Em meio à lama de Brumadinho, bombeiras dividem-se entre o desafio pessoal e as questões de gênero

Com representatividade pequena, mas significativa, profissionais de todas as partes do estado de Minas Gerais desempenham funções cruciais nos resgates. Ainda há 115 pessoas desaparecidas após a tragédia.sexta-feira, 8 de março de 2019

Por Andressa Zumpano
Fotos de Tuane Fernandes
"A gente costuma falar que mulher tem que trabalhar muito mais do que um homem para mostrar que é capaz. Então eu penso que a gente não pode desistir, tem que fazer nem que seja dez vezes mais. Mas a gente faz e mostra que é capaz, pois a partir daí passam a reconhecer e confiar em nosso trabalho. Não é que somos incapazes porque somos mais fracas – nós somos capazes da mesma forma e estamos aqui pra mostrar isso." –  Terceira sargento Natália Daisy.
"A gente costuma falar que mulher tem que trabalhar muito mais do que um homem para mostrar que é capaz. Então eu penso que a gente não pode desistir, tem que fazer nem que seja dez vezes mais. Mas a gente faz e mostra que é capaz, pois a partir daí passam a reconhecer e confiar em nosso trabalho. Não é que somos incapazes porque somos mais fracas – nós somos capazes da mesma forma e estamos aqui pra mostrar isso." – Terceira sargento Natália Daisy.
Foto de Tuane Fernandes/Farpa

Passados vinte dias do rompimento da barragem 1 da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), a terceira sargento dos Bombeiros Natália Daysi subiu mais uma vez em uma caminhonete para outra operação de busca de vítimas da tragédia. Dessa vez – acompanhada da reportagem –, o destino era a chamada “zona quente”, área onde localizavam-se todos os prédios administrativos da empresa Vale. Os bombeiros, no entanto, não estavam certos de quantas pessoas encontrariam ali – a maioria dos funcionários do lugar estava próxima do refeitório, em horário de almoço, quando a barragem se rompeu.

Daysi, bombeira militar operacional há nove anos, era a única mulher de uma equipe com cerca de 30 pessoas que se dividiu pela área em busca de corpos e documentos que pudessem identificar as vítimas. Naquele dia, logo na chegada ao local, a equipe da sargento localizou dois corpos de funcionários da empresa soterrados pela lama da barragem. Em um cenário de completa destruição, com carros, máquinas e árvores retorcidas, localizar vítimas era um sinal de esperança e dever cumprido.

“Estive em Mariana por duas semanas, então já tenho essa experiência com rompimento de barragem. É muito parecido, porém com um número bem maior de vítimas”, disse Daysi. “É uma rotina exaustiva, mas o sentimento é de dever cumprido. A cada dia que passa, a gente se empenha ao máximo e fica com essa sensação.”

(Relacionado: "É preciso banir as barragens de rejeitos de minério no Brasil, dizem ambientalistas")

Desde o rompimento da barragem da Vale na mina do Córrego do Feijão, em 25 de janeiro, até a publicação desta reportagem, em 8 de março, foram confirmadas 193 mortes e 115 pessoas seguem desaparecidas. Equipes de resgate de todo Brasil ainda chegam para trabalhar nas buscas intensivas aos desaparecidos, em operações que duram cerca de 12 horas por dia.

Questões de gênero

O Corpo de Bombeiros conta com aproximadamente 400 militares, entre campo operacional e administrativo, por turno, em Brumadinho. Desses, há uma média de 10 bombeiras.  A troca de equipes acontece a cada sete dias. A posição oficial do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais é que não há número exato entre homens e mulheres, pois considera que todos dispõem de mesmo tratamento dentro da corporação.

A segunda sargento Lucilene Marinho do Nascimento, 31 anos, é bombeira militar no serviço operacional há 10 anos. Atualmente, faz parte do 6º Batalhão de Bombeiros Militares de Governador Valadares (MG) e trabalha no setor de prevenção contra incêndios e pânico. Ela chegou a Brumadinho para ajudar nas buscas às vítimas em 31 de janeiro e retornou em 8 de fevereiro. Nascimento tem especialização em salvamento em soterramento, enchentes e inundações e trabalhou no atendimento operacional de salvamentos e resgates urbanos por seis anos, três dos quais sobre uma moto.
A segunda sargento Lucilene Marinho do Nascimento, 31 anos, é bombeira militar no serviço operacional há 10 anos. Atualmente, faz parte do 6º Batalhão de Bombeiros Militares de Governador Valadares (MG) e trabalha no setor de prevenção contra incêndios e pânico. Ela chegou a Brumadinho para ajudar nas buscas às vítimas em 31 de janeiro e retornou em 8 de fevereiro. Nascimento tem especialização em salvamento em soterramento, enchentes e inundações e trabalhou no atendimento operacional de salvamentos e resgates urbanos por seis anos, três dos quais sobre uma moto.
Foto de Tuane Fernandes/Farpa

O número reduzido de mulheres trabalhando em campo operacional chama a atenção para os reflexos societários da divisão sexual do trabalho, que atingem diretamente as instituições militares. No processo seletivo para o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, 10% das vagas são destinadas às mulheres – mesmo assim, nem sempre são todas preenchidas.

