
Gorilas-das-montanhas: o surpreendente nascimento de gêmeos dá esperança a essa espécie em extinção
A gorila-das-montanhas Makufo com seus filhotes gêmeos nos braços no Parque Nacional Virunga, na República Democrática do Congo.
Com pouco mais de 1 mil gorilas-das-montanhas restantes na natureza em todo o mundo, por isso qualquer evidência de reprodução é motivo de comemoração. Mas as notícias vindas da República Democrática do Congo esta semana são duplamente emocionantes: uma gorila-das-montanhas fêmea chamada Mafuko foi fotografada segurando um par de gêmeos machos no Parque Nacional Virunga.
“É sempre ótimo quando espécies ameaçadas de extinção têm filhotes”, diz Tara Stoinski, presidente, CEO e diretora científica do Dian Fossey Gorilla Fund, criado pela zoóloga norte-americana que dedicou sua vida e trabalho aos gorilas-das-montanhas africanos. “E filhotes gêmeos são emocionantes, porque são incrivelmente raros.”
No país vizinho, a Ruanda, Stoinski diz que os dados do Dian Fossey Gorilla Fund mostram que os gorilas têm gêmeos em menos de 1% de todos os nascimentos registrados. Em comparação, os seres humanos têm gêmeos em uma taxa três vezes maior.
“Só ouvi falar disso uma vez antes”, afirma Brent Stirton, fotógrafo da vida selvagem que criou algumas das imagens mais reconhecidas do mundo de gorilas-das-montanhas para a National Geographic.
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Stirton fica surpreso ao saber da existência de novo par de gêmeos gorilas-das-montanhas, dizendo: “É algo milagroso”. Ele vê isso como um sinal de esperança para a população de gorilas-das-montanhas em todo o planeta, que está se recuperando lentamente. “Quando comecei a trabalhar em Virunga, em 2007, restavam apenas 276 gorilas-das-montanhas no mundo.”
Guerras, caça ilegal, doenças e perda de habitat ameaçam os gorilas-das-montanhas, que são uma das duas subespécies do gorila oriental. Na verdade, a mãe de Mafuko foi morta por “indivíduos armados”, de acordo com uma declaração publicada no site do Parque Nacional de Virunga.
No entanto, graças ao trabalho árduo e ao sacrifício pessoal dos guardas florestais e das agências de conservação, bem como à resiliência dos próprios gorilas, os animais continuam lutando.
“Esses gorilas se adaptaram e continuam a prosperar”, comenta Stirton. “Eles desafiam todo o senso comum.”
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Os cuidadores do Orfanato de Gorilas Senkwekwe interagem com gorilas-das-montanhas órfãos na sede de uma divisão de conservação administrada pela República Democrática do Congo. Os gorilas aqui ficaram órfãos depois que seus pais foram mortos. Os filhotes são frequentemente capturados com a intenção de serem vendidos no comércio ilegal de animais selvagens. Quando os caçadores ilegais não conseguiam vender os filhotes, os órfãos eram abandonados e posteriormente resgatados. Este é o único orfanato de gorilas das montanhas do mundo, liderado por Andre Bauma, um dos maiores especialistas mundiais nesses animais.
Por que o nascimento dos gêmeos gorilas é tão importante?
Para entender por que os especialistas estão tão entusiasmados com a notícia dos gorilas gêmeos, é preciso primeiro compreender o quão lentamente esses animais se reproduzem, diz Stoinski.
“As fêmeas só têm seu primeiro filhote por volta dos 10 anos de idade”, diz ela. “E as fêmeas geralmente dão à luz a cada quatro anos.”
Essa taxa de reprodução lenta limita a rapidez com que a população pode responder às ameaças. E, assim como os humanos, os bebês gorilas precisam de muito cuidado dos pais.
“Uma das coisas que as pessoas adoram nos gorilas é o quanto eles são parecidos conosco e como podemos nos ver refletidos neles”, afirma Stoinski. “As fêmeas gorilas são mães incríveis, e os filhotes dependem totalmente delas.”
Embora os gorilas possam ficar em pé e andar sobre duas patas, eles preferem se mover sobre quatro. E quando uma fêmea tem um filhote, isso significa que um de seus braços fica ocupado carregando o pequeno. Segurar dois filhotes torna-se duplamente difícil.
As fêmeas que dão à luz gêmeos também precisam produzir o dobro de leite, diz Stoinksi. Tudo isso contribui para uma menor taxa de sobrevivência dos gêmeos, afirma ela.
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Um gorila pode ser “o animal mais fofo que você já viu”
Com cerca de 2kg ao nascer e cobertos por pelos pretos e espessos, Stirton diz que os bebês gorilas-das-montanhas são “definitivamente um dos animais mais fofos que você já viu”. Mas é a relação dos bebês com os gorilas maiores que o fascina.
“Uma coisa interessante é que os gorilas de costas prateadas que brincam com as crianças e são gentis com elas têm muito mais tempo para acasalar com as fêmeas”, diz ele. “As fêmeas são bem espertas quanto a isso. Elas pensam: ‘Espere um minuto. Esse cara é um bom pai. Eu quero ficar com ele’”.
E os machos grandes que são mal-humorados e ferozes? “Eles não têm ação”, explica Stirton, que retornará a Virunga em três semanas em uma missão com a National Geographic.
Quanto ao que acontecerá com os gêmeos, ninguém sabe ao certo. Cerca de 33% dos gorilas-das-montanhas bebês de Ruanda morrem antes de atingir a idade adulta, diz Stoinski. Mas, no geral, os gorilas-das-montanhas estão se saindo melhor do que os especialistas esperavam há apenas alguns anos.
“Esta é uma subespécie que Diane Fossey pensava que estaria extinta antes do ano 2000. E, neste momento, eles são os únicos grandes primatas do planeta, além dos humanos, cujo número está aumentando”, afirma ela.
“Desejo toda a sorte do mundo a Mafuko para cuidar desses gêmeos”, comenta Stoinski. “Todos nós estaremos torcendo por ela.”
** Jason Bittel é Explorador da National Geographic e autor do livro “Grizzled: Love Letters to 50 of North America’s Least Understood Animals”, que será publicado pela National Geographic Books em 3 de março de 2026, nos Estados Unidos.