Planeta ou Plástico?

Embalagem plástica de cigarro encontrada dentro de água-viva

O rótulo, ainda legível, nos lembra que o plástico está em todo lugar.Tuesday, September 25

Por Sarah Gibbens
O rótulo da empresa de cigarros Philip Morris permanece visível no animal.

SE VOCÊ OLHAR de perto, vai conseguir ler as palavras “Philip Morris International”. O nome da empresa de tabaco pode ser visto na faixa transparente do envoltório de uma caixa de cigarros fotografada dentro de uma água-viva Pelagia noctiluca, encontrada nadando no Mar Mediterrâneo.

Animais que tentam evitar o plástico no oceano precisam navegar por entre um campo minado. Mais de oito bilhões de quilos de plástico fluem para os oceanos todo ano, tornando difícil para os animais, como as águas-vivas, evitá-los.

Em abril do ano passado, um estudo publicado pelo periódico Scientific Reports divulgou as primeiras evidências de plástico dentro de uma água-viva.

A água-viva foi encontrada no Mar Mediterrâneo em 2016 por um grupo de cientistas que participavam da Expedição Aquatilis, pesquisa de três anos com foco em explorar os oceanos do planeta. Em seu estudo, os pesquisadores dizem que várias águas-vivas apresentavam diversos tipos de lixo plástico presos sob suas cabeças ou entrelaçados em seus tentáculos.

Quando doze águas-vivas foram coletadas e inspecionadas de perto, quatro delas foram encontradas com plástico em seus sistemas digestivos, levando os cientistas a acreditarem que as águas-vivas haviam confundido o plástico com comida.

“Parece que elas realmente amam plástico”, disse um dos autores do estudo, Armando Macali, ecologista da Universidade de Tuscia, na Itália. Ele diz que ele e os demais autores do estudo estão veemente convencidos que a água-viva carregava o plástico porque estava tentando comê-lo.

Estudos anteriores já mostraram que animais consumindo resíduos plásticos acidentalmente são um problema abrangente. Cientistas acreditam que os animais os consomem devido a sua semelhança às suas presas: as tartarugas comem sacolas plásticas que se assemelham às águas-vivas, e peixes comem plásticos do tamanho de grãos de arroz porque se assemelham à sua comida normal.

O plástico no oceano também cheira bem para algumas criaturas marinhas. Em 2016, um estudo publicado na revista Science Advances constatou que algas crescem facilmente no plástico nos oceanos e, com sua degradação, o plástico emite um odor chamado dimetilsulfureto, que atrai animais famintos.

Não está claro por que as águas-vivas foram atraídas para o plástico, diz Macali. Depois que o lixo plástico chega aos oceanos, ele começa a se desintegrar, e finas camadas de biofilme o revestem. Macali suspeita que o biofilme ou alguma molécula do plástico em desintegração tenha atraído as águas-vivas.

Em experimentos futuros, ele planeja expor águas-vivas à diversos tipos de resíduos plásticos em condições de laboratório. Se os cientistas forem capazes de identificar especificamente o que atrai os animais, ele diz, eles poderão possivelmente trabalhar com os fabricantes para que o plástico confeccionado seja menos atraente para a vida marinha.

Os cientistas observam que o fato da água-viva estar tentando comer a embalagem plástica é um mau sinal da saúde do animal. Águas-vivas Pelagia noctiluca podem consumir até 50% do peso de seus corpos, e ingerir muito plástico pode fazer com que os animais morram de fome lentamente.

Como presas de espécies maiores do Mar Mediterrâneo, águas-vivas carregadas de plástico podem causar impactos similares à saúde dos animais que as consomem. O atum-rabilho, um dos predadores mais abundantes desta água-viva, é comumente pescado e ingerido por pessoas e animais marinhos, o que significa que os fragmentos microscópicos de plástico consumidos pelas águas-vivas podem ir parar na barriga de espécies maiores, como nós.

É um problema complicado, o qual pesquisadores ainda estão tentando compreender a escala, diz Macali. Compreender como as águas-vivas interagem com o plástico nos oceanos será apenas uma peça de um quebra-cabeça maior, ele complementa.

“Se quisermos compreender o destino do plástico nos oceanos, precisamos começar no início da cadeia alimentar”.