Consumo de carne traz consequências ‘desastrosas’ para o planeta, indica relatório

Para alimentar uma população global que cresce a cada dia e reduzir as mudanças climáticas, cientistas dizem que precisamos mudar nossos sistemas alimentares radicalmente.Thursday, January 24, 2019

Por Sarah Gibbens
Usando ferramentas de mão e animais de trabalho, uma família colhe trigo nas terras altas da Etiópia, propensas à fome.

HÁ TODA UMA indústria construída em torno da dieta. A maioria dos produtos é destinada a ajudar as pessoas a perderem peso, ganharem músculo ou viverem por mais tempo.

Mas, à medida em que a população humana global cresce, os cientistas se esforçam para elaborar um plano de dieta capaz de alimentar 10 bilhões de pessoas até 2050.

Um novo relatório publicado pela revista britânica de medicina The Lancet afirma fazer exatamente isso. Ele recomenda uma dieta amplamente baseada em vegetais, com pequenas porções ocasionais de carne, laticínios e açúcar. O relatório foi compilado por um grupo de 30 cientistas de diferentes partes do mundo que estudam nutrição ou política alimentar. Por três anos, esses cientistas deliberaram com o objetivo de criar recomendações que pudessem ser adotadas pelos governos para enfrentar o desafio de alimentar uma população mundial que não para de crescer.

“Até mesmo pequenos aumentos no consumo de carne vermelha ou laticínios tornariam essa meta difícil ou impossível de ser alcançada”, indica um resumo do relatório.

Os autores do relatório chegaram às conclusões ponderando os diferentes efeitos colaterais da produção de alimentos. Eles incluíram gases de efeito estufa, uso de água e culturas, nitrogênio ou fósforo provenientes de fertilizantes e a probabilidade de a biodiversidade sofrer um impacto caso uma região fosse convertida em terras agrícolas. Ao administrar todos esses fatores, os autores do relatório afirmam que os gases indutores da mudança climática poderiam ser reduzidos e terras suficientes poderiam ser reservadas para alimentar a crescente população mundial.

De acordo com as conclusões do relatório, o consumo mundial de carne e açúcar deve cair 50%. O que irá variar é quem come menos e onde, declara Jessica Fanzo, uma das autoras do relatório e professora de política e ética alimentar na Johns Hopkins University. O consumo de carne nos Estados Unidos, por exemplo, teria que diminuir e ser substituído por frutas e legumes. Contudo outros países que já enfrentam a má nutrição poderiam incluir a carne em aproximadamente 3% de sua dieta.

 “Enfrentaremos uma situação muito difícil” se nenhuma ação for tomada, declara Fanzo.

Seguindo uma tendência vegana

As recomendações para reduzir o consumo de carne não são novas. Em outubro passado, um estudo publicado na revista Nature estabeleceu diretrizes semelhantes para a redução do consumo de carne e açúcar.

O que é diferente neste novo relatório, conta Fanzo, são as etapas descritas para colocar essa mudança em prática.

Marcado com o que os autores chamam de “Great Food Transformation” (Grande Transformação Alimentar, em tradução livre), o relatório descreve estratégias que variam de menos ativas, simplesmente compartilhando informações, até as mais agressivas, eliminando a escolha do consumidor.

Açougueiro do Texas, nos Eua, faz diversos cortes em pedaços de carne bovina.

“Acredito ser difícil para as pessoas no dia a dia porque os incentivos e as estruturas políticas em vigor não facilitam isso”, diz Fanzo. Mudar quais práticas agrícolas recebem subsídios é uma tática para reformar o sistema alimentar, descreve o relatório. Isso mudaria os preços relativos dos alimentos e, assim, aumentaria os incentivos para os consumidores.

Agora, se um plano desses será realmente adotado no mundo todo é outra história, declara Fanzo.

“Com a atual administração [presidencial], simplesmente não acredito que as coisas irão mudar”, observa ela.

