Viagem e Aventura

Austrália está banindo a escalada em famoso monumento natural

Depois de décadas de controvérsia, o Uluru será fechado para escaladores em breve — uma decisão que agradou os aborígenes, donos da área.quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Por Kennedy Warne
Uluru, um enorme monólito de arenito na Austrália central, sagrado para os povos aborígenes, será fechado em breve para escalada após anos de debates.

É primavera no deserto australiano, e estou na base de um monólito enorme cor de ferrugem conhecido como Uluru, ou Ayers Rock, junto com um grupo de viajantes da National Geographic Expeditions que estou guiando em uma excursão de duas semanas pela Austrália e Nova Zelândia. Acima de nós um caminho serpenteia pela face lisa da rocha de arenito.

Desde a década de 1930, quando essa formação começou a ficar conhecida dos estrangeiros — para então tornar-se uma das principais atrações turísticas da Austrália— centenas de milhares de visitantes escalaram essa trilha até o topo da rocha.

Mas não hoje. Uma placa no começo da trilha diz que a subida está fechada por causa do extremo calor e risco de ventos fortes.

E, daqui a pouco tempo, estará para sempre. Dois dias antes da nossa chegada, o conselho do Parque Nacional Uluru–Kata Tjuta anunciou que a partir de 26 de outubro de 2019 Uluru estará permanentemente fechada para escalada.

Para os proprietários aborígenes da rocha, cuja ocupação daqui já tem dezenas de milhares de anos, essa é uma decisão importante, que eles sonharam e trabalharam para conseguir por décadas. Para eles, Uluru é um lugar intensamente sagrado e uma ligação potente com espíritos ancestrais que moldaram o território. Pela maior parte de um século, eles se sentiram enojados enquanto pessoas defecaram, ficaram nuas, e jogaram golfe nesse lugar onde aborígenes acreditam que espíritos de seres ancestrais continuam a morar.

Apesar de o Parque Nacional Uluru–Kata Tjuta ter experimentado um aumento no número de visitantes depois da proibição de escalada ter sido anunciada, a porcentagem de visitantes que tentaram escalar tem diminuído ao longo das últimas décadas à medida que se espalhou a consciência do pedido dos proprietários tradicionais para que a paisagem seja tratada com respeito.

Ainda assim, esses sentimentos significaram muito pouco quando colocados na balança com os dólares gerados pela economia do turismo. Se visitantes queriam escalar a rocha, quem eram os aborígenes, o povo nativo da Austrália, caluniado e marginalizado, para impedi-los?

Imagine a euforia que os proprietários aborígenes sentiram quando o conselho do parque votou unanimemente para encerrar a escalada. O diretor do Conselho Central de Território, que representa os povos nativos na Austrália central, disse que a decisão estava "corrigindo um erro histórico."

Hoje, no início do caminho na subida da rocha, vários painéis informativos grandes expressam o sentimento do povo Anangu do local tanto a respeito de seu lugar mais sagrado quanto pelo bem-estar dos visitantes. Abaixo do título "Por favor não escale," está na placa: "Esse é nosso lar. Como guardiões, somos responsáveis por sua segurança e seu comportamento. Preocupamo-nos com vocês e com suas famílias.”

Não é da boca para fora. Desde a década de 1950, pelo menos 36 pessoas morreram enquanto escalavam a Uluru. Entre 2002 e 2009, 74 escaladores precisaram de resgate médico. Os Anangus levam o papel de anfitriões a sério.

Perto dali, na Kata Tjuta—36 domos de rochas conglomeradas esfregadas e suavizadas por eras de vento e água—placas convidam visitantes a se relacionar com o local como os nativos fazem. Está nas placas, em parte: “Kata Tjuta é sagrado. Nosso povo sempre demonstrou respeito ao visitar esse lugar. Eles acampavam a uma curta distância e caminhavam em silêncio. É o mesmo agora. É o mesmo para vocês. Guardem no coração o conhecimento de que esse é um lugar especial. Andem em silêncio, pisem devagar.”

A Via Láctea sobre o Uluru.

Outras mensagens descrevem a possibilidade de um encontro mais profundo com a paisagem do que simplesmente se maravilhar com o esplendor do cenário. No centro cultural em Yulara, o assentamento mais próximo, tem um depoimento do finado ancião Anangu Tony Tjamiwa: "O turista vem aqui com a câmera tirando fotos de tudo. O que ele tem? Outra foto para levar para casa, guardar parte de Uluru. Ele deveria pegar outra lente—ver lá dentro. Não veria a grande rocha assim. Ele veria a Kuniya [criatura da criação, píton de areia] vivendo lá dentro como no início. Ele talvez até jogaria a câmera fora.”

