Guias pataxós levam turistas ao Monte Pascoal – e agora contam com ajuda da tecnologia

No caminho para o topo do Monte Pascoal, visitantes têm a chance de ouvir histórias sobre a relação dos indígenas com o lendário pedaço de terra. Pataxós esperam que tecnologia e uso das redes sociais aumentem demanda pelo serviço.Wednesday, March 13, 2019

Por Thais Lazzeri
Fotos de Flavio Forner
Com 536 metros de altura e primeiro pedaço de terra avistado pelos navegantes portugueses em 1500, o Monte Pascoal tem importância histórica e ambiental.

Quem chega ao monte Pascoal, primeira porção de terra brasileira avistada pela esquadra de Pedro Álvares Cabral, na Bahia, tem a chance de conhecer mais do descobrimento do Brasil do que contam os livros. Do lado de cá do além-mar, entre os municípios baianos de Porto Seguro e Prado, indígenas pataxós estão dispostos a revelar sua relação com esse lendário pedaço de terra.

Criado em 1961, o Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal é o único parque nacional a levar “Histórico” no nome. E os pataxós da terra indígena Barra Velha sabem bem o motivo – uma juerana, árvore milenar de mais de 20 metros de altura, um jequitibá centenário onde se batizam os meninos da tribo, os kitok, e alguns paus-brasis descendentes das árvores cobiçadas pelos primeiros portugueses a chegar aqui fazem jus ao nome do parque. Com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão dos parques nacionais do Brasil, os indígenas criaram três trilhas ecológicas – a mais longa leva ao topo do Monte Pascoal – para mostrar a natureza que eles ajudam a preservar.

Em uma oficina promovida pela Conservação Internacional, os pataxós produziram vídeos no celular e em realidade virtual. Putumuju Pataxó usou os óculos de realidade virtual pela primeira vez e pode conhecer a Amazônia.

No fim do ano passado, uma expedição da Conservação Internacional (CI), com ajuda do ICMBio, visitou a aldeia Pé do Monte, na terra indígena Vila Velha, para promover uma oficina com os indígenas. Munida de smartphones, câmeras 360° e óculos de realidade virtual, a instituição mostrou aos pataxós como utilizar as novas tecnologias para promover o turismo na região. O encontro rendeu uma nova conta no Instagram (link) e promoveu um encontro inusitado – com os óculos, os indígenas puderam visitar a floresta Amazônica e outros lugares selvagens da África. Os pataxós ficaram animados com a possibilidade de também fazer um vídeo de realidade virtual no Monte Pascoal.  

“Nós somos uma história viva do descobrimento. Porque foi aqui que começou o Brasil, aqui que começou toda a história. Fazemos a preservação da nossa terra porque entendemos a riqueza que ela tem. E o que a gente busca com essas trilhas é mostrar que todos podem contribuir para manter a floresta em pé floresta”, diz o cacique Guaru Pataxó, de 59 anos.

Desde os 18 anos, Guaru está entre as lideranças da comunidade. Foi estudar para poder lutar pelos direitos do grupo. “Aprendi cedo que todo indígena precisa lutar pelos seus direitos”, diz, emocionado, pelas lembranças que viveu e escutou, como incêndios florestais criminosos provocados por invasores e do massacre contra indígenas durante a ditadura. “Tem turista que quer saber do nosso passado, e aí eu conto. A história do povo indígena é de muito sofrimento.”

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Tragédia ambiental

Em março de 2019, um incêndio, ainda de origem desconhecida, atingiu o Monte Pascoal.. Voluntários, indígenas e brigadistas do ICMBio da região ajudaram os bombeiros a combater o fogo, que avançou especialmente sobre a região do Vale dos Búfalos, próximo a Itaporanga e Caraíva. As altas temperaturas e a falta de chuvas - a estiagem dura mais de três meses - agravaram a situação.

Durante as trilhas, Guaru, um dos 17 guias da comunidade, conta também o que é viver da floresta mantendo as tradições e os rituais indígenas. “Falamos o português de vocês e o patiohã, nossa língua.” Os indígenas lutam para preservar os 10% de Mata Atlântica nativa, de florestas densas, restinga, áreas alagadas, mangue e praia. Ali vivem espécies ameaçadas de extinção, como a preguiça-de-coleira, o ouriço-preto, a onça-pintada e a suçuarana.

O percurso menor tem 700 metros e a trilha com os indígenas até o topo do Monte Pascoal é a mais longa, com 1,7 km. Os pacotes custam entre R$ 60 a R$ 120 por grupo mais R$ 5 por pessoa. A renda do turismo indígena impacta diretamente na qualidade de vida da comunidade.

O guia Kytornã Pataxó e o casal de turistas Appolinário e Vera descansam e observam a paisagem em um dos mirantes no caminho até o topo do Monte Pascoal.

Na avaliação de Cássia Saretta, chefe do parque de 22,4 mil hectares administrado pelo ICMBio, os benefícios do turismo guiado ultrapassam o financeiro. “A visitação com os pataxós está ligada à proteção e à conservação. Cria um sentimento de apropriação e pertencimento. Quem visita vai querer proteger mais o parque, porque aquilo é um museu vivo.”

Ricardo Antonio de Souza, de 58 anos, diz que ainda não se recuperou da trilha rumo ao monte. Não pela altitude, de 536 metros. Nem pelas três horas de caminhada – ele diz que já rodou todas as chapadas brasileiras de bicicleta. Foi o encantamento. “Eu revivi tudo o que já tinha lido e ouvido do descobrimento do Brasil. Foi inesquecível ver aquele horizonte, o mar e a natureza fantástica e preservada graças aos indígenas.”

O horário de visitação no Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal vai das 7h às 16h. Contato pelos telefones: (73) 99814-1696 / (73) 99972-1594 (WhatsApp) / (73) 99823 8426 (WhatsApp)
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