durante uma missa na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Salvador, Bahia. Nesta paróquia, e em outros lugares do país, a religião incorpora uma mistura de catolicismo e rituais com influências africanas. O candomblé é uma das religiões afro-brasileiras mais populares.

Foto de Maria Daniel Balcazar

Juliana dos Santos Silva, praticante de candomblé, homenageia seus antepassados escravizados nas ruínas de uma antiga plantação em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro.

Foto de Maria Daniel Balcazar

Praticantes das religiões umbanda e candomblé homenageiam os mortos durante o feriado de Finados. Nesta foto, uma menina visita um cemitério no bairro de Irajá, no Rio de Janeiro.

Foto de Maria Daniel Balcazar

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A ascensão dos quilombos

Estima-se que há 5,9 mil comunidades quilombolas espalhadas pelo Brasil, segundo estatísticas oficiais (o Conaq coloca o número em cerca de 6,5 mil). Em 1988, a constituição brasileira foi alterada para reconhecer formalmente o direito dos afrodescendentes que vivem nas comunidades quilombolas de obter títulos das terras, mas menos de 10% os receberam.

A questão racial tem raízes profundas no Brasil, a última nação do Hemisfério Ocidental a abolir a escravidão. A desigualdade persistente e a lembrança histórica continuam a ser fontes de debate.

“A abolição é contada como algo que só trazia benefícios aos negros, quando, na verdade, a forma como a abolição foi executada deixou negros na rua, sem teto e sem terra”, diz Silva. “Isso permanece assim até hoje.”

Cerca de 56% dos brasileiros se identificam como afrodescendentes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mas essa representatividade não é refletida nos cargos de liderança nos negócios, na política e nas artes. E a renda média dos afro-brasileiros é quase metade da dos brancos, segundo estudo realizado em 2020. Essa taxa de diferença salarial mal mudou em pelo menos uma década.

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Candomblecistas vão à praia em Salvador, Bahia, carregando rosas brancas, perfume e música para homenagear Iemanjá, deusa do mar e protetora dos pescadores.

Foto de Maria Daniel Balcazar

“Na cidade, os chefes nos querem para o trabalho manual. Trabalhamos muito, mas ganhamos muito pouco, então ainda é um processo escravo”, diz Benedito de Freitas, 42 anos, morador da comunidade quilombola João Surá, localizado entre os estados do Paraná e São Paulo.

Como membros das outras 55 famílias que vivem lá, De Freitas é descendente de antepassados escravizados que fugiram das minas de ouro da região e se estabeleceram na selva. “Se existimos hoje, é porque os nossos ancestrais buscaram a liberdade”, diz ele. “É aqui [nos quilombos] que eles respeitam homens e mulheres negros, mesmo quando são oprimidos.”

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Afro-brasileiros: identidade cultural e religiosa

Para os moradores, os assentamentos não são apenas uma fonte de poder na luta pelo reconhecimento e respeito da diversidade racial do país; eles também são a âncora para a identidade cultural e as crenças religiosas das comunidades.

“Temos uma diversidade de expressões na religião, dança e música, cujas dimensões estão sempre conectadas”, diz o historiador Cássio Cruz, pesquisador associado da Universidade Estadual de Campinas.

O catolicismo é a religião dominante no Brasil, mas os evangélicos estão ganhando terreno. O percentual dos que dizem praticar religiões de origem africana também aumentou nos últimos anos, segundo pesquisas nacionais. Uma das religiões mais populares derivadas da África é o Candomblé, que inclui o uso de música, dança e outros rituais.

Maria José de Deus faz parte dos moradores de quilombos estabelecidos por antepassados anteriormente escravizados que escaparam de seus captores. Mais de 4,8 milhões de africanos foram levados à força para o Brasil a bordo de navios a partir do século 16.

Foto de Maria Daniel Balcazar

A pomba é um símbolo importante para as práticas religiosas em comunidades quilombolas como esta em Salvador, Bahia.

Foto de Maria Daniel Balcazar

Os visitantes deste cemitério no Rio de Janeiro homenageiam os mortos durante o Dia dos Finados. Alguns usam roupas que retratam divindades de religiões afro-brasileiras.

Foto de Maria Daniel Balcazar

Este retrato representa o trabalho negro que trouxe riqueza para o Brasil durante o período colonial, como o plantio e a colheita da cana-de-açúcar. Mais de 4,8 milhões de africanos foram levados à força para o Brasil desde o século 16 – mais do que qualquer outro país das Américas. O pavão tem simbolismo religioso para muitos afro-brasileiros.

Foto de Maria Daniel Balcazar

Jovens participam de uma procissão em homenagem às raízes africanas em uma igreja do sudeste de Minas Gerais. Líderes comunitários dizem que parte da luta é educar os outros sobre a história dos quilombos e tudo o que eles englobam, cultural e espiritualmente.

Foto de Maria Daniel Balcazar

“Para mim, é realmente sobre ancestralidade”, diz Juliana dos Santos Silva, 37 anos, que foi criada evangélica, mas cujos avós e bisavós praticavam o candomblé. Nascida no Rio de Janeiro, Silva foi apresentada à religião pelo ex-marido há 11 anos, quando participou de uma cerimônia em homenagem a uma deidade.

“Fiquei cativada pela energia e alegria das pessoas cantando e celebrando”, diz Silva, acrescentando que as práticas religiosas a ajudaram no processo de luto após a morte de seu pai, e também proporcionaram uma conexão especial com seus avós.

Ainda assim, alguns religiosos são cautelosos em praticar abertamente. Terreiros têm sido vandalizados nos últimos anos, e em 2021 o Ministério da Mulher e dos Direitos Humanos registrou mais de 600 violações à liberdade de religião e crença, direito consagrado na constituição brasileira.

“Muitos dos meus amigos seguem a religião escondidos”, diz Silva.

Franklin Moreira, que pertence a um conjunto folclórico religioso com raízes africanas em Minas Gerais, diz que parte da luta é educar outros sobre a história dos quilombos e tudo o que eles englobam tanto cultural quanto espiritualmente.

“Temos a nossa própria maneira de nos manifestar”, diz Moreira, de 29 anos. “Temos que, com sabedoria, mostrar às pessoas que esses são lugares sagrados, onde nossa ancestralidade se manifesta e, portanto, têm que ser respeitados.”

“É um legado ancestral, que carregamos de uma forma muito valiosa. Esse Brasil que conhecemos, com essa cultura, só existe graças à força de nossos ancestrais. Eles sofreram muito, viveram dores inimagináveis”, diz ele. “É por isso que é tão importante manter nossos quilombos vivos, porque eles nos mantêm resistindo.”

Maria Daniel Balcazar é fotógrafa documentarista. Os projetos dela focam na vitalidade das tradições e como, através do sincretismo, elas se adaptam para sobreviver e crescer. Balcazar publicou dois livros: Kilombo e Herederos del Alba.

Paula Ramón é jornalista venezuelana residente em Los Angeles. Siga o trabalho dela: @paulacramon.

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