Outra decisão tomada pelos Parques da Austrália foi insistir que todos os guias turísticos completassem um curso de credenciamento desenvolvido pela Universidade Charles Darwin. Particularmente, essa exigência garante que guias não-aborígenes contem as histórias aborígenes corretamente.

Na vida aborígene, histórias sagradas não são somente narrativas de algo que aconteceu uma vez. Elas podem ser invocações poderosas para presenças ancestrais que permanecem ativas no "país"—a palavra usada para expressar a profunda relação aborígene com a terra. País é como um membro da família. Se a história está errada, o país sofre. Quando o país sofre, o povo sofre.

Os guias do parque para o nosso grupo estavam entusiasmados e dispostos a usar a ênfase na precisão e estavam com muita vontade de nos ajudar a nos envolver com histórias e filosofias dos Anangu. Cada vez que chegávamos ao parque nacional, eles nos cumprimentavam na língua Pitjantjatjara do local, que serve para receber visitantes e para anunciar à terra que estranhos estão entrando.

Em vez de simplesmente encorajar visitantes a não escalar, a gerência do parque foi esperta em arranjar um jeito para que eles sentissem que contribuíram em algo com sua decisão. Antigamente, as pessoas que chegavam ao topo da Ayers Rock podiam registrar sua conquista em um livro de visitantes no topo. Então, no centro cultural em Yulara, a equipe colocou outro livro, o registro "eu não escalei", onde os visitantes podem assinar e comentar o motivo pelo qual decidiram não fazer a subida. O livro permite que os visitantes vejam sua decisão como um aval ativo dos valores aborígenes, em vez de uma abstenção passiva. Assinar se torna um registro de uma conquista diferente.

Uma resposta inesperada à percepção que vem sendo desenvolvida de Uluru como um local sagrado tem sido o retorno da própria rocha—ou, melhor dizendo, de pedaços. Ao longo dos anos os visitantes furtaram pedaços de Uluru como lembranças. A medida em que a consciência das crenças aborígenes começou a se espalhar na sociedade australiana, as pessoas começaram a mandar as rochas de volta. Quase diariamente, a equipe do parque nacional recebeu pacotes de rochas de todo o mundo com mensagens de arrependimento. (O pedaço mais pesado devolvido até hoje pesa 31 quilos). Alguns dos remetentes disseram ter sido amaldiçoados com má sorte desde que levaram as rochas para casa, mas a maioria simplesmente escreveu que reconhecia que o que eles (ou parentes de décadas atrás) fizeram foi errado. A história dessas “rochas de desculpas,” como são chamadas, foi amplamente divulgada e reforça a mensagem do quanto Uluru é sagrada.

Por volta de 2013, o número de pessoas que escalavam despencou. Na década de 1990, 74 por cento dos visitantes escalou o monólito de arenito de 348 metros. Por volta de 2010 a porcentagem caiu para menos de 40 por cento. Cinco anos depois era somente 16 por cento. Uma pesquisa em 2016 descobriu que mais de três quartos dos visitantes sabiam da mensagem "por favor não escale" antes de chegarem, e mais de 90 por cento disseram que não escalariam.

Em vez disso, visitantes podem pular de paraquedas, andar de camelo, e passear de bicicleta, ou podem assistir a artistas aborígenes fazendo suas famosas pinturas de ponto no centro cultural de Yulara. Áreas para ver o nascer e o pôr-do-sol dão ótimas vistas aos visitantes tanto de Uluru quanto de Kata Tjuta. E do lado de fora do parque, mais de 200.000 visitantes viram a instalação de arte de Bruce Munro, inspirado em Uluru, "Field of Light", desde que abriu em 2016.

Os Anangus gostam de turismo, mas não às custas da cultura. “O povo branco vê a terra em termos econômicos,” Sammy Wilson, diretor do conselho do parque, afirmou, “enquanto os Anangu a vêm como tjukurpa [a fonte ancestral do ser]. Se tjukurpa se for, tudo se vai.”

Há um momento antes de o sol se pôr quando os flancos de Uluru virados para o oeste brilham alaranjados, como se a rocha estivesse em chamas. O brilho é feroz, intenso, vivo. 250 mil pessoas por ano vêm presenciar essa sinfonia de luz e, cada vez mais, aprender algo sobre a civilização viva mais antiga da Terra.

Ao não escalar, elas honram a tjukurpa aborígene. Ao honrar a tjukurpa, eles honram a terra.

Continuar a Ler