Greg Miller é diretor científico do Conselho Nacional da Indústria de Laticínios dos Estados Unidos. Além de citar os benefícios do leite para a saúde, como o cálcio e a vitamina D, ele adverte contra a transformação do cenário alimentar dos Estados Unidos.

“A vida de milhões de pessoas depende dos laticínios”, diz Miller sobre aqueles que trabalham em fazendas ou são empregados pela indústria de laticínios.

“Poderíamos chegar lá com os incentivos e as políticas certas”, conta Miller sobre tornar a pecuária de leite mais sustentável. São necessários subsídios para que tecnologias melhores sejam implementadas agora. [Os pequenos produtores] não têm renda adicional para fazer algumas das coisas que poderiam ser feitas”.

Técnicas melhores de reprodução criaram vacas capazes de produzir mais leite, por exemplo, e melhores sistemas de rastreamento podem monitorar a ingestão de alimentos e as atividades de um animal.

Longos debates sobre emissões

Nem todos os especialistas estão convencidos de que dietas baseadas em vegetais sejam a salvação da segurança alimentar. Frank Mitloehner, cientista especializado em animais da Universidade da Califórnia, em Davis, tem defendido sua opinião de que a carne está desproporcionalmente relacionada às emissões que causam as mudanças climáticas.

“O que mais me preocupa é que, embora a pecuária tenha um impacto, o relatório faz parecer que essa atividade é a principal fonte de impacto. “O uso de combustíveis fósseis é, de longe, a principal fonte de emissões de carbono”, diz Mitloehner.

De acordo com a EPA, a queima de combustíveis fósseis para uso industrial, geração de energia elétrica e transporte compreende a maior parte das emissões de gases de efeito estufa. A agricultura é responsável por 9% das emissões e a pecuária por cerca de 4% delas.

Mitloehner também discorda do método usado pelo conselho para determinar a quantidade de gases de efeito estufa produzida pela pecuária, dizendo que um peso muito grande foi atribuído ao metano durante os cálculos. Comparado ao carbono, o metano permanece na atmosfera por um período de tempo relativamente curto. Cientistas debatem quanto tempo exatamente, porém estudos mostram que o metano desempenha um papel importante no aquecimento dos oceanos.

Reduzindo o desperdício de alimentos 

Embora as diretrizes alimentares do relatório estejam sendo alvo de críticas, os esforços para reduzir o desperdício de alimentos estão sendo muito bem aceitos. Apenas nos Estados Unidos, quase 30% de todos os alimentos são desperdiçados.

Estratégias para a redução do desperdício são descritas no relatório tanto para os consumidores quanto para os produtores. Tecnologias mais avançadas para armazenamento e detecção de contaminação poderiam ajudar as empresas a reduzirem a quantidade de alimentos descartados, porém educar os consumidores também é considerado uma estratégia eficaz.

É uma perspectiva assustadora para muitos—mudar os hábitos alimentares e reduzir o desperdício de alimentos. Mas Kathryn Kellogg, autora do livro 101 Ways to Go Zero Waste (101 Formas de Evitar o Desperdício, em tradução livre), conta que gasta apenas US$ 250 por mês.

“Há muitas formas criativas de usar nossos alimentos para evitar o desperdício e sinto que a maioria das pessoas não sabe como fazer isso”, conta. Ela cita que alguns de seus hábitos incluem saber cozinhar cada parte de um vegetal e estar constantemente ciente dos alimentos em sua geladeira.

Entretanto, Kellogg vive na Califórnia, próximo a bairros com mercados de produtores acessíveis. Em outras comunidades que vivem em regiões chamadas de desertos de alimentos—onde não há mercados ou mercearias disponíveis—o acesso a frutas e legumes frescos pode ser mais difícil.

“Todas as ações que recomendamos estão disponíveis agora”, conta Fanzo. “Não são tecnologias mirabolantes do futuro. O que acontece é que simplesmente não são implementadas em larga escala”.

Os comissários do relatório realizarão eventos de lançamento em mais de 30 países ao redor do mundo a partir de quinta-feira. Eles planejam recorrer a organizações internacionais, como a ONU, como possíveis executores de suas novas diretrizes.

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