“A questão de gênero existe, é uma divisão histórica tanto dentro das instituições militares quanto fora”, disse a segunda sargento Lucilene Marinho dos Santos. “Mas, como são poucas, as mulheres tendem a ficar mais próximas, tendem a ter mais empatia uma pela outra e pelas situações de desafio pessoal".

(Saiba mais: "Lama da barragem de Brumadinho já matou mais da metade do rio Paraopeba")

A rotina de trabalho exaustiva no resgate às vítimas de Brumadinho exige uma equipe operacional específica. Todas as bombeiras mulheres em campo são especialistas na área de salvamento em soterramento, enchentes e inundações. Elas também são instrutoras de cães – ativos importantes na localização das vítimas. Entre as militares acompanhadas pela reportagem, a média de atuação em campo operacional era de cinco a dez anos.

1º Tenente Silvane Priscila Adonay Martins Andrade tem 29 anos e é bombeira militar a dez. Ela pertence ao 4º Batalhão de Bombeiros Militares de Juiz de Fora (MG) e também passou uma semana em Brumadinho ajudando nos resgates. Já foi chefe de serviço operacional, chefe da comunicação, chefe de logística e hoje trabalha como chefe do Centro de Operações do Corpo de Bombeiros (Cobom, a central de chamadas 193) de Juiz de Fora. Apesar de passar boa parte da rotina na área administrativa, ela também é escalada em plantões e, por isso, realiza atendimentos de emergência. Andrade é especialista em busca e resgate em estruturas colapsadas, gestão de desastres e ações de recuperação, gestão de risco e mapeamento de áreas de risco. Além disso, contribui nos treinamentos do batalhão.
1º Tenente Silvane Priscila Adonay Martins Andrade tem 29 anos e é bombeira militar a dez. Ela pertence ao 4º Batalhão de Bombeiros Militares de Juiz de Fora (MG) e também passou uma semana em Brumadinho ajudando nos resgates. Já foi chefe de serviço operacional, chefe da comunicação, chefe de logística e hoje trabalha como chefe do Centro de Operações do Corpo de Bombeiros (Cobom, a central de chamadas 193) de Juiz de Fora. Apesar de passar boa parte da rotina na área administrativa, ela também é escalada em plantões e, por isso, realiza atendimentos de emergência. Andrade é especialista em busca e resgate em estruturas colapsadas, gestão de desastres e ações de recuperação, gestão de risco e mapeamento de áreas de risco. Além disso, contribui nos treinamentos do batalhão.
Foto de Tuane Fernandes/Farpa

Trabalho em Brumadinho

Para as bombeiras de Brumadinho, estar ali – com uma representatividade ainda pequena, mas significativa – é motivo de inspiração em dias difíceis. Entre as mulheres que se destacavam, estava a cabo Carolina Viriato, bombeira militar há 10 anos, instrutora e especialista em busca, salvamento e resposta a desastres no Batalhão de Emergências Ambientais e Respostas a Desastres de Belo Horizonte. Viriato é instrutora de cursos especializados na corporação e referência em operações de alta complexidade como as que ocorrem em Brumadinho. Quando ingressou no batalhão especializado era a única mulher. Hoje, sua equipe já conta com quatro mulheres, sendo três em campo operacional.

(Leia: "Uma semana após tragédia em Brumadinho, consequências ainda são incalculáveis")

“A mulher trabalhando em área operacional é colocada sempre à prova, sobretudo no começo, de modo que muitas desistem e migram para a área administrativa”, disse Viriato ao falar sobre as dificuldades que o gênero impõe à profissão. “Somos poucas, mas ter mulheres atuando no serviço operacional é muito importante para que as pessoas vejam que isso é possível e para que outras mulheres vejam que podem trabalhar nessa área, pois não é um serviço exclusivo dos homens.” Mas já existem alguns esforços para combater essas questões. Viriato contou que as bombeiras promovem encontros nacionais e estaduais para debater pautas relacionadas a gênero na corporação.

O companheirismo entre as bombeiras fica evidente na admiração da sargento Natália Daysi pelo trabalho da cabo Viriato. “É uma satisfação muito grande ver mulheres bombeiras como inspiração, quando a gente vê outra mulher aparecendo positivamente, sendo reconhecida pelo seu trabalho, isso é muito satisfatório para todas. Uma mulher reconhecida é sinal de que o trabalho de todas está sendo reconhecido também, de certa forma”, disse Daysi a respeito da colega de batalhão. “Isso é bom pra mim ou pra qualquer outra que esteja desestimulada.”

O número reduzido de mulheres trabalhando em campo operacional chama atenção para os reflexos societários da divisão sexual do trabalho, que atingem diretamente as instituições militares.
O número reduzido de mulheres trabalhando em campo operacional chama atenção para os reflexos societários da divisão sexual do trabalho, que atingem diretamente as instituições militares.
Foto de Tuane Fernandes/Farpa
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